leis sobre a crendice popular – II
(dois exemplos do séc.XIV e do séc. XVII)


Ainda sobre a crendice e as fermenças do povo, das quais já trouxemos aqui um exemplo de 1385, registe-se também, quase trezentos anos depois, um outro alvará municipal de 15 de Outubro de 1654, no qual se dá licença a um soldado, que dizia ter o dom de curar com palavras, para continuar a fazer uso dessa maravilhosa habilidade, onde se ressalta a obrigatoriedade de empregar o seu préstimo em benefício dos militares que assim o necessitassem.
O tempo foi desmantelando e desmistificando estes abusos, e os feiticeiros e bruxas têm diminuído (ou, pelo menos, visto os seus créditos um tanto abalados), embora ainda subsistam, travestidos com variadas adjectivações, algumas bem pomposas…, graças à ignorância e, claro, à credibilidade das pessoas.
Será interessante, nesta curta resenha sobre o assunto, repararmos na distinção que, através dos tempos, se fazia entre feiticeiras, bruxas e, também, lobisomens.
O mister das feiticeiras era fazer malefícios a todo o género de pessoas, fosse qual fosse a sua idade, classe, origem ou situação. Pretendiam que em todas as suas funções, fosse assente e aceite que, ordinariamente, eram sempre acompanhadas e ajudadas pelo Diabo.
Por outro lado, as bruxas, essas tinham um poder mais limitado, estando apenas autorizadas e habilitadas para, durante a noite, chupar o sangue às crianças, matando-as pouco a pouco de inanição ou de repente se as chupassem desarrazoadamente.
Os lobisomens eram aqueles que tinham o fado ou a sina de se despirem de noite, no ermo de qualquer caminho, principalmente nas encruzilhadas, darem cinco voltas, espojando-se no chão onde o mesmo tivesse feito qualquer animal para, assim, se transformarem na figura do animal ali pré-espojado. Dizia o povo, no entanto, que esta pobre gente não faz mal a ninguém e só anda a cumprir a sua sina.
Acrescentava a sabença popular que quando passavam por algum caminho ou rua onde houvesse iluminação, iam soltando grandes assobios e dando muitos assopros para que as luzes se apagassem.
Mesmo os mais cépticos acreditam que, hoje, porventura, haverá por aí muita encruzilhada onde ainda possa aparecer algum lobisomem