Convento de Santa Maria de Fiães

Num cabeço de quase setecentos metros de altitude, um pouco acima de Melgaço, lado a lado com a raia galega, a agrura do lugar, a pobreza da terra e a localização à roda de mil perigos, valeu-lhe desde os fundamentos da nacionalidade, privilégios e benesses. Afonso Henriques, ele mesmo cumulou de mimos essa terra de coutos e, principalmente, o Convento. O Convento, cuja origem remonta a meados do século IX; de origem beneditina, mais tarde adoptaria a reforma cisterciense, que o manteria até à sua decadência, aí pelos finais anos quinhentos do passado milénio. Do núcleo conventual, hoje, apenas resta o Mosteiro e algumas memórias da sua história.
Encimado sobre essa terra estéril e montuosa, da qual, alegavam os monges ermitas, ser terra que não dava aos mais ricos, para seis meses, o Convento em louvor de Santa Maria de Fiães, ao novelo da sua idade, juntou algumas linhas, de uma rubra história com o seu quê de brejeiro, que sempre encontrou alguém que lhe acrescentasse mais um ponto para dela tirar alguma lambedura ou sorriso mais maroto…
Pois então, diz-se que aí pelo meão de Fevereiro (nos primeiros anos do século XVI) o visitador da casa-mãe de Cister, um tal abade Saulieu, acompanhado pelo seu acólito, Claude de Bronseval (afinal, o narrador desta pequena estória, das tais que o crivo censório eclesiástico sempre tinha artes de fazer silenciar…), depois de ter visitado o mosteiro do Ermelo, umas léguas mais abaixo, nas margens planas do Lima, dirigiu-se para Fiães. Desviando-se do caminho mais curto, mas mais custoso, pelas vertentes da serra da Peneda, fizeram-se aos caminhos do Arcos de Valdevez e Melgaço. Daqui, lá sobem por uma linheira no monte, cheia de precipícios, que os leva até ao Convento.
Recebidos por D. João de Cós, abade do Convento, por este sabe Saulieu de um motivo de grande escândalo. Vai, lampinho, Saulieu, com o seu secretário e mais o abade João, até Orada, uma capela mesmo no termo de Melgaço, que pertencia aos preceitos do Convento.  E, então, qual foi o motivo desta estugada e santa indignação, e caminhada de Saulieu? Por ali, um eremita do mosteiro, ganhara hábito de se escapar, cerrado abaixo, para abstrusos encontros com moçoilas perdidas. A uma das raparigas, o extremoso abade, até dera uma casa, ali, na Orada. E foi para lá que a comitiva se dirigiu. Em má hora, parece, já que o dito cenobita e a amásia se entregavam a altos e inconfessáveis prazeres com mais outras duas mocinhas do sítio. Logo Saulieu convoca o juiz de Melgaço. Explica-lhe a ignomínia (que, parece, não era nenhuma novidade para o julgador...) e, de seguida, leva-o ao local da vergonhaça.
Intima, o juiz, as pecadoras a abandonarem a casa; e dá-lhes um prazo de quinze dias. Nem mais. Voltou, assim, Saulieu, para Fiães, de consciência tranquila e certo de ter eliminado aquela pedra de escândalo na virtuosidade da irmandade. Do reinadio abade trataria ele, de caminho, despachando-o para bem longe…
No dia seguinte, sempre acompanhado com o seu fiel assistente, Saulieu toma o caminho de Espanha. Crónica alguma ou mesmo mexerico, conto ou ponto que seja, explica qual foi o desfecho da história. Mas houve sempre quem suspeitasse, que dando Saulieu costas a Fiães, tudo tivesse ficado como dantes e, assim, as três mocinhas por lá tenham continuado a contribuir para adoçar as melgacenses agruras deste vale de lágrimas…
….
Curiosamente, há uns dias atrás, quando lá fui, um basto, quedo, reservado e mudo nevoeiro, encobria o Mosteiro de Santa Maria de Fiães.

 

 

 

(quando a rameira canta, o boticário joga e o escrivão pergunta
a quantos estamos do mês, o negócio vai ruim para os três)

há de tudo como na botica

Botica, dizia o Diccionario da Lingua Portuguesa, em 1782, é loge onde está fazenda a vender ou casa onde se vendem remédios e drogas medicinais. A origem será o baixo grego apothéke (que por erro na tradução viria a confluir, com a ajuda do boutique francês, na aportuguesada botica), que significava armazém ou depósito.
Porém, acrescentam outros estudiosos, num livro, publicado em 1874, intitulado Florilégio ou Ramalhete Alfabético de Adágios e Idiotismos comparativos e ponderativos da Língua Castelhana, diz o seu autor, um erudito franciscano de nome Gomes Alvares, que muito antigamente se chamava, em castelhano, botica, a todo e qualquer armazém ou loja, em geral, como sucedia em França, onde se dizia boutique; e que, neste sentido e não no de farmácia, é a sua opinião, que a palavra deve ser tomada quando, numa frase, se trata de expressar que nada falta do que é necessário, ou do que se presume que deve existir em determinado lugar.
Em Portugal, é também remoto o uso da mesma expressão, mas, aqui, a palavra botica, embora antigamente tivesse uma significação semelhante, isto é, extensiva a lojas ou armazéns de diversos géneros (tal como em Espanha e em França), a verdade é que o seu uso se generalizou mais no sentido de se referir a farmácia.
Sem que a latitude da etimologia altere o raciocínio, desde os primórdios da emancipação da farmácia, como se disse, estabelecimento onde se vendia de tudo quanto necessário à debelação de todas as maleitas do corpo, ali existia um livrinho a que chamavam Qui pro quo. Os boticários – agora farmacêuticos – se não tinham o medicamento, a pomada, o elixir ou a ervinha receitada, não se atrapalhavam por tal contrariedade: iam ao livrinho e, certo e sabido, lá encontravam indicação de um substituto com préstimo e qualidade. O Quid pro quo (tomar uma coisa por outra, assim correctamente escrito e vindo do Latim) era já uma prática corrente dos físicos que, nos séculos XII e XIII, ao inscreverem nas suas receitas recomendações para a substituição dos remédios, sempre as subordinavam à inscrição da expressão latina. Então, os boticários, ou os farmacêuticos, que nem sempre primavam pela honestidade, viam ali uma possibilidade de fazer umas trocas nos remédios para o freguês. Esta habilidade na troca é, claramente, a fonte do conceito que está na frase que a voz popular vulgarizou.
É assim que nos mostra a imagem da botica provinciana, seja ela o tasco ou a farmácia, de há poucos anos atrás, onde se reuniam as pessoas da terra para aviar toda a espécie de conselhos, informações, mexericos ou mezinhas.
Já dizia Camões, no Auto de El-Rei Seleuco, pela voz do Mordomo: Eis, senhores, o autor, por me honrar nesta festival noite, me quis representar uma farsa; e diz que quem dela se não contentar, querendo outros novos conhecimentos, que se vá aos soalheiros dos escudeiros da Castanheira ou de Alhos Vedros, ou converse na Rua Nova em casa do boticário; e não lhe faltará que conte.
Ou então A química ciência tirará desta rosa a quinta-essência, coada pelos diques, que Apoio larga pelos seus lambiques nostris Pharmacopolis a poderão vender por Rosa solis, desta de Febo Academia rica, onde todo lo ai como en botica., cantava, nos finais do século XIX, um vate da Academia dos Anónimos de Lisboa.

 

 

 

(remédio caro, se não faz bem ao doente, faz bem ao boticário)