Afinal quem foi a Maria da Fonte?…

painel do pintor Domingos Silva

Afinal, quem era essa Maria da Fonte, que se diz ter sido cabecilha das sete mulheres lá do Minho, a que da foice fez espada, com as pistolas na mão?
Francisco Mariano d’Oliveira, escrivão, nascido na vila de Póvoa de Lanhoso, em 1824, setenta anos mais tarde viria a escrever, no Almanach de Lembranças, a sua narrativa sobre tão famosa personagem.
Texto curioso, que mantenho integral na transcrição, para que nada se perca do que, afinal, parece não ter sido bem assim como se conta…
‘Quando as mulheres da populosa freguezìa de Font’ Arcada d’este concelho da Povoa de Lanhoso, se animaram a sahir á rua, dando principio á revolução de 1846, contava eu 22 annos de idade. Transcreverei dos meus apontamentos de então o que se torna mais interessante e digno de ser lido, como historia e não como romance.
O odio que o povo votava ao governo cartista tornava-se cada vez mais ameaçador; o fogo estava latente e previa-se que em qualquer localidade, viria a manifestar-se o incendio.
Chegou a occasião a este concelho, e foi o sexo feminino que arvorou o estandarte da revolta. A prohibição dos enterramentos dentro dos templos exaltara os animos do povo, e serviu de ponto de partida para o movimento revolucionario.
A 20 de janeiro de 1846 devia effectuar-se no adro da egreja de Font’Arcada, por não haver cemiterio, o enterramento de José Joaquim Ribeiro, do logar de Valbom. As mulheres amotinaram-se e conduziram o cadaver ao mosteiro, que foi de frades benedictinos, e depois matriz da parochia, e fizeram por suas proprias mãos o enterramento dentro da egreja.
Identicos tumultos occorreram e cada vez mais pronunciados, a 5 de fevereiro na freguezia de Garfe, a proposito do enterro de Maria Joaquina da Silva, mulher de Francisco Ribeiro, a 19 de março, na freguezia de Santo André dos Frades a proposito do enterro de Engracia da Silva, a 22 do dito mez, na freguesia de Font’Arcada, a proposito do enterro de Custodia Thereza, mulher de José Joaquim da Costa, do logar de Simães.
D’esta vez o caixão foi arrebatado da capella onde estava depositado, pelo mulherio armado de chuços, foices, ferreihas, sachos e forcados, e conduzido aos hombros para a egreja, não obstante as exhortações do parocho João Martins Lopes, tio de quem escreve estas linhas. Á frente d’aquelle estranho cortejo ia Maria Angelina, uma das mais façanhudas revoltosas, empunhando a cruz, que fora arracadada das mãos do mordomo Valerio José da Silva. Feito o enterramento na egreja, a turba debandou, soltando vivas á santa religião, e ás leis velhas, e morras ás leis novas.
Na tarde do mesmo dia foram presas, á ordem do administrador José Joaquim de Ferreira de Mello e Andrade, da nobre casa das Agras, Joaquina Carneiro, Maria Vidas e Maria Custodia Buceta.
Na manhã do seguinte quando o juiz ordinario Antonio Joaquim de Sousa, o delegado José Antonio de Sampaio e Castro, o escrivão Antonio Narciso Alves de Brito, e o official de diligencias Antonio Joaquim Gomes se apresentaram no mosteiro de Font’Arcada para se proceder ao auto de exumação, apareceram ali mais de 300 mulheres armadas de chuços, foices e varapaus, com o fim de se opporem á acção da justiça.
