Guerra do Ultramar 1961-1974

Não fosse função do Tempo consumir-se sem deixar cinzas, talvez a História, hoje, fosse uma ciência mais exacta que a exacta se diz a Matemática. Mas não é.
Por isso, aceite-se, que a dita Guerra do Ultramar Português, começou há cinquenta anos. A 4 de Fevereiro de 1961
(mesmo que isso seja esquecer o rasto de Tristão da Cunha, na Guiné (1446), de Diogo Cão, em Angola (1482) ou de Vasco da Gama, em Moçambique (1498). Só para falar nestes. Falta contar (est)as estórias, com mais de 450 anos…)
No entanto, voltando ao dia 4 de Fevereiro de 1961 (cerca de duzentos angolanos atacam a Casa de Reclusão Militar, a Cadeia, a esquadra da Polícia e a Emissora de Luanda; pretendem libertar dezenas de presos políticos. Morrem sete polícias e meia centena de assaltantes. Instala-se a caça ao homem -negro- pelos musseques; nos dias sequentes, mais de três mil negros são massacrados), o cadinho já fervilhava antes: a 6 de Janeiro, com a repressão dos trabalhadores de algodão, na Baixa do Cassange. Longe, em pleno oceano, a 22 do mesmo mês, Henrique Galvão dá início à sua Operação Dulcineia e abocanha o Santa Maria para o escarrapachar nas manchetes de todo o mundo.
No mesmo dia, nas Nações Unidas, requereu-se uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para apreciar os acontecimentos em Angola. O ministro português protesta, alegando direitos pátrios e soberanos.
(anos mais tarde, o general Kaúlza de Arriaga, disserta em ‘O problema estratégico português’ – vol.XII das Lições de Estratégia do Curso de Altos Comandos:
(…) Se caminharmos de norte para sul, parece que a latitude tem uma influência qualquer nas raças. Vemos que as raças, à medida que descem de latitude, vão adquirindo certas características que, em relação aos parâmetros da vida moderna, são inferiores. Vemos os nórdicos, capazes de uma opinião pública muita esclarecida; depois começamos nós, os latinos, já muito menos esclarecidos; depois passamos aos árabes, muito piores que nós, e acabamos nos pretos. Se em Angola ou Moçambique houvesse 20 ou 30 milhões de negros, o problema para nós seria extremamente grave, ainda bem que essas populações são tão reduzidas. Eu sei que isto resultou da exportação que se fez para o Brasil; se foi isso, ainda bem que se fez essa exportação
(…) Lição 3ª e 4ª, pág. 5, 15 e 16)

No dia 16 de Fevereiro termina a espectacular Operação Dulcineia, que encheu páginas e títulos por todo o lado. O Santa Maria chega ao Tejo (falaremos disso na próxima semana), Salazar rejubila, mas as relações de Portugal com os Estados Unidos e com o Brasil ficam azedas…
Foi no dia 23 que aconteceu a primeira (de muitas…) resoluções condenatórias da política colonial do governo português, emitida pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A 24 de Fevereiro o Decreto-Lei 43315 cria o classe de Fuzileiros Navais, em Portugal.
Quinze dias depois partem de Lisboa quatro companhias de Caçadores, para reforçar a guarnição de Angola. Foi o começo…
A revolução de Abril, 13 anos mais tarde, haveria de colocar o ponto final.
Mesmo que à custa de uma ‘descolonização exemplar’, no dizer gratuito e pascácio de um antigo presidente da República.
Pelo meio ficou uma história (ainda) por contar. Mas contam-se cerca de nove mil jovens, os que em Angola, na Guiné ou em Moçambique, perderam a vida.
Nunca houve guerra sem mortandade. O mal é da guerra!… e de mais ninguém!, diria o coronel Jaime Neves, à sombra do seu ensebado capote…

A verdade é que Portugal nunca teve um Império; mas muitos julgaram (e julgam) que ele ainda existe!