do Porto a Lisboa
(com quase dois séculos pelo meio)


Quanto tempo demora, hoje uma viagem entre Lisboa e Porto?

De avião, menos de uma hora, considerando incluído o embarque e desembarque. Três horas de automóvel, se atendermos a uma condução e velocidade cuidadosa e dentro dos limites legais.
E em meados do século passado?
Tanto o avião como o automóvel demoravam sensivelmente o dobro.
E pela metade do século XIX? Não havia avião, não havia automóvel…
As viagens entre as duas cidades (e outros locais, é claro) eram em liteira ou em berlinda de pequenas dimensões, tirada por dois machos, geralmente seguida por outra que transportava as malas ou bagagens dos passageiros: as diligências (*) ainda eram raras e a mala-posta ensaiava os primeiros percursos. Nesse tempo, uma liteira alugava-se, então, em média, por noventa mil réis, para ir do Porto à capital.
A viagem era interrompida por muitos descansos, para repouso das pessoas e dos animais, além dos períodos de refeição e pernoita. Nessa altura, um dos pontos principais (o que hoje entenderíamos pela estação do Entroncamento para a via férrea), era a hospedaria dos padres franciscanos, em Albergaria. Curioso também, é que tanto na Ameixoeira como no pinhal de Azambuja – de terrífica memória para quantos, nesses tempos, se aventuravam a ir de uma para outra cidade – os viajantes eram aguardados por forças de cavalaria montada, sendo quase sempre destacada uma segurança de quatro soldados para cada liteira; dois deles batiam as matas nas proximidades e, os outros dois ladeavam o veículo, cuidando assim de o defenderem de qualquer assalto sempre esperado.
Sucedendo, porventura, que os batedores viessem comunicar a existência de algum perigo nas proximidades, então seguiam à frente as quatro praças juntas até que se atravessasse por completo o pinhal que fosse considerado perigoso na altura. Nesse caso, por esse mister mais arriscado e extraordinário, era pago um pinto (cerca de 480 réis) a cada um dos soldados.
O percurso, desta acidentada e sempre imprevisível viagem até Lisboa era, mais ou menos, assim:
No primeiro dia, saindo do Porto, a viagem terminava nos lados de Pinheiro da Bemposta; no segundo dia, passando por Albergaria-a-Nova, Albergaria-a-Velha, Vouga, Sardão, Aguada e Pedreira, pernoitava-se na Mealhada.  O terceiro dia era por Carqueijo, Fornos, e não se ia mais do que Coimbra. O quarto dia começava passando-se a Venda do Cego, depois Condeixa, Venda Nova e Redinha. Depois de Venda da Cruz, era no Pombal que se dormia. No quinto dia, depois de Travassos e a Peste, ia-se por Casal dos Ovos, Machados, Leiria, Boitaca e ficava-se nos Carvalhos. Pelo sexto dia, de Molianos à Volta da Vinha, dali a Candeeiros, Venda das Raparigas, Rio Maior e, para acabar, Alcoentre. No último dia, o sétimo, passava-se por Moinho do Cubo, Portas de Ferro e Castanheira. Dali a Vila Franca de Xira. Depois, quase sempre, não fora qualquer obrigação que o impedisse, até Lisboa eram umas cinco léguas (fluviais!…) bem medidas, Tejo abaixo…
(*)na fotografia, em Lisboa, partida da mala-posta para o Porto, no ano de 1875.