ovo de Colombo

Toda a gente conhece a corriqueira história do ovo de Colombo e qual o sentido alusivo dado a esta expressão que, naturalmente, pretende significar a execução de uma coisa facílima mas que, de início, todos julgavam irrealizável. Ora até aqui nada de novo. O que deve ser novo (e para muita gente…) é que a história, tida como verídica, não teve rigorosamente nada a ver com o… Colombo!
Exactamente.
Para se falar com propriedade e de acordo com a verdade dos factos, dever-se-á dizer… o ovo de Brunelleschi.
Nascido em Florença, pioneiro da arquitectura renascentista, teve a admiração e o respeito do próprio Miguel Ângelo. Uma das suas obras, provavelmente a mais emblemática, a Catedral de Santa Maria del Fiore, construída em Florença nas primeiras décadas do século XV, tinha no seu projecto uma cúpula de grandes dimensões na qual ele pensava não usar ferro. A empresa foi considerada de tal forma arriscadíssima que foram chamados a Florença arquitectos e engenheiros de toda a Itália para darem os seus pareceres sobre os meios de cobrir a catedral. Brunelleschi apresentou os seus projectos e, cansado e ofendido por ver que não eram dignos de aceitação, regressou a Roma. Sucedeu, inevitavelmente, o que ele próprio previra: todos os artistas reconheceram as insuficiências dos seus conhecimentos e a limitação das suas capacidades para tomar a responsabilidade do encargo que se pedia. Brunelleschi foi novamente chamado e, seduzido pela importância do empreendimento, certo das suas convicções, propôs que fossem convidados a ir a Florença todos os mais célebres engenheiros e arquitectos, não só de Itália como também de outros países. Foram, rezam as crónicas, bastantes e afamados os artistas que demandaram Florença. E, naturalmente, as opiniões fervilharam, dividiram-se sem conseguirem o mais ténue consenso: uns queriam fazer o zimbório com pedra-pomes, por ser mais leve, outros propunham apoiá-lo sobre um emaranhado de arcos abatidos, outros alvitraram a construção de um pilar central que sustentasse uma abóbada anular; houve até quem sugerisse que se enchesse a igreja com uma montanha de terra, que servisse de forma à cúpula e na qual fosse enterrada uma boa quantidade de moedas, para que o engodo de encontrá-las induzisse o povo a desobstruir rapidamente o edifício, quando a cúpula estivesse terminada!…
Quando foi a vez de Brunelleschi falar, limitou-se a dizer que não precisava de pilares, de terra, arcos, cambotas ou mesmo armações de madeira. A sua abóbada se sustentaria sem apoio, pelo seu próprio peso e pela força da adesão das suas partes diversas. A opinião pareceu tão estapafúrdica e ridícula que, supondo que ele havia ensandecido, o fizeram sair abruptamente da assembleia. Voltaram aos projectos iniciais, recrudesceram as discussões e, novamente, concluíram pela impossibilidade.
Aí, alguém se lembrou e chamou Brunelleschi para que ele mostrasse os seus planos e os meios que pensava utilizar para concretizar a sua aloucada ideia. Ele, porém, não acedeu às exigências da assembleia e limitou-se a pedir que lhe trouxessem um ovo. Eis a forma do zimbório, disse ele. A dificuldade está apenas em mantê-lo de pé. Tão simples como isso. Quem indicar o modo de o conseguir, penso, será merecedor que o escolham como construtor.
Toda a assembleia, parecendo aceitar a ideia, consentiu em tentar a pueril experiência. Mas como era expectável, em vão. Então, Brunelleschi, batendo levemente com o ovo sobre a pedra da mesa, pousou-o brandamente sobre o fundo quebrado, deixando de pé, disse: Assim!
Um burburinho enorme em toda a assembleia com todos a vociferar que isso também eles mesmo fariam. Fariam mas não o fizeram, fez-lhes notar Brunelleschi que, sorrindo ironicamente, acrescentou o mesmo diriam do zimbório se eu lhes mostrasse aqui os planos e as formas de execução
O gracejo foi decisivo e graças a ele Brunelleschi foi nomeado arquitecto da obra que foi concluída em 1434, com a sua assombrosa cúpula, umas das mais arrojadas concepções do espírito humano e a mais admirável obra-prima de arte sacra jamais edificada.
Só o zimbório de S. Pedro, feito muito depois, excede este em altura, mas não se compara em beleza, arrojo e arte.
Miguel Ângelo diria que era muito difícil imitar Brunelleschi; mas que era impossível excedê-lo.
Quando a originalidade da história do ovo foi atribuída a Cristóvão Colombo, já a catedral tinha quase um século de existência e ninguém reconheceu, nem reconhece, a impropriedade da sua aplicação.
A verdade é que Colombo nem o caminho para a Índia sabia…

 

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(por que entra o cão na igreja? Ninguém sabe…
…mas a verdade é porque a porta está aberta)

24 comentários sobre “ovo de Colombo

  1. Maria P. 14 Junho, 2009 / 21:21

    Estas aulas são magníficas:)
    Beijinho*

  2. Humana 11 Junho, 2009 / 14:58

    embora conhecesse a história, gostei de a ler, aqui, por si contada.
    porque entra o cão na igreja? porque se perdeu, no caminho para a índia!!! :))))
    um abraço, tinta permanente.

  3. A.Meirelles 11 Junho, 2009 / 13:16

    Cristóvão Colombo não descobriu o caminho para a ìndia porque ele já existia…como muitos outros!

