varão, varela, ou…

Há uns dias escreveu-me a amiga Daniela Simões perguntando se eu conhecia determinada locução e, ao mesmo tempo, questionava se uma palavra nela inscrita existia realmente ou era, simplesmente, dizia, uma ‘bucha’ para a rima.
Conheço, sim, mas antes de responder, uma pequena narrativa…
Depois de ter combatido corajosamente no cerco do Porto, Alexandre Herculano, ocupou durante algum tempo o cargo de segundo bibliotecário da Biblioteca Pública Municipal do Porto (1833). Profundamente empenhado nas questões políticas da época, no Repositório Literário atacou ferozmente o Setembrismo, o que o levou a abandonar o cargo de bibliotecário. Foi para Lisboa, continuando a manter a mesma atitude, fiel ao Cartismo. De tal modo a sua acção se tornou notória que, D. Fernando, marido da rainha D. Maria II, admirando a coerência política daquele que viria a ser o maior consignatário dos historiadores nacionais, nomeou-o (1839) bibliotecário da Biblioteca Real da Ajuda, curiosamente um emprego directamente dependente do Paço, não do Reino. Daí viria a nascer a grande amizade que Herculano nutria pelo Rei-Artista, estima que, mais tarde, contribuiu para fortalecer os laços que o uniram a D. Pedro V.

D. Fernando, dotado de grande cultura e sensibilidade artística, gostava de conversar com o autor de Eurico, ouvindo-lhe as opiniões, as mais das vezes, com o maior acatamento. Conta-se, então, que foi numa cavaqueira intima, entre os dois, que o Rei lhe perguntou:
Sabe, meu amigo, quantas espécies há de maridos?
Herculano, que não esperaria, com certeza, tão descabelada pergunta, ficou indeciso e, depois de um curto silêncio, ter-lhe-á respondido:
Saiba Vossa Majestade, que ignoro tal classificação
A classificação é antiga, do povo, e muito simples… – disse-lhe o Rei, rindo do seu embaraço. – O marido é varão quando manda ele e ela não; é varela se ora manda ele, ora manda ela; é varunca quando manda ela e ele nunca. E, meu caro Herculano, já agora posso dizer-lhe que sou um marido varunca.
Aqui estão a locução, e a ‘bucha’ que intrigaram a nossa amiga. A origem é, porventura, desconhecida, mas a estória, antiga e pitoresca, não deixa de retratar um pouco da História. No Dicionário de Provérbios e Rifões da Língua Portuguesa, tirados dos melhores autores nacionais, e publicado em 1731, lá aparece este prolóquio popular. A bucha (rima, sim, mas não é bucha...) pode encontrar, entre vários, no Dicionário da Língua Portuguesa, da Editorial Barreira, que diz, ‘varunca, s.m. Marido que anda ao mando da mulher‘.

 

 

 

(na casa onde a mulher manda, até o galo canta fino)