introdução

 

Para homens inquietos o descanso é tormento;
e talvêz os mais quietos do seu descanço se enphastiam,
porque no Homem, naturalmente amigo de mudanças,
causa tédio até a própria bem-aventurança.

António Delicato, Provérbios árabes e gregos, 1720

Em qualquer época ou lugar os povos sempre usaram provérbios, adágios ou outras formas curiosas para expressar a sua sabedoria. Lembrá-los é manter a vivência da experiência humana e, consequentemente, das tradições e das culturas populares. Essa é a lhana pretensão de, aqui, se ir coligindo uma colectânea desses ditos ou máximas, desses saberes de vida feitos.
No propósito, no ínterim, virão à mistura histórias, crónicas, fábulas, até curiosas lembranças, factos, enredos ou coisas que, de algum modo, sejam ou pareçam vir… do arco-da-velha.
O tempo tudo corrói e altera. O passado fenece e não volta, mas sempre alguém entendeu, como disse Plínio, que ‘é tão suave a lembrança das coisas passadas, que todos desejamos sabê-las’. Das que aqui se fizer mostra, alguns vão supor falta de ciência e arte; mas não é essa a relevância que importa: ‘Artaxerxes, rei da Pérsia, indo de caminho achou um menino que lhe ofereceu um vaso de água; el-rei, sorrindo-se, o tomou de sua mão e bebeu, não olhando o serviço, mas a vontade do servidor’.
Naturalmente que muitas, variadas, e por vezes inusitadas, foram as origens e as buscas ao longo do tempo em que a recolha foi sendo feita. Para que nenhuma seja ferida pelo esquecimento, fica a geral lembrança dos almanaques, dos livros de contos, dicionários, enciclopédias, jornais, revistas e, acima de todos, a voz popular.
(no blogue Coisas do Arco-da-Velha, Novembro, 2006)

DIZER (OU ESCREVER) UMAS ALGRAVIADAS…

Quando lá chegares, vais ver como elas cantam’, era o chavão preferido do alferes. Repetia-o como se fosse um porrete. Os seus homens nunca perceberam bem se a ideia era atazanar-lhes, ainda mais, o juízo, ou se era, avisadamente, pô-los de atalaia na aproximação do objectivo; a maca podia dar para o destrambelho. Isto contava-me, vezes sem conta, o Rogério, mesmo já à distância de longos anos das picadas, nos Dembos, em Angola.
Ora aqui está um exemplo de uma das múltiplas variações, entaladelas ou charadas que as ditas ‘frases feitas’ nos podem oferecer.  Parece que ‘quando lá chegares, vais ver como elas cantam’ contém, de premonitório, um cenário desagradável, para não dizer ruim, nefasto, sinistro ou até mortal. Pelo menos, afigura-se, era esse o recado do alferes. Quais ‘elas’?, ‘como’ cantam?, o quê? Poucos são os que sabem da sua inusitada, e bem diferente, origem. Aí pelos anos meãos do século passado, mais precisamente, em 1955, o grupo etnográfico e coral de Paços de Brandão, granjeou um notável sucesso por toda a Europa, o que foi um facto raro. As suas cantigas, contagiaram e arrebataram um locutor de rádio local, no Porto, que propõe ao agrupamento mudar o seu nome para ‘como elas cantam e dançam em Paços de Brandão’. Ao microfone, usa e abusa da sua proposta como propaganda e anúncio das representações do Grupo, o que acaba por tornar a frase numa expressão de uso corrente. Depressa o linguajar acomoda a expressão: primeiro, deixando cair a localização (‘como elas cantam e dançam’) e, mais tarde, para o dito actual (‘como elas cantam’). Do entusiástico convite (venham ver como elas cantam e dançam em Paços de Brandão), como se chega a um lúgubre anúncio, hoje genericamente implícito? Não se sabe. Ficou a deturpação, imerecida para o estupendo agrupamento de Paços de Brandão…
Frases feitas e ditados populares (não divergem tanto que obrigue a uma distinção clara ou inequívoca) serão, porventura, tão antigos quanto a própria linguagem.

