José Malhoa


Foi o maior cronista da rusticidade portuguesa. Retratou as gentes como nenhum outro pintor. As suas pinturas cheiram a madrugadas, à luz branca do amanhecer, ao perfume das flores e às melancolias do quebranto das tardes. Malhoa foi grande.
Do muito, que nunca seria tudo, quanto se poderia dizer sobre José Victal Branco Malhoa, nascido na cidade das Caldas da Rainha em 28 de Abril de 1855, deixo-vos apenas um apontamento curioso sobre uma das suas mais famosas obras: o Fado.
Naquele tempo, cantado em tascas de vielas sombrias, o fado ia traçando o seu próprio caminho à mistura e em torno dos destinos do povo. Nada havia mudado, desde que nascera com identidade, há mais de dois séculos atrás. Dir-se-ia mesmo que, por sina sua, enquanto existir uma desgraça por contar ou um amor perdido, o fado perdurará.
Foi neste berço e na Mouraria que Malhoa, o pintor fino, como o alcunhavam, encontrou o rufião, que viria a ser o expressivo modelo no Fado.
Chamava-se Amâncio o faia tocador de guitarra, que manejava a navalha como poucos. Com ele, e por ele, conheceu a Adelaide, a Adelaide da Facada, por causa de um traço largo e profundo que tinha do lado esquerdo do rosto (razão pela qual Malhoa escolheu a posição dos retratados). Foram seis vinténs por sessão que Amâncio e Adelaide aceitaram e acharam compensador. Dois anos de muitos estudos e de tantos pormenores: o leque, o manjerico, as bandarilhas ou até um espelho partido com uma chinela da Adelaide.
Há quem cinja a obra do Mestre a este quadro, tão grande foi a sua celebridade, criando-lhe por isso uma auréola de consagrado intérprete da fatalidade nacional. Que existe.
Mas Malhoa está bem longe, mas mesmo muito longe disso.