bem prega Frei Tomás…

Não há quem não conheça, e não diga com alguma frequência, a sentença: Bem prega Frei Tomás; faz(ei) o que ele diz, não faça(i)s o que ele faz. Mas, talvez, o que pouca gente sabe é quem foi esse Frei Tomás, porventura quase todas essas pessoas ainda presumindo que esse nome seja apenas um nome inventado pela necessidade de rima e que nada tem a ver com qualquer realidade. Engana-se, porém, quem tal suposição fizer!…
Frei Tomás existiu, e sabe-se, positivamente, quem foi. Mais: o provérbio que ele motivou, que ele próprio o fez, é autêntico e, tanto as principais circunstâncias da sua existência, como os fundamentos do seu pitoresco dito, são conhecidos com exactidão.
Frei Thomaz de Souza, assim se chamava, nasceu em Ponte da Barca, em 1550, e era filho de Manoel Magalhães, morgado da Fonte Arcada. Talentoso, o rapaz, e bem protegido, aos dezoito anos, foi para Lisboa, onde vestiu o hábito religioso no Convento de S. Domingos. Não tardou que se revelasse um pregador de grandes aptidões, alcançando notáveis e muito falados triunfos oratórios. A sua notoriedade chegou tão alto que o rei D. Sebastião o nomeou pregador régio e, sua avó, D. Catarina o escolheu para seu confessor.
Frequentando assiduamente o Paço, usando de grande liberdade na expressão do seu pensar e sentir, aproveitou-se da influência de que dispunha para corrigir, até onde lhe fosse possível e tivesse vontade, os vícios dos cortesãos e os maus costumes dos corredores do Paço. Foi então que um fidalgo anónimo, vai-se a ver, azedo com os seus ditos, lhe pregou à porta do quarto um letreiro, onde escrevera: Aqui mora Frei Thomaz, que bem o diz e mal o faz.
O frade, que para além do mais, tinha espírito, quando leu a inscrição, não a apagou, nem deu mostras de qualquer contrariedade. Apenas, escreveu por baixo: Fazei vós o que elle diz e não façaes vós o que ele faz.
E assim, deixou ficar o letreiro. Como se vê, e facilmente entende, a réplica foi feliz. E a verdade é que toda a corte o festejou, especialmente depois de saber-se que o rei aplaudira a tirada do seu pregador, e a rainha-mãe o acerto na resposta do seu confessor.
Curiosamente (ou não…) quem não lhe era muito afeiçoado era o cardeal D. Henrique e disso deu prova, em 1578, por ocasião de Frei Tomás ter sido eleito provincial da sua Ordem. O cardeal que era, então, legado a altere, anulou a eleição, substituindo-o por frei António de Souza.
Diogo Bernardes, poeta e grande amigo do frade, refere-se-lhe assim, em Lima:
Divino preceptor da Lei Divina,
Thomaz, que ao grão Thomaz vais imitando,
Na vida, na lição e na doutrina!
Do resto, nada mais se sabe sobre Frei Tomás. Desaparecidos os seus protectores reais, extinguiu-se, não se sabe como, nem quando, talvez na obscuridade da sua cela de religioso e na humildade do seu hábito dominicano.

 

 

 

(bem prega Maria, em casa vazia)