0 delegado escondeu-se por traz da tribuna, onde conseguiu escapar ás iras femininas. 0 juiz e o escrivão pozeram-se em fuga, mas foram perseguidos, e o primeiro recebeu uma pancada, que uma das revoltosas lhe deu com uma pá, dizendo- he: – Recorda te da padeira de Aljubarrota. O escrivão pèrdeu o chapeu, que uma das amotinadas furou com um chuço, levantando-o ao ar no meio de gargalhadas estrondosas.
Oe sinos das freguezias circumvizínbas tocaram a rebate. Reunido o mulherio no logar do Cruzeiro de Font’Arcada, ahi resolveu seguir para Povoa, afim de livrar as prisioneiras.
A façanhuda Maria Angelina, de Simães, apresentou-se de clavina em punho, e duas pistolas á cinta, mas não vestida de vermelho como alguem affirma. Arrombada a golpes de machado a porta do tribunal e o alçapão, que communicava com o carcere, conseguiram assim as revoltosas realisar os seus intuitos.
No dia 7 d’abril novo tumulto na fresuezia de Gallegos a proposito do enterramento de Francisco José Lage, do logar da. Costa, sendo o cadaver sepultado na egreja, pelas mulheres amotinadas, uma das quaes, Josepha Caetana, da casa da Fonte, foi logo em seguida capturada pelo regedor, Francisco Joaquim Pereira, e remettida para Braga, custodiada por seis cabos de policia.
Na serra do Carvalho d’Este foi a diligencia assaltada por centenas de mulheres das freguezias de Gallegos, Lanhoso, Ferreiros e Font’Arcada, que obrigaram os policias a abrir mão da presa.
De Braga marchou para a Povoa um destacamento de 50 praças do regimento 11, commandado pelo tenente Taborda, afim de restabelecer a ordem, mas logo foi mandado seguir para Vieira, onde se estavam dando identicos tumultos. No dia 13 de manhã appareceu a freguezia de Gallegos occupada por uma força do regimento 9, não conseguindo esta realisar uma unica prisão, porque as revoltosas haviam desapparecido mysteriosamente; e como em Guimarães reclamaram tambem o auxilio da força armada, para restabelecer a ordem, foi logo para allí transferido o destacamento.
Tendo o administrador Ferreira de Mello pedido a sua exoneração. foi nomeado para o substituir o bacharel Salvador Antonio da Cunha. Rocha, da casa do Regueirão, freguesia de Font’Arcada, o qual, disposto a usar de meios brandos, comprometteu-se para com as revoltosas a não as perseguir, se recolhessem a suas casas, e não animassem mais a revolta, já então muito ateada.
As mulheres cumpriram, mas o incendio não se extinguiu, como era de esperar e a revolução continuou sustentada já então pelo sexo masculino.
N’esta revolta salientou-se o padre Casimiro, de Vieira, e quando pela primeira vez appareceu na Povoa com a sua gente armada, foi-se-lhe apresentar Maria Angelina, como iniciadora da revolta, reclamando para si a gloria e renome de Maria da Fonte. O celebre chefe da insurreição popular convenceu-se de que tinha na sua presença uma verdadeira heroína, e gratificou-a com 4$800 réis.
Esta mulher filha de Angelica da Lage, de Font’Arcada, foi afinal habitar, segundo depois constou, para as proximidades de Famalicão onde falleceu.
O que a respeito da Maria da Fonte de Vido, narrou o fallecido Ferreira de Mello e Andrade, nos apontamentos ministrados a Camillo Castello Branco, e por este transcriptos no seu livro Maria da Fonte é pura creaçâo de phantasia. Esses apontamentos foram-me lidos pelo proprio auctor e meu amigo, como narração romantica, e não como historia; e isto mesmo certifica seu filho e também meu amigo, o Sr. Dr. Balthazar Aprigio de Ferreira de Mello e Andrade.
