máscaras

 


Nos primeiros dias deste ano, os jornais de Angola (mais uma vez) apincharam indiscriminadamente cobras e lagartos sobre a imprensa em Portugal. Não é assunto sobre as razões, ou a falta delas, que aqui trago a terreiro. O Jornal de Angola, primus (unicus) inter pares, é a voz do governo, do presidente, no todo a voz do MPLA. Que, sem peias nem meias, desde Novembro de 1975, se arvora como o instrumento libertador de Angola do jugo colonialista português. E, na prática, assim tem sido aceite, como facto histórico, ao longo destes quarenta anos. Mas não é
A História não se escreve como (mais) dá jeito. E, por ironia, nestas páginas africanas, a ironia acaba por ter um protagonismo curioso…
Na madrugada de 4 de Fevereiro de 1961, cerca de duas centenas de activistas, armados de catanas e uns poucos canhangulos, tentaram tomar de assalto instalações militares, em Luanda. Os ataques correram mal e acabaram por desencadear uma indistinta e sanhosa repressão, por parte das autoridades e dos colonos, sobre os musseques (bairros populares da periferia da cidade). Mas, de qualquer forma, o mundo inteiro ficou alertado para a situação que se vivia em Angola (exactamente um mês depois do Massacre da Baixa de Cassenge, onde foram chacinados trabalhadores; um número controverso que vai das várias centenas aos milhares). Por ‘coincidência’, naquela altura encontravam-se muitos jornalistas estrangeiros em Luanda, atraídos pelo interesse jornalístico do assalto ao barco Santa Maria (22 de Janeiro), perpetrado por um comando ibérico liderado por Henrique Galvão, que estava planeado ser desviado para Luanda.
Até aqui a História está escrita, embora a punho (muito) omisso, balbuciante e rudimentar. Mas há o que ainda não tem o cadinho da História e permanece na fimbria de um conveniente esquecimento:
Se no caso da revolta de Cassenge, facilmente se percebe a espontânea adesão à retaliação por parte dos trabalhadores, apoiados, sim, por um reduzidos número de nacionalistas independentistas, mas descoordenados e, por isso, rapidamente reprimidos, o ataque de 4 de Fevereiro à Casa de Reclusão, à prisão da PIDE, à sede dos Correios e ao edifício da Emissora, esses, foram planeados e executados por um forte quinhão humano  e de armas afectos à UPA (União dos Povos de Angola), baseada no ex-Congo Belga, liderada por Holden Roberto que tinha o apoio americano, expresso, até, pessoalmente por John Kennedy. De tal modo que, a partir de 15 de Março, a UPA desencadearia violentos ataques, a partir Matadi, no já denominado Congo-Brazaville, sobre dezenas de fazendas, no norte angolano. A 4 de Março, o embaixador americano em Lisboa, Burke Elbrick, informou o ministro da Defesa português, general Botelho Moniz, da decisão da UPA iniciar os ataques em Angola; Botelho Moniz disse a Salazar, que fez ouvidos de mouco e o mandou embora. Fotografias dos massacres contínuos, por toda a região norte angolana, rapidamente se espalharam por todo o mundo. Holden Roberto, que tinha todos os trunfos para liderar o processo independentista, ele, nascido de um dos povos dos Dembos foi um dembo demo (que são géniozinhos que tanto podem ser do Bem como do Mal). A 20 de Março estava em Nova Iorque (de onde não saía há anos), viu as imagens das matanças e, mais tarde, acabaria por dizer ‘vi homens esquartejados, crianças retalhadas e mulheres violadas. Eu estava no meio de brancos e não tive coragem de reivindicar a acção’. De facto. Mas a 17 de Março, os dirigentes do pró-soviético MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, fundado em 1956, por Agostinho Neto) na sua maioria estudantes e intelectuais, exilados na Guiné-Conakri, já afastados dos ideais do fundador, perceberam a oportunidade e correram a apregoar aos ventos, como seus, os ataques executados. Mário de Andrade, Viriato da Cruz e Lúcio Lara apostaram tudo nessa forma praticamente oferecida para que o seu movimento adquirisse visibilidade e notoriedade, sem que para tal tivessem pegado numa simples fisga. E colou. Mesmo que, pelo meio, os apoucados elementos da UNITA e FNLA, ora pró-China ou arregimentados de pacote do Tio Sam, fizessem número, sem incómodo de maior (as lutas intestinas viriam depois…) o MPLA passou, oficialmente, a precursor da luta armada pela independência da Angola, o que, hoje, parece não oferecer dúvidas.
Mas não foi assim que se fez, nem será assim que se escreverá a História. A História é, será sempre, testemunha dos tempos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira do passado, como escreveu Cícero.
Sobre o assunto, ainda volto com o Commonwealth Plan…