das Janeiras aos Reis Magos

“Eis que uns Magos chegaram do Oriente a Jerusalém perguntando: Onde está o rei dos Judeus, que nasceu? Porque nós vimos a sua estrela no oriente e vimos adorá-lo. E disseram-lhes: Em Belém de Judá, porque assim foi escrito pelo Profeta (Miqueias).

E eles tendo ouvido as palavras do Rei (Herodes) partiram: e eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que, chegando onde estava o Menino, parou. E entraram na casa, e, prostrando-se, O adoraram; e, abrindo os seus tesouros lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra.”
(S. Mateus, 2, 1-12)

É este acontecimento, narrado pelo apóstolo, que a Igreja celebra no dia 6 de Janeiro, nas festa denominada Epifania do Senhor. Os festejos, na tríplice comemoração do Nascimento, Baptismo e Adoração dos Magos, remontam ao século IV, ao tempo do Papa S. Leão.
À celebração da Epifania, o povo chama simplesmente Dia de Reis, ou, os Reis.
E, um pouco por todo o lado, sempre ganhou importância na tradição e no imaginário popular. Em muito lugar, ainda hoje, é tradição cantar os Reis. Cantar os Reis é como que repetir as intenções das canções de Natal: as xácaras, os autos ou as alegorias do Natal Menino, são agora as da Adoração dos Reis. Tudo gira em volta do Menino e por causa do Menino.

São chegados os três Reis
da banda do Oriente,
a visitar o Menino,
alto Deus Omnipresente.
Guiados por uma estrela
vieram ter a Belém,
onde estava o Rei do Mundo
que nasceu por nosso bem.
(Trás-os-Montes)

Em Loulé, canta-se o rimance dos Reis, bem curioso e interessante. Termina assim:
Qual serão os cavalheiros
que fazem sombra no mar?
– São os três Reis do Oriente
que Jesus vêm a buscar.
Não procuram por pousada
que eu lha não possa dar.
Procuram por um Deus Menino;
onde O iriam-n’O achar?
– Foram-n’O achar em Roma
revestido no altar.
Missa nova quero dizer
missa nova quero cantar,
S. João repica o sino
S. Pedro muda o missal!…
(Algarve)

Em Tinalhas (na Beira-Baixa) o canto dos Reis, era uma veneranda tradição legada por antepassados que já ninguém lembrava, tal era a fundura do costume. Era um canto extraordinário e inconfundível, que causou a admiração de muitos que, como nós, ali se deslocavam propositadamente ao final do dia 5 de Janeiro…
Desde a manhã bem cedo que a sineta da Igreja anunciava a tradição. E todo o dia a azáfama era grande, nos preparativos e nas esperas das gentes que iam chegando. Depois da janta, saía o tambor da Confraria, mais os bombos e os pratos da banda. No adro da Igreja do Espírito Santo, formavam-se dois grupos: os casados e os solteiros. E logo começava o cortejo pelas ruas da aldeia, ao som dos instrumentos, dialogando um auto dos Reis Magos, com uma riquíssima expressão coreográfica e etnográfica…
Saiam-se os solteiros:
Alegrai-vos, alegrai-vos!
Oh! Que aqui estão os três Reis Magos!

Respondem os casados:
Oh! Que aqui estão, aqui estão
Oh! Que aqui estão os três Reis Magos!

E a comitiva continuava, com cantoria alternada dos grupos, ruas, veredas e escadas fora, pela aldeia, até lá bem dentro da noite e do frio…
Os três reis Magos são chegados,
Oh! Em seguida vêem a guia!

Vão cantar ao rei Messias,
Oh! Pela estrela guiados!

Há muitos anos havia
Oh! Que andavam aguardando!

O que a Virgem pariria
Oh! Porém não sabia quando!

Pariria um Menino
Oh! Que se chamaria Rei!

Ele Rei se chamaria
Oh! Filho da Virgem Maria!

Se os Reis fecham os festejos do Nascimento, ainda sobram pelo ar, depois dos cantares de Natal, as janeiras ou janeiradas, estas talvez ainda mais embrenhadas dos vestígios de antigos ritos romano-pagãos que o Cristianismo, nesta época de solstício, apropriou e lhes deu um sentido e orientação religioso. É verdade que, aqui e além, sobressai na cantoria, de forma mais ou menos velada (às vezes até bem clara e atrevida...) o interesse das janeiradas. Se umas se destinam às almas (as almas do Purgatório) a maioria tem por fito a festa ou a comezaina…
Este dia das janeiras,
é de grandes merecimentos.
Dendê esmola! Se a dendês
com devoção, bem a dais.
Lá tendes na outra vida,
vossas mães e vossos pais!

Mas o bem-fazer às almas depressa se esvai: começa por um louvor à gente da casa e acaba no peditório desavergonhado (o que na Madeira chamam súplicas…)
De quem é aquele chapéu
que além está dependurado?
É do senhor (dizem o nome do dono da casa)
que é um homem muito honrado.

E lá vai a pedinchice…

Levante-se senhor Manel,
do seu banco de cortiça.
Venha-nos dar as janeiras,
uma morcela e uma chouriça!…
(Trás-os-Montes)

E quando (quase sempre…) da casa vem uma cesta ou uma saca, o rancho agradece…
Das janeiras que nos deram
Deus será o pagador.
Queira Deus d’hoje a um ano
nos façam o mesmo favor.
Obrigado meus senhores,
pela vossa caridade.
Deus guarde a vossa família
Em perfeita amizade.
(Beira-Alta)

Mas se os donos da casa não estão pelos ajustes de lhes alimentar a paródia, é certinho que sai descanto. A assuada, o remendilho ou remendíola: o canto transforma-se em sarcasmo e o elogio dá-se logo por não dito…
Ou o toucinho é alto,
ou a faca não quer cortar;
essas barbas de farelos,
não têm nada p’ra nos dar!…
(Minho)

E Janeiro vai passando na bordadura das noites luarentas à habitude de um tempo de frio e de neve, com horas tardias e serões à roda da lareira. Como ao linho da camisa, também o tempo vai poendo a lembrança desses cantares à conta do Menino…