lenço… de namorados

O lenço de namorados, hoje tão amplamente divulgado graças mais à voragem desenfreada de mercado do que propriamente à estafada globalização, sofreu naturalmente o efeito perverso destas (principalmente) duas características da sociedade actual. Na verdade o lenço de namorados que se vê comercializado é apenas uma grosseira e por vezes (muito!…) bacoca imitação dos genuínos lenços de namorados…
A origem destes lenços, típicos de todo o Minho, é intrínseca à própria região não havendo informação precisa anterior aos começos do século passado. Sabe-se, no entanto, que o lenço era bordado pelas moçoilas que, já nos alvores da adolescência, aprendiam a bordar para preparar desde cedo o enxoval para o seu casamento. Bordados em linho grosso, geralmente caseiro, eram enfeitados com fio colorido de algodão comum e perlé. Feitos quase sempre durante os tempos longos do pastoreio ou junto da lareira nos rigores do Inverno, a cachopa bordava o lenço que, as mais das vezes depois de uma qualquer missa e no adro da igreja, entregava ao seu escolhido como compromisso de amor. Por sua vez o rapazote passaria a trazê-lo bem à vista no bolso do casaco do seu fato domingueiro ou, não raras vezes, usá-lo-ia sempre enrolado à volta do pescoço…
Não cabe aqui uma exaustiva exposição (que bem mereciam!…) sobre os bordados minhotos, com especial realce para os de Viana do Castelo (especialmente as freguesias de Perre, Cardielos e Areosa), mas é de todo importante que se deixe claro não haver qualquer semelhança entre os lenços de Viana do Castelo e os de Vila Verde, afinal as origens dos mais carismáticos lenços de namorados. Os lenços de Viana do Castelo têm um bordado sempre simétrico, esteja em que posição estiver e quase sempre sóbrios no uso da cor e no desenho. Isso distingue-os relativamente aos de Vila Verde, que nada têm de simetrias. Por outro lado a mensagem de amor que a rapariga bordava, embora evidenciando a falta de cultura e, tantas vezes, a atabalhoada cópia por quem era analfabeto, não continham erros tão exagerados e idiotas como agora se vê nesses amorosos lencinhos, provavelmente feitos na China, encomendados por autênticos panfletários da idiotice e da estupidez…
(publicado em 14 de Fevereiro de 2007)

hade a nossa
amizade acabar
cando esta
pomba voar
e tancerto eu amarte
como o lenco branco ser
so deicharei de te amar
cuando o lenco a cor perder
(
transcrição das quadras do lenço aqui mostrado)

11 comentários sobre “lenço… de namorados

  1. Rosario Andrade 20 Fevereiro, 2007 / 15:52

    Parece que hoje em dia os lencinhos sao apenas mais um artigo de publicidade enganosa… simbolo das qualidades das moçoilas, se o rapaz nelas acreditar vai ser alimentado a comida de micro-ondas para o resto da vida! eheheheh
    Bjicos

  2. Fernando Andrade 15 Fevereiro, 2007 / 23:33

    Uma interessante lição sobre umas das mais bonitas tradições do Minho. Curioso que há poucos dias li no Semanário a sua crónica sobre o traje de Viana que também achei completissima.
    Percebe-se bem a sua dedicação a Viana e especialmente o modo perfeito e didático como desenvolve as suas crónicas. Parabéns.
    Cumprimentos da Beira-Baixa.

    Fernando

  3. Jardineira aprendiz 15 Fevereiro, 2007 / 19:57

    Que boa surpresa, agora são 2! (os blogues) Pois é, não tenho andado pela blogosfera, e tenho muita leitura para pôr em dia.
    Somos todos levados por esta onda gigantesca que nos leva o sabor autêntico da vida e o tempo de viver. Eu nem sabia da existência dos lenços, e apesar de me ter esquecido completamente que dia era (não liguei a tv!)a publicidade não me deixou esquecer que se aproximava aquela estrangeira festa, que serve para comprar mais umas inutilidadesitas. Pronto, já estou a maldizer, e vinha aqui só para cumprimentar!
    Até breve!

  4. bom dia isabel 14 Fevereiro, 2007 / 21:34

    Este teu regresso veio mesmo em boa hora.Precisava dos teus posts também. E de outros amigos que por aqui andam. De coisas da cultura, falas de cátedra, amigo da beira-mar e beira-rio. Vi um programa de televisão, hoje mesmo, sobre estes lenços. A tradição está a renascer e espero que o lenço seja feito de puro linho bordado pela hábil mão da cachopa. Olha que, às vezes, eles já tinham compromisso e não usavam o lenço. Muitas lágrimas engrossaram os teus/nossos rios.
    Daqui, deixo-te um beijinho pintado com as cores da intuição feminina.

  5. Ana Ramon 14 Fevereiro, 2007 / 19:37

    Mas que bela surpresa este blog… Eu sou dum tempo pré-histórico em que haviam escolas técnicas, com cursos comerciais e industriais. O curso industrial para as meninas chamava-se Formação Feminina e eu escolhi-o porque tinha desenho e um português que eu gostava e nada tinha a ver com cartas comerciais. Ora nesse curso também havia uma grande chatice que eram as aulas de bordados regionais. Aprendi a fazer os desenhos e depois a bordar conforme o costume de cada região: Caldas, Castelo branco, Arraiolos, Viana do castelo, S. Miguel… Não aprendi a bordar esses lencinhos dos quais ignorava a existência (aliás detestava as aulas de bordados) e ao ler-te fiquei com pena. Lembro-me que os bordados de Viana usavam muito os corações quadriculados no interior e normalmente usavam as cores vermelho e azul. Foi um prazer enorme conhecer-te aqui :))
    Um beijinho

  6. redonda 14 Fevereiro, 2007 / 17:12

    Há muito tempo atrás ainda tentei aprender a bordar, mas sem grande sucesso. Seria um problema se tivesse de andar a bordar os lenços…

  7. Elipse 14 Fevereiro, 2007 / 16:16

    longe vai o tempo do engenho.
    agora compra-se tudo ali ao lado… à pressa, porque é preciso “dar”!!!
    o que é que sobra? a “memória” escrita.

  8. marta 14 Fevereiro, 2007 / 13:22

    Completamente de acordo contigo.
    O meu ex sogro ainda tinha um oferecido pela mulher.
    Era um espectáculo.
    Mas tinha outros símbolos. Lembro-me muito bem dos corações das chaves e duma andorinha, lindíssima.

  9. psique 14 Fevereiro, 2007 / 12:28

    um muito obrigada…
    tenho uns oferecidos pela bisavo.

  10. greentea 14 Fevereiro, 2007 / 10:56

    acho lindos este s lenços!… e a sua história, mostra da conduta de tempos que já lá vão …
    um abraço

  11. margarida 14 Fevereiro, 2007 / 10:02

    Bem me parecia que não podia faltar…
    Só fiquei um nada inquieta. Eu, que sou exímia bordadeira 🙂 (passe a imodéstia) dei-me ao trabalho de bordar um que me deu um trabalhão para oferecer à minha nora, que desejava muito ter um. Pelos vistos, agora depois de te ler, concluo que devia ser “bacoco”.
    Mas tirei o desenho de uma fotografia num livro sobre artesanato português publicado por alguma intituição (não me lembro qual) ligada ao turismo!!!

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