centenário…


Escrever o que quer que seja sobre o centenário da República parece ser escrever o que já foi escrito. Daí que, desta vez, não ignorando a efeméride, aqui se escolham outros atalhos que, de uma forma ou outra, lá vão dar. Mas, em boa verdade, vão dar a uma celebração um tanto nebulosa. É que a República, que já provocara dores de parto, 19 anos antes, no Porto, teve uma gestação longa e, também, bastante atribulada. Se ela parece, tão só, a consequência da barbaridade do 1 de Fevereiro, de dois anos atrás, seria velhacaria deixar por aí as causas próximas do seu nascimento.

A República, a bem dizer, germinou sabe-se lá quando!…
Talvez nos começos do século XIX, na Bastilha (não será daí que vem a Liberdade, essa mulher ao jeito da Maria da Fonte, mas de barrete frígio e peito nu, à frente do povo erguendo a bandeira e o alento?…), ou, até, mais tarde, da Carta. De uma forma ou de outra, a República nasceu do Romantismo e da Monarquia Liberal. Mas, tal como os seus progenitores, acabaria a sofrer as mazelas da suas poucas virtudes e tamanhos defeitos.
Durou apenas 16 anos o seu primeiro atribulado sonho. Depois, durante sete anos, assentou praça e marchou aos caprichos da soldadesca. Viveu, a seguir, quarenta e um anos, um estado que sempre lhe disseram novo, mas que era caquéctico e cheio de catarreira. Por fim, abriu as janelas, sacudiu o pó, deitou à mesa a toalha de rendas de ganchinho que tirou da arca, pôs uns cravos vermelhos a enfeitar a jarra, soltou umas bichinhas de rabear, mudou os folhos das prateleiras da cozinha, areou os tachos e, de alma limpa e sorriso cheio, pôs-se a comer um cozidinho à portuguesa…
Mas, agora, que diz fazer 100 anos, comemora o quê, afinal?…
Do seu dote, sobra-lhe uma bandeira (que bem jeito deu ao Scolari!…) e um hino. Um e outro, coisas da vida!, tão falhos de imaginação: pode-se dizer isto e mais aquilo, que é verde porque assim e vermelha porque assado. Pode ser. Mas que eram as cores, chapadinhas, da Carbonária, lá isso eram. O hino (que ainda hoje cantam os jogadores luso-brasileiros da nossa selecção, devotadamente, com a mão no peito) não passa de uma ajeitadela ao hino do Keil, contra os bretões, por causa do Ultimato de 1890
Em 1910, cerca de 75% da população portuguesa não sabia ler nem escrever. Em 1960, a esmagadora maioria ficava-se pelo nível básico da escolaridade. 1% no ensino médio ou superior, e 30% era o número do analfabetismo. Hoje, e ao ritmo dos últimos dez anos, Portugal precisa de 90 anos para alcançar a média comunitária. Isto, mesmo contando com todas as Oportunidades de se fabricarem estatísticas de Ensino, de qualquer modo e a todos os dias da semana…
José Luciano de Castro, Par do Reino, preocupado e desiludido, escrevia ao Rei, em 15 de Março de 1910 (sete meses antes da instauração da República e, repara-se, cem anos antes dos dias de hoje!…):

(…) eu não aconselharia a Vossa Majestade que deixasse cair o 5º Ministério diante dos tumultos e arruaças provocados pelas oposições. Mas como a Câmara está na última sessão, creio que, com boa vontade por parte do Governo e da maioria, se conseguirá o que Vossa Majestade deseja tanto como eu. O que é preciso é não deixar perceber que Vossa Majestade teria alguma dúvida em conceder a dissolução, se se tornasse necessária, porque teríamos logo, como no ano passado, as repetidas arruaças que provocaram duas crises ministeriais (…)
(…) Quanto à remodelação dos partidos, parece-me cedo para dar uma opinião segura. Na desordem em que tudo está na política, é indispensável simplificar e reduzir os grupos e grupelhos, tanto quanto possa ser. Há partidos a mais, e faltam fortes e sérios partidos de governo. Infelizmente faltam igualmente homens à altura das dificuldades do momento. É uma pobreza franciscana. Temos de esperar que apareçam com o decorrer do tempo estadistas de valor, mas por ora, digo a Vossa Majestade, lamento mas não os descubro (…).
Não conhecem isto de algum lado?!…

A 5 de Outubro de 1910 a Família Real vai para Mafra; sairia no dia seguinte para o exílio.
Há um quilómetro de linha férrea por cada dez mil habitantes, o que na Europa só consegue ser melhor que a Sérvia e a Bulgária.
O Orçamento de Estado para 1911 é de 73,5 mil contos. O ordenado de um professor primário é de 20 mil réis.
É alterada a bandeira nacional, é reconhecido o direito à greve, são expulsos 953 jesuítas, é abolido o ensino da doutrina cristã e o juramento religioso nos tribunais.
José Malhoa pinta O Fado.
No Grande Hotel Duas Nações, na rua Augusta, em Lisboa, um jantar custa 600 réis.
Em cada mil habitantes 8 emigram para o Brasil. Quase todos são menores. A propósito, escreveria Basílio Teleso que esses pais desejam, mais ou menos confusamente, é fazer do filho uma fonte de receita. É a sua caixa económica, o seu seguro de vida, o seu capital de reserva – a pobre criança que eles exportam para os Brasis’.
O Governo Civil proíbe o uso de chapéus espalhafatosos às senhoras em salas de espectáculos, ‘por dificultarem a visão de quem está atrás’.
Hip-hip hurra!…