Fátima, 13 de Maio de 1967


Em 1917 o país vivia uma conturbada situação política, herdada das convulsões que resultaram da passagem da monarquia para a república. A desordem, os golpes e contra-golpes, surgem tanto em cada esquina como em cada cabeça. Na altura, profetizava Eça de Queiroz que ‘
Portugal mergulharia numa imensa balbúrdia sanguinolenta’
O povo vivia na miséria, sem presente nem futuro. Cultivava a alegria da pobreza a par da horta ou da jorna nas searas dos senhores; vestia camisa ao domingo a caminho da missa, jogava a malha no adro e fazia camisolas, ao sol, na soleira da porta, enquanto aos serões escuros rasgados de azeite, fazia filhos com a bênção da paróquia. Apenas pouco mais de 1% da população tinha acesso ao Ensino, ao contrário dos privilegiados que viviam no ócio e na intriga. Afonso Costa instala a ditadura que só acabaria nos finais de 1917 com o triunvirato de Sidónio Pais, Feliciano da Costa e Machado Santos. O povo está amargurado por dentro e por fora. ‘A Pátria tornou-se comparável a um prédio de que secretamente se houvessem extraído os alicerces’, dizia Ramalho Ortigão. Neste cenário, era natural o anseio popular por um milagre…
50 anos depois, tudo já é, então, diferente. Com o Estado Novo, sob a mão férrea (ou o peso da bota) de Salazar, a Igreja apadrinha a manipulação em voga: o movimento das massas. Ainda que dilacerado pelas frentes da Guerra do Ultramar, o ano anterior havia sido excelente: inaugurara-se a Ponte sobre o Tejo, a Ponte Salazar e, maravilha das maravilhas, os Magriços tinham deslumbrado no Campeonato Mundial de Futebol com o seu histórico terceiro lugar. Daí que, a vinda de Paulo VI, era, ela própria, uma aparição.
‘O Céu ao alcance da terra‘, escreveria o Diário de Notícias, sobre o 13 de Maio de 1967.
Mas, tal como há 50 anos atrás, o povo continua entalado dentro de si próprio e vai reagindo como pode ou como julga saber.
Diz o ditado,
‘o naufrago até agarra lâmina de espada se a ela lhe chegar’