em palpos de aranha

 

 

Ver-se em papos de aranha, como se sabe, é estar num aperto, numa posição embaraçosa, periclitante, enfim, estar à rasca.
E tudo isto seria pacificamente consensual não fora o etimologista Gonçalves Viana, no seu Apostilas aos Dicionários Portugueses, vir atiçar o fogo considerando inadmissível o que parecia ser um ajuste razoável para este adágio.
Ora vejamos: as aranhas não têm papo; mas têm palpos (dois apêndices articulados e móveis situados, aos lados da boca, nos insectos e crustáceos), do latim palpum, que significa afagar ou apalpar. Argumenta Gonçalves Viana, que substituir palpo por papo não é admissível dado que a própria essência de anexim, não poderia conter nele palavras que não o sejam (referia-se ao vocábulo latino palpum).
Óbvio que o axioma está deturpado, mas não me parece merecedor de palmatória.
Vejamos: papo faz parte do léxico português, (até onde eu tenha visto) há mais de três séculos. Então, isso sim, qual a correlação entre o papo (que o aranhuço não tem) e ver-se atrapalhado, aflito ou desorientado sem saber como sair de um atoleiro? Não há, claramente. Naturalmente que será bem mais curial aceitar o desespero da mosca, presa na cilada da teia, ver-se em desespero ao ser apalpada pelos palpos da aranha, que vai assim apreciando o seu próximo manjar.

Explicado! Mas, a relação entre uma forma e outra, talvez esteja, simplesmente e apenas, através da transmissão tempo fora, na sincopação de uma letra – o l – do meio da palavra palpo e, desse modo, dizer-se comummente estar em papos de aranha, em vez de estar em palpos de aranha. É aceitável, sim!
E a dar-se o caso de a sentença ser tão antiga que venha do tempo em que os animais falavam?…
Porventura diria a aranha à mosca: estás no papo!

 

 

 

(a aranha vive do que tece)

mal e porcamente

Originalmente a expressão era mal e parcamente e referia alguma coisa feita assim (rudimentar, modesta ou atabalhoada, mal) por terem sido usados parcos, ou pouco eficientes, recursos.
Como parcamente (de parco, parcus em latim, poupado, frugal, regrado ou sóbrio; o que, naturalmente, remete para uma origem conventual) não era uma palavra de conhecimento comum; daí que o uso popular rapidamente a substituísse por porcamente, no sentido de malfeito, achavascado ou trapalhão, com resultados ruins ou porcos.
Mudou-se o adágio e… pronto!

 

 

 

(o pouco conta-se e o nada é nada)