lé com lé, cré com cré

Um dos mais velhos axiomas, porém, ainda conhecido por alguns leitores. Será também daqueles que mais procuras e tentativas de explicação tem suscitado.
E muitas têm sido as teorias, especulações e mirabolâncias filológicas à sua volta. No entanto, é consensual o sentido da locução: cada um com seu par, ou de modo mais preciso, cada qual com seu igual.

Como chegar à explicação? Não me parece que seja muito difícil.
Comecemos por duas asserções que não suscitam dúvidas a ninguém: em tempos passados, o clero foi a classe social mais (ou única, se quisermos ser rigorosos) instruída; era no clero que se concentrava a quase totalidade de letrados em escrita, fosse ela religiosa ou profana. Se até aqui não temos qualquer dúvida, também assim continuamos se relembrarmos que, na escrita mais antiga da nossa língua, era frequente trocar-se indistintamente a letra ‘l’ pela letra ‘r’, tal como o contrário: escrevia-se carol por calor como arbelgue por albergue, rugal por lugar, ralga por larga. Tal como se escrevia créligo em vez de clérigo.
Nessa altura, em contrário ao clérigo, o leigo não tinha instrução, era ignorante, maninho (vulgarmente usamos um outro anexim quando dizemos ‘sou leigo nesse assunto’). Destas unânimes alegações é óbvia a conclusão: leigo com leigo, créligo com créligo. Dito isto, a abreviação, muito comum nesses tempos, será a aclaração do postulado… lé com lé, cré com cré.

 

 

 

(tanto faz já como agora)