há de tudo como na botica

Botica, dizia o Diccionario da Lingua Portuguesa, em 1782, é loge onde está fazenda a vender ou casa onde se vendem remédios e drogas medicinais. A origem será o baixo grego apothéke (que por erro na tradução viria a confluir, com a ajuda do boutique francês, na aportuguesada botica), que significava armazém ou depósito.
Porém, acrescentam outros estudiosos, num livro, publicado em 1874, intitulado Florilégio ou Ramalhete Alfabético de Adágios e Idiotismos comparativos e ponderativos da Língua Castelhana, diz o seu autor, um erudito franciscano de nome Gomes Alvares, que muito antigamente se chamava, em castelhano, botica, a todo e qualquer armazém ou loja, em geral, como sucedia em França, onde se dizia boutique; e que, neste sentido e não no de farmácia, é a sua opinião, que a palavra deve ser tomada quando, numa frase, se trata de expressar que nada falta do que é necessário, ou do que se presume que deve existir em determinado lugar.
Em Portugal, é também remoto o uso da mesma expressão, mas, aqui, a palavra botica, embora antigamente tivesse uma significação semelhante, isto é, extensiva a lojas ou armazéns de diversos géneros (tal como em Espanha e em França), a verdade é que o seu uso se generalizou mais no sentido de se referir a farmácia.
Sem que a latitude da etimologia altere o raciocínio, desde os primórdios da emancipação da farmácia, como se disse, estabelecimento onde se vendia de tudo quanto necessário à debelação de todas as maleitas do corpo, ali existia um livrinho a que chamavam Qui pro quo. Os boticários – agora farmacêuticos – se não tinham o medicamento, a pomada, o elixir ou a ervinha receitada, não se atrapalhavam por tal contrariedade: iam ao livrinho e, certo e sabido, lá encontravam indicação de um substituto com préstimo e qualidade. O Quid pro quo (tomar uma coisa por outra, assim correctamente escrito e vindo do Latim) era já uma prática corrente dos físicos que, nos séculos XII e XIII, ao inscreverem nas suas receitas recomendações para a substituição dos remédios, sempre as subordinavam à inscrição da expressão latina. Então, os boticários, ou os farmacêuticos, que nem sempre primavam pela honestidade, viam ali uma possibilidade de fazer umas trocas nos remédios para o freguês. Esta habilidade na troca é, claramente, a fonte do conceito que está na frase que a voz popular vulgarizou.
É assim que nos mostra a imagem da botica provinciana, seja ela o tasco ou a farmácia, de há poucos anos atrás, onde se reuniam as pessoas da terra para aviar toda a espécie de conselhos, informações, mexericos ou mezinhas.
Já dizia Camões, no Auto de El-Rei Seleuco, pela voz do Mordomo: Eis, senhores, o autor, por me honrar nesta festival noite, me quis representar uma farsa; e diz que quem dela se não contentar, querendo outros novos conhecimentos, que se vá aos soalheiros dos escudeiros da Castanheira ou de Alhos Vedros, ou converse na Rua Nova em casa do boticário; e não lhe faltará que conte.
Ou então A química ciência tirará desta rosa a quinta-essência, coada pelos diques, que Apoio larga pelos seus lambiques nostris Pharmacopolis a poderão vender por Rosa solis, desta de Febo Academia rica, onde todo lo ai como en botica., cantava, nos finais do século XIX, um vate da Academia dos Anónimos de Lisboa.

 

 

 

(remédio caro, se não faz bem ao doente, faz bem ao boticário)

uma carta intraduzível

 Um literato, que ficou anónimo, querendo elogiar, de forma singular, a importância do Duque de Wellington na defesa portuguesa aquando das invasões napoleónicas, escreveu-lhe esta carta, composta quase exclusivamente de anexins próprios da Língua Portuguesa, e de uso comum na época, fingindo ser escrita pelos habitantes do Vimeiro:

Illmõ. e Exmõ. Senhor,
Depois que V. Exª fez ir de escantilhão para França o fanfarrão Junot, tendo-o posto em papos d’aranha nos Campos do Vimeiro; depois que V. Exª fez sahir com vento de baixo ao ladino Soult da Cidade do Porto, fazendo vispere, e com as calças na mão para Castella; depois que V. Exª disse ao zanaga Massena, alto lá Senhor Sam Macário; e jogando o jogo dos sisudos lhe mostrou as linhas com que se cosia, fazendo-o dar às trancas, e apanhar pés de burro, por ter dado com as ventas n’um sedeiro; depois que V. Exª fez ir de catrâmbias a Berrier da Cidade de Rodrigo, e ao Caxolla Philippon limpar as mãos à parede em Badajoz, como quem diz, faça que me não vio; e tendo estado tem-te Maria que não caias: despois finalmente que V. Exª nos Campos de Arapilles, zás, pás, catrapáz nó cego, desazou o Macambuzio Marmont, e o obrigou a cantar a sua derrota pé à pá Santa Justa, tim tim por tim tim; foi então Exmô Sr., que nós os pés de boi, Portugueses velhos, dissemos: Este não é General de cacaracá, tem amoras, não faz cancaburruradas e não deixa fazer o ninho atraz da orelha; e como prudente accommette humas vezes, e outras põe-se de conserva; agora podemos dormir a sonno solto; o nosso medo está nas malvas; a vinda do inimigo será no dia de Sam Nunca à tarde; por tanto só resta agradecer a V. Exª a visita, que nos faz, que desejamos que não seja de Médico, nem com o pé no estribo; devendo saber V. Exª que estes desejos não são embófias, nem parolas que leve o vento; mas sim ingénuos votos de corações agradecidos, e leais, sobre os quais tem V. Exª erguido com tanta justiça hum Trono de Amor e Respeito.
De V. Exª.


Diz, na época, o relator da missiva, que o Lord inglês mui apreciou a missiva

 

 

 

(Para cada ocasião tenho um ditado sempre à mão)