mãos de anéis


Mãos de anéis, sabe o que significa? Não, não são mãos com dedos atravancados de anéis! Ao que parece é a formulação originária de uma outra bem mais generalizada nos dias de hoje: mãos de fada.
Uma ou outra expressão tem sentido igual: serve para designar mãos, geralmente femininas, que referenciamos à habilidade, à perfeição e à delicadeza com que certos trabalhos são executados.

Bem se vê que foi feito por mãos de anéis, dizia-se. Ainda hoje se ouve, em alguns lugares, no Minho ou em Trás-os-Montes. Dito que pretendia, assim, significar uma homenagem à mulher e, até, de alguma forma, reconhecer-lhe a superioridade em tudo que dissesse respeito a trabalhos delicados, que exigissem subtileza de mãos.
A propósito, encontrámos na Descripção do Porto, do séc. XVIII, a referência a duas irmãs, Maria Josepha e Thomazia Luiza Angelica, filhas de Ignacio da Silva, senhor escrivão do Juízo de Malta, da freguesia de Santo Ildefonso, as quais formavam de cera tudo quanto pode idear a imaginação ou copiar a arte, cousa apennas de jeito para mãos de anneis.
Em cera, imprimiam retratos perfeitíssimos, figuras de plantas, flores, anjos ou frutos, realçando tudo com belas cores e tão naturais, que enganavam os olhos, tomando por natural fosse uma rosa, uma orquídea ou uma laranja. O mimo e a delicadeza das suas obras, refere o autor desta Descripção, mereceram os elogios de pessoas reais e de todos os outros que sabiam avaliar tão raras perfeições.
Na Gazeta de Lisboa, em 1819, foi publicada uma notícia sobre D. Maria Thereza da Conceição Borges, que morava em Belém e que tinha então 66 anos de idade. Acabava a senhora, nessa altura em que foi publicada a notícia, de bordar primorosamente em ponto de retrós, sem nunca ter aprendido desenho, uma grande estampa da Ceia do Senhor, copiada de uma gravura do célebre quadro de Leonardo da Vinci.
A dificuldade de retratar tantas figuras com a agulha, acrescenta a Gazeta, o bem proporcionado desenho, a delicadeza das cores, o claro-escuro, a luz, e até a imitação das madeiras que fingem estar o painel encaixilhado, tudo isto mostra os grandes talentos da autora, que também já fez da mesma forma os retratos de Suas Majestades. Os artistas têm-lhe tributado admiração e elogios, considerando-a uma fada que materializa os seus prodígios pelas pontas dos seus dedos de anéis, termina a notícia.
Sejam dedos, mãos de anéis ou mãos de fada, são-no porque, por elas, a arte não reproduz o que é visível; torna-o visível.

 

 

 

(mãos que não dais, porque esperais?)