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Em Portugal, o ano de 1968 começou com o almirante Américo Tomás sentado na cadeira de presidente da República (excepto quando procedia a inaugurações) e Oliveira Salazar a Primeiro Ministro. A 3 de Agosto desse ano, durante umas férias no forte Santo António do Estoril, acontece o acidente inverosímil: na cadeira ou na banheira – nunca se soube – Salazar cai desamparado, é hospitalizado e morre dois anos mais tarde. A seguir, o Estado Novo iria viver uma tristonha primavera Marcelista durante mais quatro anos.
Entretanto, de Melgaço a Faro, o país dividia-se, mais ou menos a jeito, pelos grupos da CUF, Espírito Santo, Champalimaud, Português do Atlântico, Borges & Irmão, Nacional Ultramarino e Fonseca & Burnay. Ainda havia uns suplentes ao jogo, tais como a Feiteira, Manuel Vinhas, Albano Magalhães, Amorim, Sacor, Gazcidla e Sonap. O país fervilhava, por uma ou outra razão. Pouco tempo antes, em Novembro de 1967, Lisboa e os arredores foram brutalmente massacrados com violentes cheias: Colares a Sintra e Lisboa até Odivelas ou Alverca a Vila Franca de Xira. O Governo não só escondeu os mortos como também o fez em relação à espontânea mobilização de milhares de estudantes (entre eles, um de nome Guterres e outro chamado Marcelo). Pelo meio de aerogramas, Caravanas da Saudade com artistas da Rádio arregimentados pelas senhoras do MNF, com a Madame Supico Pinto a distribuir cigarros e chá, a Guerra no Ultramar já contabilizava mais de cinco mil militares caídos, enquanto o imperturbado Salazar insistia no país uno, do Minho a Timor e o Rapazote, na ONU, a jurava a pés juntos que Portugal não usava napalm. As primeiras manifestações contra a guerra, agora à conta do Vietname, surgiram no Porto e em Lisboa. A propósito das eleições legislativas, a acontecer no ano seguinte, cresce a intervenção da Oposição Democrática que, na Invicta, vai recebendo alguns mimos de água tingida e porrada. O dia 2 de Maio, dos estudantes da Universidade de Paris, em Nanterre, apanha a exposição de Júlio Pomar, no Louvre. Por cá, Natália Correia, José Cardoso Pires, Eugénio de Andrade e Sophia de Mello publicam. Os ‘Crimes de Guerra no Vietname’, de Bertrand Russell e ‘Empório do Vaticano’ de Nino lo Bello, do Librorum Prohibitorum da nossa Censura, abichei-os eu na Latino – ainda os guardo -, à conta de favores de um amigo que lá trabalhava. Há greve de pescadores em Matosinhos. Na Lisnave também. Em Março, a sessão de reflexão política no Coliseu do Porto acaba com uma carga policial e a maralha, desabrida, a correr por Passos Manuel abaixo. Maria Alberta Menéres edita a colecção Cabra-Cega nas edições Afrodite, do Fernando que há pouco tempo, em visita ao Porto, tinha almoçado comigo a recordar os tempos do Infante, do estardalhaço que foi com o pacote de Tide na Praça dos Leões, ou do ‘teimoso’ que ele queria atirar às cabeças dos polícias, na varanda do Guarany. Ocorrem manifestações, agora da Esquerda Democrática Estudantil e, depois, do Movimento da Juventude Trabalhadora, e mais duas do Movimento Democrático das Mulheres. Mário Soares é condenado à deportação para S. Tomé e Príncipe. Em Novembro, a PIDE fecha o Instituto Superior Técnico, em Lisboa, cujas emissões de rádio insistiam nas músicas de intervenção, especialmente as canções do Adriano, Fanhais e José Afonso.

1969 há-de vir, e cheio de emoções. Primeiro com um valente susto, em 28 de Fevereiro, provocado por um sismo de magnitude 8.0 Mw a abalar todo o país. Em Julho, na madrugada de 21 de Julho, ninguém dorme: a Eagle, da Apollo 11, de Armstrong e Aldrin, chegariam ao Mar da Tranquilidade. Toda a gente fica na Lua. A juventude, em Agosto, florescia, exuberante, no Woodstock (que o Hendrix fechou, os Doors acharam que aquilo iria ser uma sujeira, e danou o Dylan por ter montes de hippies a passar à porta…).
No mesmo ano em que a TAP, o Banco Borges & Irmão e a Gazcilda encomendavam à IBM os primeiros computadores, em Portugal; e eu a embarcar nessa aventura. Mas isso já seria outra história.
É que 1968 foi o ano que nunca acabou.

 

 

 

(a revolução é a heróica tentativa de realizar os sonhos)

pulgas & piolhos

Em tempos que já lá vão (1850) o Regulamento do Regimento da Rainha determinava que para um mancebo ser oficial de regimento bastava que fosse ‘filho de boas famílias’. Ditava ainda que não era condição saber ler e escrever, pois para isso bastavam os escrivães. Um pouco mais de cem anos depois qualquer magala que começasse as primeiras marchas na tropa, sabia que de nada valia, ao fim parada, ir queixar-se ao sargento da unidade que as botas eram demasiado apertadas e, por isso, lhe magoavam os calos. Era sabido que o sargento vociferava ‘Calos, sua besta?! Borregos tenho eu e sou sargento. Calos é para oficial!...’
A pilhéria serve (e não aperta…) de mote a um velho aforismo, ‘As pulgas são dos cães e os piolhos dos fidalgos’ que pretende encerrar a mesma sentença, ou seja, o mesmo que dizer, por ex. cada macaco no seu galho.
Diz-se que a sua origem vem desta história que muito se contava pelos botequins de Lisboa, na última década do século XIX. Vamos à história:
Chegou-se um pobre ao pé de um indivíduo que parecia asseado, e reparando-lhe para o pescoço, disse:
Dá-me licença de lhe tirar uma pulga?
O outro deu consentimento, e assim que viu a pulga, meteu a mão na algibeira e deu 5 réis ao pobre, em recompensa.
Um outro pobre, que observou o acontecido, entendeu para si que, se ele dava 5 réis a quem lhe tirava uma pulga, o que não daria a quem lhe achasse um piolho. Aproximou-se também do indivíduo, e disse:
– Dá-me o senhor, licença de lhe tirar um piolho da gola da casaca?
De facto tirou-lhe um piolho, mas o homem não lhe deu nada e até o repeliu.
– Então o senhor dá 5 réis a quem lhe tira uma pulga, e escorraça quem lhe cata um piolho?
– É verdade! Fique você sabendo que as pulgas são dos cães e os piolhos dos fidalgos!
E foi-se andando com ar de quem está bem certo da sua nobreza.
Piolhos, hã!…