Anna Maria Esteves, da freguezia d’Oliveira que foi casada com Joaquim Lopes da Silva, da freguezia de Verim, era filha legitima do bacharel João Baptista Vieira e de Maria Anna Esteves, da casa do Rio, e não da Fonte, como diz o Dr. Placido A. Rebello Coelho de Vasconcellos Maya.
Essas duas senhoras, não obstante residirem na freguezía de Oliveira eram freguezas em Font’Arcada, e no dia do arrombamento da cadeia, como era quaresma, vieram dar preceito á egreja, e seguiram as revolucionarias para a Povoa, não sendo verdade que a filha andasse munida de machado, nem com tal instrumento se viu mulher alguma, pelo que se suppõe ser do próprio carcereiro Antonio Joaquim Gomes o machado com que foi arrombada a porta do Tribunal.
Quanto ao facto de se apresentar como Maria da Fonte Josepha Caetano, da casa da Fonte, freguezia de Gallegos, é certo ter esta revoltosa procurado illudir a auctoridade, tomando o nome de uma sua creada Maria, que por ser antiga na casa, era tratada por Maria da Fonte; e se os policias que a prenderam, accedessem aos pedidos d’ella, confirmando ser a Maria da Fonte, de certo a Josephina Caetana se teria livrado da prisão.
Mas necessariamente devia ter uma origem o titulo da revolução, e teve-a com certeza.
Já anteriormente a 1846 havia na villa da Povoa, próximo a uma fonte, no largo do mesmo nome, uma hospedaria de que era proprietaria Maria Luiza Balaio, a qual por esse motivo, era de todos conhecida por Maria da Fonte. O largo tem hoje o nome de ‘Serpa Pinto’ e a fonte foi mudada ha annos para a Praça Municipal. A dita hospedaria era na villa o ponto de reunião das revoltosas, que, reconhecidas pelo agrado e bom acolhimento que alli encontravam, levantavam com frequencia enthusiasticos vivas á Maria da Fonte. É comtudo certo que Maria Luiza Balaio, viuva de João de Macedo Balaio, ou como lhe chamavam, Maria da Fonte, não obstante gostar da revolução, nunca tomou parte activa n’ella, limitando-se simplesmente a acolher de bom grado as revolucionarias e a incital-as no caminho que seguiam, pelo que era censurada por aquelles, que eram contrarias á revolução.
Estacionando por muito tempo na Povoa um destacamento de infanteria 3, de Vianna do Castello, foi a dita Maria da Fonte alvo de lisongeiras manifestações por parte dos ofliciaes e soldados, que a obsequiavam com serenatas, etc.
Mais tarde atemorisada porque lhe diziam que as revolucionarias e quem as tivesse protegido, seriam todos processados, desappareceu da terra, com seu filho José de Macedo e a mulher d’este, tendo previamente vendido os haveres que alli tinham, dois prédios rusticos e um urbano. Seguindo os tres para o Rio de Janeiro, deixaram dito aos parentes que voltariam se viesse o indulto. Este veio, mas a referida família é que não voltou, nem mais d’ella se soube.
O prédio em que era estabelecida a estalagem da Maria da Fonte foi demolido ha annos para a construcção da estrada districtal nº 6, que segue de Amares a Refojos de Basto (*).
Assim pois, embora a Maria Angelina, de Simães, aspirasse a ser a heroina da revolta, não foi por certo ella que deu o nome á revolução. A unica origem acceitavel, e que tenho por verdadeira, como testemunha ocular, é a que fica fielmente narrada. Em conclusão direi que Maria Angelina só se apresentou armada no dia do arrombamento da cadeia, porque as companheiras fizeram-lhe depôr as armas, receosas de que acontecesse alguma desgraça com armas de fogo em mãos femininas.’
Sendo assim, a cantiga é outra!…

