pé rapado

É uma expressão com alguma graça: ou, como acontece com muitas outras, não se sabe qual a origem, ou se sabe com certeza o que caracteriza esta frase tão vulgar.
Pé rapado é quem não tem cheta, quem é um pindérico, um farrapilho, quem não tem um chavo para mandar cantar o cego. A procedência, sem dúvida, é aquele pedaço de ferro que, em tempos idos, era cravado no chão junto aos pórticos das igrejas para que os apeados, antes de entrar, limpassem os pés de modo a que não fossem levar para o interior do templo restos e o cheiro nauseabundo das porcarias que inevitavelmente pisavam pelas ruas e caminhos das cidades ou lugarejos. É? Ou não é?…
Parece simples, mas, a verdade é que há autores que remontam a expressão aos tempos do Santo Ofício e referem que um dos mais comuns martírios infligidos aos supliciados de baixa condição social era passar-lhes lâminas de espadas embraseadas pelos pés. Daí que pé rapado seria, então, sinónimo de quem assim era tratado (leia-se queimado na planta dos pés) porque se tratava de alguém pobretana, indigente, um do poviléu. E agora?
Mas há mais: Gregório de Matos, um dos maiores poetas do barroco em língua portuguesa, baiano formado em Coimbra na segunda metade do século XVII, cantava numa das Locuções:
‘Se tens o cruzado, Anica
manda tirar os sapatos.
E se não, lembra-te o tempo
que andaste de pé rapado’
Aqui, um seu historiador, Marco Andrade, explicava que o autor, nos versos em que o poeta se defende de uma mulata, lembrando a escravatura nos tempos de colonização, referia que o sapato era a primeira compra que fazia o escravo alforriado. O sapato, a solica ou as alpargatas, acima de tudo eram o símbolo da emancipação conseguida. Deixavam, por fim, de andar descalços, de caminhar sobre o pé rapado, estigma da mais abatida condição social.
Então, em que ficamos?…

Creio que justificar pé rapado com um dos sinistros modos de tortura inquisitorial, parece-me descabido e, tenho para mim, demasiadamente forçado e com pouca verosimilhança.
Talvez, um pouco – ou muito – das duas outras hipóteses sugeridas. As duas são concomitantes, ou muito próximas disso, no tempo e, daí, provavelmente reforçaram-se uma à outra, causando, até, uma miscigenação de ambas. Será?…
Ainda sobre a certezinha do começo desta prosa: aquele ferro colocado às portas dos templos para rapar o esterco que vinha colado ao calçado, não era tão exclusivo como se possa julgar. Havia-os também (e sabe-se lá onde eles apareceram primeiro…), na entrada dos locais de autoridade pública. Pode ver um desses ferros, na fotografia – este, original – ao lado da porta da sala de julgamento, na antiga Ralação e Casa do Porto, hoje conhecido por Tribunal da Relação do Porto, na Cordoaria.
Na sociedade de hoje esses combos instrumentos de ferro já não têm cabimento. Quanto ao pé rapado… nem tanto.

 

 

 

(à casta a pobreza lhe mostra a vileza)

a propósito…

As efemérides, os dias disto, daquilo e daqueloutro, são o que são, valem o que valem e não sou eu (nem tão-pouco para isso ‘tou virado…) que as vou discutir. Mas, a verdade, é que por vezes, e a propósito delas, dá um certo jeito trazer uma ou outra lembrança à baila…
Maio, é um mês, dos doze do calendário, como qualquer outro. Podia ter sido antes ou depois, mas se foi em Maio que me lembrei…
No começo da década de sessenta do século passado, por esta altura, ainda estavam bem vivas as feridas do terramoto de Agadir; enquanto Kruchtchev ia a Paris trocar umas palavrinhas com De Gaulle, morria Albert Camus, Fellini estreava, em Roma, a sua La Dolce Vita e os jornais anunciavam o noivado oficial da princesa Margarida, de Inglaterra.
Uma princesa, ainda era (naqueles tempos de livre pensamento e de repúblicas…) um distante mas estimável assunto decorativo que ajudava a esquecer as oito horas de trabalho, as agruras da fome e da resignação. Curioso que, no fim do século XVIII, quando Maria Antonieta atravessava Paris, era apupada pela populaça; em meados do século XX, a princesa Margarida atravessa a mesma Paris (mas , agora, republicana…) e é aclamada pela mesma multidão.
As voltas que a Vida dá! Acha? Nem tanto, nem tanto…
A revolução industrial inglesa (essa mesma de que tanto se fala, mas tanto se cala que foi feita à custa do ouro que os portugueses traziam dos Brasis…) e a revolução política francesa, é verdade que tiveram tudo para mudar a face da sociedade humana. Dir-se-ia que estavam ali todos os ingredientes para o cadinho de uma sociedade mais equilibrada, mais justa, mais solidária, mais fraterna. Parecia que do feudalismo e da opressão apenas restavam longínquas referências asiáticas. As desigualdades certamente se iriam diluir com os reis que, um a um, lá iam fazendo as malas para o exílio ou, na melhor das hipóteses, se contentavam com uma figura (triste) meramente decorativa.
Mas enganou-se quem assim julgou a capacidade imaginativa do género humano. Morreu o rei? Viva o rei!…
Talvez, necessariamente, tudo seja diferente, para que possa ser tudo igual. Ou, se quisermos ser condescendentes, igual não, mas semelhante.
Outros tomaram os lugares dos reis, dos príncipes, dos duques, condes e barões. Que se desviam das misérias, sentem-se senhores do mundo, apagam a luz quando qualquer problema os perturba e não ambicionam mais nada do que ambicionar ainda mais, e tudo isto enquanto a turba ainda não percebeu que, mais uma vez, o rei vai nú


E porque aos costumes se disse que aqui é lugar de apropositados aforismos, achei bom completório este burlesco dito, que ainda se ouve pelas aldeias do Alto Minho:
Guarde-vos Deus da ira do senhorio, do alvoroço do povo, da moça adivinha e de mulher ladina, de pessoa assinalada, de mulher três vezes casada, de homem conflituoso em caminho, de longa enfermidade, de médico experimentador e asno ornejador mais vigarista que seja doutor, do oficial novo e barbeiro velho, de amigo reconciliado e vento encanado, de hora minguada e de gente que não tem nada.
Por hoje está tudo dito.

 

 

 

(néscio é quem cuida que o outro não cuida)