confetes


O Manuel e a Maria casaram-se hoje. Ele de fato preto, colete cinzento, camisa branca e tramelo preto a apontar para os sapatos, apertados, de verniz; ela com vestido e rabona de tule branca, uma grinalda no penteado que a cabeleireira estacou com dez borrifadelas de laca, mais um raminho de miosótis com rosinhas de Nossa Senhora, que é para ficar no altar da Santa Justa. À saída chove arroz, do trinca que sempre é mais barato, e na mesa do repasto já lá está o bolo, que o pai da noiva fez questão que tivesse quatro andares…
Pois claro, isto é coisa lá para os idos sessenta do século passado, ou coisa que o valha. Agora a gente pega os trapos e vive junto, experimente até que dê – sabe-se lá o quê – ou que rebente. Se der raia, vai cada um para seu lado, que é como quem diz, cada qual regressa para a sua mamã e para o seu papá. Pelos entretantos, partilha-se a cama, do resto cada um paga a sua, lava e passa o que é seu, enfim, trabalhos e dívidas à parte, basta o bem-bom…
Mas, toda esta conversa mole para perguntar: de onde raio vem o hábito de despejar arroz (que é caro, que diabo!...) em cima dos noivos?
Ao certo, ao certo não sei, mas vejamos: na Roma antiga, nas celebrações de um casamento, faziam-se uma espécie de bolo (ou pão) feito com base em trigo e cevada, chamado ‘mustaceum‘ que, durante os rituais do casamento era costume o noivo escaqueirar o paparico em cima da cabeça da noiva. Em seguida, os noivos e os reinadios convidados entretinham-se a comer as migalhas, até as apanhar todas. Pelo meio, acontecia que os convivas enchiam as mãos com migalhas (as mais reles…) que depressa faziam voar sobre os noivos.
Também se refere que, nessa época, uma das iguarias presentes nesses festejos era o pequeno ‘confetto’, uma mistura de castanhas, frutos secos e mel, que embora acabasse por ser comida, também servia de arremesso sobre os noivos, numa intenção de prosperidade e futuro doce.
Provavelmente, esses pequenos doces (de pedacinhos de pão de noiva ou docinhos de frutos e mel, tudo passaria a designar-se por confettos), acabaram substituídos, primeiro por pétalas de rosa, depois arroz, até chegar aos quadradinhos de papel colorido. Outros tempos.
Tudo isso acabou? Acha que sim?… Não!
Olhe aqui: confettos! Bem feitos, comprados ontem, doces e bem saborosos!…

 

 

 

(com açúcar ou com mel até as pedras sabem bem)

atrás da máscara
(para a história da Guerra Colonial)