  4. A Casa da Buganvília 11 Junho, 2009 / 09:10

    A mentira, de tantas vezes contada, acaba por se tornar "verdade". Haja quem a reponha.
    Beijinhos

  5. gaivota 10 Junho, 2009 / 20:14

    com colombo ou sem colombo, com ovo, ou sem ovo e com o cão a entrar ou a sair… apenas te digo que florença é o máximo em arquitectura! a catedral, as estátuas, outros monumentos…
    deslumbrantes! falam-me em itália e logo recomenda uma ida a florença…
    beijinhos

  6. Ponto e Vírgula 10 Junho, 2009 / 09:13

    Uma formidável aula de história. O seu a seu dono.
    Bjos

  7. Rosa dos Ventos 9 Junho, 2009 / 20:48

    Sempre a aprender contigo!!!
    Não fazia a mínima ideia…
    Abraço

  8. tulipa 6 Junho, 2009 / 21:02

    Obrigado pelas lições que contigo aprendo.
    PARABÉNS.
    Obrigado pela partilha.
    Atrasada nas minhas visitas, um pouco ausente da blogosfera, volto devagar…
    Hoje li um post sobre:
    "sucesso individual"…
    Penso que foi o que acabei de obter.
    Se quiseres comentar o meu post do blog "Deabrilemdiante" ficarei muito grata.
    Bom fim de semana.
    Beijo com amizade.

  9. mdsol 6 Junho, 2009 / 20:41

    Este blog é o MÁXIMOOOOOO! cada post cada deslumbramento: pelo tema, pelo imprevisto, por ser bem contado, por tudo.
    PARABÉNS, PARABÉNS, PARABÉNS…
    :))

  10. mena m. 6 Junho, 2009 / 17:04

    Não sei porque entra o cão na igreja, se calhar porque lá está fresquinho…
    Mas sei porque aqui venho e volto sempre!
    Obrigada pelas lições de história com as quais me delicio.
    Um abraço!

  11. pin gente 6 Junho, 2009 / 10:11

    és formidável nestas tuas aulas de história. assim vale a pena aprender (sempre)!
    um beijo
    luísa

  12. Violeta 5 Junho, 2009 / 23:30

    A tua história está tão gira que me fartei de rir e lembrei-me " A abóboda não caiu, a abóboda não cairá…"

  13. tempusinfinitae 5 Junho, 2009 / 23:35

    É nestas pequenas simplicidades que a palavra génio tão bem se adapta. Sem escoras, nem cordas, ou terra de sopé.
    Ver além tão só.
    Um sublinhado para a redacção. Se não estivesse escrita desta forma, muito do ovo desmoronaría.
    Abraço, bom fds.

  14. Justine 5 Junho, 2009 / 09:48

    Os visionários e os génios nunca são compreendidos pelos seus contemporâneos, primeira conclusão da tua história. A história é quase sempre deturpada, segunda conclusão!
    Terceira e última conclusão: continuas a contar muito bem:))

  15. Baila sem peso 4 Junho, 2009 / 20:20

    E o "Colombo nem o caminho para a Índia sabia…"
    tal como eu quando aqui cheguei
    não fazia ideia desta sabedoria
    sobre o ovo, de que Brunelleschi
    arquitecto, a que esta verdade pertencia…
    todos entram na igreja até o cão…
    a porta aberta permite a confissão
    uns pelo sim, outros pelo não…
    Um abraço do coração

  16. MagyMay 4 Junho, 2009 / 19:57

    E eu aprendi!!!
    Gosto do tal Brunelleschi e de todos os Brunelleschi que não desistem daquilo em que acreditam.
    "…muito difícil imitar …impossível excedê-lo"
    Abraço (tou quasi, quasi sem atchins..)
    PS – Aquela do monte de terra recheado de moedas, encantou-me…rs

  17. Teresa Durães 4 Junho, 2009 / 09:38

    Mais uma história interessantíssima que nos ensina

  18. Paula Raposo 3 Junho, 2009 / 22:08

    Uma obra magnífica! Beijos.

  19. APC 3 Junho, 2009 / 22:57

    Alegram-me esses contraditórios dos mitos que nos agarram as ideias ao que não é. Acho-lhes tanto de saudável, vivo e dinâmico… Um novo respirar, libertador. E também gostei da ideia da terra com moedas à mistura, já agora! 🙂
    Pela breve viagem a Florença já esta edição me encantaria, não fosse tudo o resto. Mi piacciono i tuoi parole, tu lo sai!
    E talvez que o cão vadio perceba que dentro de uma igreja se arrisque menos a ser agredido a pontapé!? É que sob os olhos de um boneco feito cristo, alguns lá se envergonharão do que realmente são. Uns mais que os outros, claro.
    Um forte abbracio!

  20. PreDatado 3 Junho, 2009 / 20:43

    Falando em ovo, é caso para perguntar, quem nasceu primeiro o zimbório ou o Brunelleschi?

  21. Inês Santos 3 Junho, 2009 / 20:35

    Vou lançar um desafio: quem me ajuda a obrigar este Senhor a publicar tudo isto?
    Inês

  22. Isamar 3 Junho, 2009 / 20:31

    Conhecia a história da cúpula de Santa Maria del Fiori e, salvaguardadas as diferenças e as distâncias, lembro-me sempre da abóbada da Sala do Capítulo do Mosteiro da Batalha e a sua atribuição ao Mestre Afonso Domingues que terá dito após três dias de espera , depois da sua conclusão: " A abóbada não caiu, a abóbada não cairá!".
    A Catedral de Florença é um belo exemplar da arquitectura do Renascimento . Bem-hajas por teres trazido uma história tão interessante e tão bem contada. Excelente!

    Abraços

  23. Dulce 3 Junho, 2009 / 19:24

    Sempre um prazer ler suas narrativas.
    Histórias interessantíssimas escritas de forma agradável, sempre trazendo conhecimento.

    Um abraço

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