sem rei nem roque

A origem desta locução – que não oferece qualquer dúvida – está intimamente relacionada com o jogo do xadrez. Vamos à parte técnica do jogo necessária à explicação:
Entre as várias figuras existentes no xadrez, contam-se duas torres nas peças de cada jogador. Estas torres, de início, situam-se nos extremos da linha mais recuada do tabuleiro, onde, a meio, se posiciona o Rei. Durante o jogo há uma jogada em que, excepcionalmente, se pode mover, seguidamente, duas peças: trocar posicionalmente o rei com qualquer uma das torres. A esta jogada, na gíria do jogo, chama-se rocar ou fazer o roque.
Ainda outra, necessária, achega: o nome da peça torre deriva do persa rukh, rux ou ruk, uma enorme ave de rapina na mitologia popular do Médio Oriente. O europeizado roc aparece em geografias árabes e história natural, popularizado em contos de fadas e folclore de marinheiros. Ibn Battuta e Abd al-Rahman popularizaram a figura do roc tal como a de Sinbad. Se a terminologia entre na Europa por França (o roc francês, talvez em alusão ao senhor local, que significa torre de xadrez), pelo castelhano roque ou, por que não?, directamente do árabe ao português, parece-me uma questão de lana caprina.
Agora, sim, a expressão e o seu significado:
A acepção actual derivou com o uso. Hoje, sem rei nem roque é qualquer coisa ou, especialmente, alguma pessoa, desgovernada, à matroca, sem tutela ou à deriva, usando uma terminologia náutica. Um pouco diferente da usança inicial que era no sentido de significar nem uma coisa nem outra ou, para usar uma outra expressão, nem pau nem bola.
Dizia Prestes, no Auto do Mouro Encantado: Dir-lhe-ei que não tem nem viu amor, Nem se é com roque nem se é com Rei. Ou seja, o resultado é igual, seja de um ou de outro modo.
Apenas como adenda, refira-se que Roque (com R maiúsculo, já que se trata de um nome) nada tem a ver com o roque que aqui tratamos. Será, por exemplo, o caso de Roque e a amiga, duo satírico criado nos anos 80, no programa radiofónico Pão com Manteiga.

 

 

 

(quem tem quatro e gasta cinco, não há mister de bolsa, nem bolsinho)

Diógenes e a Dialéctica

A propósito dos seus conceitos filosóficos, conta-se amiúde que, vestido de trapos e de lanterna na mão, deambulava pela cidade à procura de um verdadeiro homem. Ou, quando Alexandre da Macedónia o interpelou, na rua, perguntando-lhe o que mais desejava; como Alexandre lhe tapasse o sol, respondeu-lhe não me tires o que não me podes dar.
Há, porém, uma outra história pouco conhecida…
Um dia, numa das ruas da cidade, um homem armado com um enorme pau corria, em fúria desordenada sobre outro, a gritar:
– Agarra! Agarra!…
Diógenes, que por acaso se encontrava no caminho, desviou-se para que o fugitivo melhor corresse. Furioso, o homem do varapau, increpou-o:

– Você é doido?!… Por que não o agarrou?! É um assassino!
– Um assassino? – volveu-lhe o filósofo – E o que é um assassino?…
– Assassino é um homem que mata…

– Um magarefe?!…
– Não se faça de tolo! Assassino é um homem que mata outro homem!
– Um soldado…
– Não!, claro que não! Um homem que mata outro, mas em tempo de paz!
– Ah!, um carrasco…
– Mau! É néscio?!… Um homem que mata outro na sua própria casa…
– Ah!, então já sei: médico!
Por fim o homem compreendeu a inutilidade de prolongar a discussão, soltou um praga e foi, novamente, em perseguição daquele a quem chamava assassino… 

 

 

 

(não haveria má palavra se não fosse mal tomada)