As maçadas africanas de Salazar começaram a 20 de Janeiro de 1961, quando Kennedy entrou na Casa Branca e dois dias depois o ex-capitão Henrique Galvão surripiou o paquete Santa Maria e se preparava para rumar até Luanda.
Kennedy estava convencido de que o nacionalismo era a melhor alternativa ao comunismo para os povos do Terceiro Mundo e, logo à partida, além do apoio técnico, incluindo envio de agentes americanos para as bases da UPA, o eleito Holden Roberto foi incluído na folha de pagamentos da CIA em 1961 recebendo 6.000 dólares anuais, o que foi posteriormente aumentado para 10.000 e depois para 25.000.
Marcello Mathias, ministro dos Negócios Estrangeiros, escreveu ao seu homólogo americano afirmando ‘ter razões para considerar os contactos da embaixada americana em Leopoldville com Holden Roberto como suspeitos e inamistosos para Portugal’.
A 4 de Março de 1961, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, C. Burke Elbrick, informou o ministro  da Defesa, general Botelho Moniz, da decisão da UPA de desencadear ataques em Angola; Botelho Moniz informou Oliveira Salazar, que fiz ouvidos de mouco.
Na madrugada de 15 de Março, milhares de bakongos (tribo do legendário Reino do Congo, cuja capital, Mbanza Congo, os portugueses rebaptizaram como São Salvador do Congo, quando ali chegaram, em 1482. Acrescente-se, a propósito que Holden Roberto era bakongo) pegaram nas catanas e massacraram mais de mil brancos e oito mil trabalhadores por todo o norte angolano. Nos dias que se seguiram a população branca, maioritariamente de Luanda, improvisou milícias, que responderam também com violência (em muitos casos perfeitamente gratuita) e, deste modo, começou uma guerra que se prolongou por 13 anos (para acabar mal), com evidente responsabilidade moral de quem a decidiu ou provocou.
21 de Março, em Luanda, milícias brancas atiraram o carro do cônsul americana a baía, pintaram os muros do consulado. No mesmo dia, em Lisboa, houve manifestações frente à embaixada americana. Apesar dos protestos, na semana seguinte, o secretario de Estado Dean Rusk chegou a Lisboa com uma proposta de Kennedy: a independência das colónias sob a forma de autodeterminação.
0 livro ‘Engaging África: Washington and the Fall of Portugal’s Colonial Empire’ (Envolvimento em África: Washington e a Queda do Império Colonial de Portugal), de Witney Schneider, vice-­secretário de Estado adjunto para os Assuntos Africanos durante a administração  Clinton, revela que Paul Sakwa, assistente do vice-director de planeamento dos serviços de espionagem CIA elaborou um plano, o ‘Commonwealth Plan’, que visava convencer Portugal a conceder a autodeterminação a Angola e Moçambique, após um período de transição de oito anos, durante o qual seria realizado um referenda nas duas colónias para se determinar  que tipo de relacionamento seria mantido entre os dois territórios e Portugal após a independência. Durante esse período, Holden Roberto e Eduardo Mondlane, líder da Frelimo surgida em Moçambique, seriam preparados para serem os presidentes dos novos países.
Para ajudar Salazar a engolir a pílula amarga da descolonização, Sakwa propôs que a ‘NATO oferecesse a Portugal 500 milhões de dólares para modernizar a sua economia‘, escreve Schneider.
A proposta viria a ser ampliada pelo diplomata Chester Bowles com mais 500 milhões de dólares de ajuda a Portugal durante um período de cinco anos. 0 plano dos EUA, apresentado em Agosto de 1963 pelo vice-secretario de Estado George Ball, esbarrou na inflexibilidade da resposta de Salazar: ‘Portugal não esta à venda’.
Em 1962, a CIA previa a derrota militar portuguesa em África, mas enganou-se. Em 1970, um estudo do National Security Council sobre a África Austral excluía peremptoriamente a ‘possibilidade de um colapso português em África’.
Com efeito, em 1974, o exército português controlava todo o território, as operações tinham cessado em 1972, a livre circulação era um facto e os movimentos independentistas estavam minados por divisões internas. Agostinho Neto estava a braços com profundas guerras internas e o MPLA estava recuado na Zâmbia. Na FNLA, Holden sucumbira a influência do cunhado, o (então) presidente do Zaire, ao ponto de Mobutu Sese Seko ter proposto que se permitisse a independência a Angola, aceitando que Portugal escolhesse o nome de quem desejasse colocar no lugar de Holden Roberto, como revelou o embaixador Luiz Gonzaga Ferreira no livro ‘Quadros de Viagem de um Diplomata: África – Congo Zaire Angola’.
Quanto à UNITA, de Jonas Savimbi, que nas administrações Reagan e Bush (pai) se tornara o principal aliado de Washington em Angola, encontrava-se abaixo da linha do caminho-de-ferro de Benguela, sem actividade militar conhecida e, mais ou menos, feita com a tropa portuguesa.
Em Janeiro de 1975, Holden, Neto e Savimbi assinaram com o Estado português o Acordo do Alvor, que marcava a independência de Angola para 11 de Novembro desse ano. Na véspera, a bandeira portuguesa desceu pela ultima vez no palácio do Governo, 492 anos depois das naus portugueses ali terem largados ferros.
Proclamada a independência, Holden Roberto borrifou-se para o Acordo de Alvor, reuniu um exército com o que restava da FNLA, mercenários portugueses e ingleses, tropas da África do Sul e avançou sobre Luanda.
Foi travado pelo MPLA, sobretudo pelos cubanos, as portas de Luanda. Ainda se juntou a Savimbi para proclamar a efémera República Democrática de Angola, com sede no Huambo, mas que se desfez com a retirada sul-africana e sem apoio de qualquer país. Nessa altura, a FNLA e o seu líder eram já uma sombra do passado. Holden exilou-se em Paris e só voltou a Luanda em 1991. 0 apagamento progressivo do velho líder bakongo foi consumado em 1992, nas primeiras legislativas democráticas, onde a FNLA obteve apenas 2,4% dos votos e cinco assentos no Parlamento. Crises internas levaram ao afastamento de Holden da presidência do partido, passando a mero presidente honorário.
Em 1974, os americanos, que já previam a queda de Holden, passaram a apoiar Savimbi para tentar impedir uma vitória da influência soviética e (ainda por cima) cubana em Angola. Mas garantida a posse de Luanda, o Governo do MPLA conseguiu o reconhecimento da OUA e de Portugal em Fevereiro de 1976 e logo se seguiram outros países. Os EUA, embora a Gulf continuasse a exploração de petróleo em Cabinda, só em 1993, durante o governo Clinton, 18 anos após a independência, reconheceram a Republica Popular de Angola.
A partir daí tudo seguiria o trilho da normalidade e do progresso.
Devia ser. mas não foi.

 

 

 

(a grande ilusão é a guerra; a grande desilusão é a paz)