emprenhar pelos ouvidos

A expressão, que ganhou contornos de identificar quem acredita em tudo o que ouve, parece não haver dúvida que tem a sua génese na Anunciação, a referência bíblica à gravidez da Virgem Maria.
O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de David e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação. O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai David; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim. Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem?
Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus.

(isto, segundo Evangelho S. Lucas 1:26, no que podemos admitir ser uma tradução livre, sem que tal altere o conteúdo essencial).
Assim, a gravidez acontece ao ser anunciada. Tal como aconteceu a Isabel (sendo esta já velha), sua prima e mulher do sacerdote Zacarias.
Esta Anunciação, de Isabel (mãe de João Baptista) e, seis meses mais tarde, de Maria, é um dos pontos nodais da narrativa bíblica e, naturalmente, um dos mais marcantes no imaginário popular, ao longo dos séculos.
Daí que, metaforicamente, tenha sido natural a adopção da expressão emprenhar pelos ouvidos, talvez inicialmente no sentido de quem corporiza em si a verdade que lhe era transmitida.
O tempo e o uso, porém, deram-lhe um outro sentido – diria, completamente contrário – de tal forma duvidosa era a maioria (esmagadora…) das verdades anunciadas…

 

 

 

(o que não ouve senão um som, não sabe mais do que um tom)