domingo de Páscoa

Desde o Domingo de Ramos que, por aqueles lados, todo o povo se preocupava e afadigava com os altos deveres da alma. Ao confesso quaresmal ninguém escapava: passavam uns, mais demoradamente, arrastavam-se outros, os mais renitentes, na esperança de um padre noviço que lhes resolvesse aquilo em dois ou três minutos.
Na igreja da aldeia, os altares cobriam-se de roxo, vazios de Santos e Senhoras, despidos de adornos e flores. Só dois palmitos, espigados e verdes, guarneciam o altar-mor: celebravam a chegada festiva de Jesus em Jerusalém, explicava a D. Filomena, a irmã do senhor prior. Todos entravam e saíam entre murmúrios de passos, sussurros de confissões e padres-nossos à mistura de um brando e adocicado perfume de cera dos peios que iam tremeluzindo nos nichos da fé de cada um…

A Maria das Dores já tinha posto a coroa no portão da quinta: umas rancas de carvalha a compor umas frésias à mistura de junquilhos, que é coisa que não falta no jardim fronteiro à Casa Grande da Aparecida. Agora era só esperar um nadita e lá no fundo do estradão há-de de aparecer o carro com os senhores e a criançada toda!
Tudo se ia aprontando para a solenidade do dia: a vaca e o demo, queimam-se aos primeiros instantes, no sábado da Aleluia; no Domingo, o compasso paroquial vai sair logo de manhãzinha, pouco depois de o sol levantar, ali para os lados do Soajo.
E isso ia saber-se em toda a aldeia, mal o Chico acendesse o rastilho de dois foguetes de estoira.

Mais um mucadiquinho e era aí uma boa meia dúzia deles, dos de resposta, a anunciar que o compasso já teria saído do terreiro da igreja, com o senhor prior à frente, mais os irmãos da confraria do Santíssimo. Depois era a vez do sacristão, de opa vermelha e com um lenço branco de linho sobre o braço esquerdo onde repousava a cruz de prata da paróquia. Atrás seriam as moçoilas da catequese abanando as campainhas de cobre; o mesário viria com a caldeira de prata da água benta e depois os homens das caixas de rufo e mais os outros com os bombos da festa…
Dizia o Neca da Meia, que era barbeiro e ferrador, a imitar toda aquela salgalhada de sons, que as campainhas vão judiando – e põe uma voz fininha a grilar – bonitinhas!, bonitinhas!, bonitinhas!...; e logo imita, agora a engrossar os ditongos, os rufos que demandam em surdina serão-ou-não!, serão-ou-não!, serão-ou-não!...
No fim hão-de rematar os bombos rouquenhos – aqui, o Neca, a fazer uns sincopados espaços para marcar a cadência, mas com muito boa sabedoria, sejam-ou-não-sejam-vamos-todos-p’rá-igreja!, sejam-ou-não-sejam-vamos-todos-p’rá-igreja!, sejam-ou-não-sejam-vamos-todos-p’rá-igreja!…
Sim, porque só despachada a obrigação é que se pode ir à devoção do cabrito assado no forno com as batatas, a mais o arrozinho de açafrão…

in contos de réis