Caracterizam-se, particularmente, pela óbvia dependência às especificidades culturais, económicas, sociais e históricas de cada uma das comunidades de onde procedem, mantendo a forma, já avelhentada, que lhes dá um cunho e um aval de tradição, evidenciando o contraste face à língua, esta sempre mutável e flexível. Dos milenares axiomas chineses, ‘chéng-yü’ (expressões feitas), aos provérbios gregos, romanos e árabes, estes três últimos em especial, verteram-se para a nossa língua, adaptaram-se, moldaram-se, servindo de matriz e adubo para esse instrumento da linguagem comum, breve e conciso, rimador ou não, feito de sabedoria e utilidade, para ser arrebatado com um só sorvo de percepção. Como escreveu Platão ‘o modo antigo dos sábios falarem, caracterizado por uma espécie de abreviação lacónica, sentenças para a memória que ficam em todas as bocas’.
Desdourem linguistas, da semântica à filologia, apouquem etimológicos, até epistemológicos; mesmo os tagarelas ou grulhos. Todos eles usam frases feitas, mandingas, prolóquios e sentenças, sem que delas suponham a origem, nem que esteja à distância de um palmo do nariz.
Pelo tempo, todo esse acervo se adornou, encobriu, forrou e enfeitou de modo tal que, tanta e tanta vez, irremediavelmente, se perdeu o rasto do seu princípio.
Se julga estar  a ler uma  estopada, uma maçada, sabia que isso, pelo século XVII, era um guisado de ovos com estopa que servia de remédio? Que, por esse tempo, matulão, não era o calmeirão que mora no segundo andar do seu prédio, mas sim a torcida do candeeiro quando crescia e fazia morrão? Nem sequer o guarda-redes do seu clube é uma bisarma, já que isso é um ferro de lança com duas lâminas.  Isto são rabiscos? Não, rabiscos são os engaços das uvas que restam da vindima. Tricana, não, não é aquela moçoila do Choupal, dos seus tempos de estudante; é apenas o manto que ela usa. Pivete! Como? Nada disso, bem pelo contrário: até aos finais do século XVIII nenhuma mulher dispensava aquela pastilhinha, ou rolo, odoríficos, que queimavam nos contadores. Isso mesmo, os pivetes! E o badameco? Coitado! Nasceu de um trocadilho popular, vade mecum (vem comigo, à letra), nome que se dava a todo o objecto de que se pode precisar em qualquer momento, que se é obrigado a ter à mão (hoje, um guia de turista, p. ex.), para acabar sinónimo de fedelho, janota ou peralvilho.
A tal florilégio de achados ainda acrescento a pintalegrete proposta etimológica para a palavra ‘cadáver’ que afirma ser constituída pelas primeiras sílabas da expressão latina ‘caro data vermibus’ (carne dada aos vermes), supostamente inscrita em túmulos. Que nunca se viu em lado algum; mas se o imaginário popular a criou…
Acresce a todas essas naturais, por vezes inopinadas, dificuldades da dinâmica da Língua, a influência dos modismos de cada época, as alterações de grupo, região ou sociedade, o tom, a traça, a variedade da expressão que, em determinados casos, amplifica o custo e o embaraço na demanda. ‘Beati sunt Lusitani, apud quos vivere est bibere’, felizes são os Lusitanos, para os quais viver é beber, (já) diziam os romanos. Sem perceberem bem o entretom do dialecto e da fonética de algumas regiões da Lusitânia, mais a norte…
Ficam aqui algumas ‘frases feitas’ da ‘colectânea de frases, brocardos, ditos, locuções, florilégios, motejos, historíolas, prolóquios, sentenças, idiotismos, mandingas, imagens, photographias, sonoridades, traslados e mais afins, a propósito aqui trazidos, de livros, almanaques, jornais, revistas, pasquins, sarrabais, folhas ou outros publicantes e adaptados com a intenção de divulgar e preservar o espírito, o saber, a manha e mais as landainices, parlapatices e outras lérias populares’.
Chegar à origem, por vezes, não é fácil; outras vezes, é impossível. Mas o caminho é fascinante.
(introdução ao livro ‘Coisas do Arco-da-Velha‘, apresentado no Auditório da Biblioteca Pública Municipal do Porto, em 27 de Outubro de 2017, e na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, em 28 de Outubro de 2017)