(*)
Hoje é a EN205 que liga Amares a Refojos de Bastos, em cerca de 52 km.
Partindo de Amares, Póvoa de Lanhoso encontra-se a 14 km.

 

 

 

(em mulher brava toda a corda é larga)

RMS Titanic

O RMS Titanic (RMS é a abreviatura de Royal Mail ship ou steamer) iniciou a sua primeira viagem no dia 10 de Abril em 1912. De Southampton, passaria por dois portos, um em França e outro na Irlanda, seguindo rumo a Nova Iorque. Poucos minutos faltavam para a meia-noite do dia 14 quando colidiu com um iceberg; afundou-se por completo duas horas e quarenta minutos depois.
Muito já se escreveu sobre esta enorme tragédia, que viria a evidenciar a incúria, o facilitismo e o modismo da época como factores determinantes para esse trágico e evitável desastre.
(estes factores, tidos com o ponto comum da soberba, teriam dado origem ao mito de alguém ter assegurado que o Titanic era inafundável; o que nunca teria sido afirmado pelos responsáveis do seu desenho e construção. Mas que, obviamente, enquadram a catástrofe no contexto dos castigos da Providência sobre a vanglória humana) 
Dentro da história, aqui e ali, ainda se conseguem repescar alguns factos pouco referidos…
Logo aos primeiros instantes, na partida, ao passar perto do navio SS New York, que estava atracado, as hélices gigantescas do Titanic provocaram tal força de sucção que as amarras que prendiam o New York soltaram-se e os dois navios rapidamente ficaram a menos de dois metros de distância. A colisão foi evitada in extremis pelo comandante Edward Smith ao ordenar uma imediata marcha à ré de modo a criar um efeito contrário que empurrasse o New York para longe.
As quatros imponentes chaminés são, provavelmente, o emblema mais visível na imponência do Titanic. Porém a última chaminé, a mais perto da ré, era meramente decorativa.
O filme da James Cameron aproxima-se bastante da realidade quando nos mostra os músicos da orquestra a tocarem ininterruptamente durante as mais de duas horas em que decorre a agonia do navio. Relatos dos sobreviventes confirmam que assim aconteceu.
Curioso também será de referir que o filme teve um custo de produção largamente superior ao custo da construção do transatlântico.
Por falar em custos, é crível que o Titanic tenha levado com ele até ao seu leito de morte, a mais de quatro mil metros de profundidade, um valor bem mais considerável. Difícil de quantificar, já que a maioria dos passageiros iam começar uma nova vida nos Estados Unidos e, provavelmente, guardariam consigo muito dinheiro, impossível de determinar. Além disso, transportava um carregamento de diamantes de dois comerciantes suíços que, segundo os registos de Southampton valeriam actualmente cerca de quinhentos milhões de dólares. Outras coisas, mais ou menos curiosas – e valiosas – também mergulharam com o Titanic: um dos manuscritos de um filósofo persa, Omar Caiam, do século XI, estava na posse de Edward Fitzerald que o traduziu em 1880. Vários quadros, como o La Circassienne au Bain, pintado em 1814 por Merry-Joseph Blondel, tal como uma múmia de uma profetisa egípcia que viveu no reinado do faraó Aquenáton, também estavam a bordo do Titanic.
Louças, peles, vinhos, espumantes e até mesmo dois barris de mercúrio também naufragaram.
(…) Metia pena ouvir os gritos por ajuda. Estava a nadar às voltas à procura de qualquer coisa a que me agarrar, tinha as minhas botas calçadas com os atacadores desatados, e algo as estava a puxar. De repente saíram com um puxão. Era um pobre desgraçado, que me pareceu ser português; encontrou qualquer coisa a que se agarrar e como resultado as minhas botas soltaram-se. (…), teria escrito um forneiro sobrevivente do naufrágio. Provavelmente será está a única referência à vivência dessas horas trágicas de três portugueses que estavam a bordo, naquela fatídica viagem.
Sabem-se os nomes, Manuel Estanislau, José Jardim e Domingos Fernandes Coelho, três madeirenses da Calheta. Um outro, José Joaquim Brito, veio a saber-se ser algarvio. Todos iam a caminho da (sua) terra prometida.
A última sobrevivente do Titanic, Millvina Dean, morreu em 31 de Maio de 2009. Tinha apenas nove semanas de idade quando o Titanic se afundou.
Conta-se hoje 107 anos.

(na fotografia inicial, pormenor do Memorial ao Titanic em Belfast, Irlanda)

 

 

 

(horta sem água, casa sem telhado, tralhado sem cuidado, a graça sai caro)