leis sobre a crendice popular – I
(dois exemplos do séc.XIV e do séc. XVII)


A superstição e a crendice popular é inata ao Homem e a todas e quaisquer que sejam as suas formas sociais e, mesmo, evolucionais (tenha isto o significado que tiver). Como com todas as outras coisas da sociedade humana, também estas se foram modificando ao longo dos séculos, adaptando e acomodando às modas, às descobertas e, sobretudo, às necessidades (inconfessadas) que as gentes iam sentindo face às agruras, dúvidas e medos que, em cada ocasião, lhes iam atormentando o espírito.

Vem isto a propósito de vos trazer aqui parte de um documento, talvez dos mais antigos, que refere expressamente a crendeirice do povo: uma postura da Câmara de Lisboa de1385(1).

(…) os sobreditos estabelecem e ordenam, que daqui em diante nesta cidade, nem em seu termo, nenhuma pessoa não use, nem obre de feitiços, nem de chamar os diabos, nem de desencantações, nem obre de carantulas, nem de jeitos, nem de sonhos, nem de encantamentos, nem lance roda, nem lance sortes, nem obre de adivinhamentos, nem outro sim ponha nem meça cinta, nem escante olhado em ninguém, nem lance água por joeira (…)
(…) Outro sim estabelecem que daqui em diante nesta cidade e em seu termo não se cantem janeiras, nem maias, nem a outro nenhum mês do ano, nem se lance cal às portas sob título de Janeiro, nem se furtem águas, nem se lancem sortes. Porque o carpir e depenar sobre os finados é costume que descende dos gentios, e é uma espécie de idolatria, e é contra os mandamentos de Deus, ordenam e estabelecem os sobreditos que daqui em diante nesta cidade, nenhum homem ou mulher, não se carpa, nem depene, nem brade sobre algum finado, nem por ele, ainda que seja pai, mãe, filho ou filha, irmão ou irmã, marido ou mulher, nem por outra nenhuma pena, nem nojo, não tolhendo a qualquer que não traga seu dó, e chore se quiser (…)

(1)Infelizmente não se sabe o mês e o dia desta postura. Presume-se que seja próximo do final do ano; isto porque, nesse mesmo ano, a 6 de Abril, as Cortes de Coimbra aclamavam o Mestre de Aviz, como D. João I, rei de Portugal e, a 14 de Agosto, acontecia Aljubarrota.

Quase todas estas disposições respeitam a crenças muito vulgares na época e que, naturalmente, já não existem. Embora, curiosamente, as janeiras e as maias, mesmo que de modo alterado e adaptado, tenham subsistido até aos nossos dias.
(provavelmente ainda muita gente se lembra dos maios pequeninos passearem pelas ruas cobertas de flores, as rodas floridas nas portas ou, tão simplesmente, as flores das maias penduradas em portas, janelas e sacadas; as janeiras, essas, perduram, de variada e colorida forma, do Minho ao Algarve).

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