bera

Bera é qualquer coisa (também animal ou pessoa) de má qualidade; mais ainda zangado, furioso, enraivecido, na forma proverbial de ficar ou estar bera.
Relativamente à primeira asserção (ser algo rasca, pífio ou ordinário, Paulo Osório, redactor principal do Diário Illustrado, de Lisboa, nos começos do século passado, no seu interessantíssimo livro Lisboa Chronicas, 1906, não só explica cabalmente a origem da expressão, como lhe dá nota da efêmera vida que envolveu uma picardia que, ainda hoje, inflama e arrebata as suas duas personagens…
Muito curioso, acredite! Do livro, aqui tem a cópia integral do texto que lhe refere. Leia, leia…
Bera American Diamond Palace fecha brevemente as suas portas recatadas e as suas luminosas montras á illudida ambição do mundo lisboeta. As preciosas imitações, que d’antes se vendiam a dois mil e quinhentos, já hoje se liquidam a cinco tostões unicamente e, d’aqui a pouco, vendida a armação, vendida a mobilia, trespassada a loja, no angulo da rua do Carmo e do Chiado, que meia Lisboa dobra, em cada dia, qualquer outra tentativa surgirá, vistosa, a deslumbrar os olhos curiosos, á espera talvez d’outra ruina. E esse publico que, ha três annos, acolhia com jubilo a novidade, se acotovellava ancioso deante da luz electrica das vitrines e trémulamente transpunha, furtando-se a vistas indiscretas, as portas a que umas cortinas verdes davam um sombrio ar de mysterio, e esse publico, burguês ou nobre, que corria a cobrir-se de pedras falsas para se dar um momento a essa sensação de opulência que o deslumbra por uma vida inteira de sacrifício e de pobreza, ou, numa hora afflicta, ali trocava as preciosidades authenticas dos seus adereços ricos – esse publico frivolo, ingrato, egoísta, vê desapparecer, sem quasi dar por isso, essa feerica lojasita que tão docilmente serviu as suas ambições de megalomano.
Dizem que o insuccesso da empresa, que em Lisboa teve, ao iniciar-se, segundo os proprios interessados proclamam, um exito como de nenhuma parte ainda conhecia, se deve sobretudo a uma tentativa infeliz feita no Porto; e effectivamente isso parecem confirmar os que nos contam o luxo, mais deslumbrante sem duvida que o de cá, d’essa vistosa loja que um dia iliuminou na calçada de Santo Antonio para o olhar, só um momento curioso, d’um publico morigerado para quem seria um crime lá entrar. Nas duas cidades móres do reino, o feitio de vida, como o caracter do povo, é tão differente que de prevêr seria que coisas taes como os Beras, de tal modo ajustadas á maneira de ser d’uma, por força fracassassem como inúteis quando, em má hora, transplantadas para a outra.
O Porto d’hoje está, tal e qual, o Porto de ha vinte, de ha trinta, de há quarenta, annos talvez, – se é que a invicta cidade algum dia foi d’outra maneira, – apenas uns dois clubs carnavalescos para mais e uns ardores revolucionarios para menos. E uma terra de natureza pouco bella, desamparada das grandes iniciativas civilizantes, onde os carros de bois cruzam as ruas e só usam passear, por assim dizer, os que trabalham. O Porto conserva ainda, e muito, essa tradição do lar que em Lisboa, como é sabido, vae indo quasi extincta; a palavra familia não é ainda ahi, como entre nós vae sendo, qualquer coisa como um rotulo que serve para ligar, numa nomenclatura mais breve, um grupo de indivíduos que geralmente dormem sob o mesmo tecto, a quem acontece por vezes comerem á mesma mesa e que têm entre si mais ou menos averiguadas relações de parentesco. No Porto, as casas burguesas – uma para cada família – têm condições de conforto que as nossas casas da baixa não possuem; no Porto, o centro da cidade ó uma pequena praça de província onde vão ter algumas íngremes ladeiras que é fastidioso subir a pé, sem precisão; no Porto, os theatros falham e a convivência mundana é quasi nulla. Ahi, as joias de família, authenticas, sagradas, transmittidas de paes a filhos como a tradição das severas normas de conducta, appareeem uma vez por outra no theatro lyrico, cuja pequena sala é raro, três noites a fio, encontrar cheia, e, a espaços, de anno a anno, nos bailes do Club. Ahi, a senhora burguesa sae de tempos a tempos, vêr as novidades nas montras, fazer as suas compras ou pagar as suas visitas. O chá, toma-o ás horas do deitar na cama ou quando sente agonias no estomago, dos automóveis foge, mal os vê apontar no fim da rua, e dos escândalos galantes só quer saber para verberar a immoralidade dos tempos d’hoje o cortar relações com quem transija.
Que iam pois fazer os pobres Beras a uma terra em que os hábitos patriarchaes ainda são norma e o estroina é apontado, como um pecador da peor marca, quando passa na rua triumphante, nos caracoleios do seu cavallo branco; em que tudo é de lei e garantido, desde as convicções liberaes, sempre provadas, até ao amor conjugal o aos bons costumes; em que ha em alto grau o culto do trabalho, as donas de casa ponteiam roupa, cuidam dos maridos, alimentam os filhos, – e onde se conserva ainda a usança antiga do almoçar o jantar todos os dias? A vitrine dos Beras era a imagem do artificio, do pecado ; as mães mudavam de passeio para as filhas não poisarem ali os olhos innocentes, os meninos dos collegios deixaram de por lá passar ás quintas-feiras…
Como reflexo do desastre do Porto, a loja de Lisboa fraquejou; e eis como o puro exemplo do norte privou a capita! d’essa mysteriosa e tentadora instituição que ia já fazendo parte integral dos seus costumes.
Vão pois os Beras diamantes, o que não quer dizer que partam d’esta linda cidade os Beras todos. Porque, se tal acontecesse, seria uma coisa lamentavel, tanto diminuiria em concorrência e em brilho o explendor dos centros lisboetas. Vão os Beras de ourivesaria, é certo, mas outros ficarão passeando o seu dandysmo por essas animadas ruas de Lisboa: os Beras aristocratas, com pergaminhos creados numa pennada de ministro, os Beras da diplomacia, secretariando na rua do Oiro e no Chiado as suas legações ignoradas, os Beras do emprego publico que ás suas infimas repartições jámais desceram, os Beras da arte, que meditam no Suisso ou no Martinho as suas grandes obras ineditas ou os seus emocionantes dramas recusados, os Beras da gastronomia a quem os pasteis do Marques, alimentam a doirada iIlusão d’um bom sustento, os Beras ‘dilettanti’ que pateiam Massenet, adoram a Tosca e não toleram Wagner, os Beras democratas que na opposição poem gravata vermelha e ameaçam com voz troante as instituições, que Deus conserve…
Esses e outros irão ficando, por fortuna, para que esta capital não caia de repente num desanimo infinito e numa solidão desoladora.
5 de Dezembro de 1906
Diga lá se, com esta, o bate-boca não fica mais… bera?
(ver marca roscof)

 

 

 

(minha comadre tem ofício de rã: bebe e palra)