Menino Jesus da Cartolinha


Encravada na raia e à distância da lonjura, antiga e fustigada pelo tempo e pela cobiça, acantonada e defendida, sacrificada e abandonada; valha que, agora, sem fronteira e com a desenvoltura que lhe trouxe a estrada e a míngua que lhe sobra da barragem, a verdade é que Miranda do Douro sempre tomou a pulso a defesa e a preservação da sua identidade…

Coração arriba, arriba.
Lá p’ras terras de Miranda!
Bamos a comer canhona
E caldo com bianda.

Teve carta de foral outorgada pelo primeiro rei, em 1136. Outros reis, D. Afonso II, D. Dinis, D. João I e D. Manuel lhe deram novas concessões. D. João III, levou-lhe a bula pontifícia Pro Excellente Apostolicae, elevando-a a cidade com o privilégio de mandar procuradores às cortes. Em 1545.
Mais tarde, nas convulsões da chamada Guerra dos Sete Anos, a sede da diocese é transferida para Bragança. Daí nasceram rivalidades, alguns azedumes, que a memória guarda em alguns ditos populares. Enquanto Miranda diz a sacristia está em Bragança, mas a Sé esta em Miranda, logo Bragança responde se fores a Miranda, vê a Sé e desanda.
Por falar na Sé de Miranda do Douro…
Mais ou menos pela metade o século XVII, mal refeita de uma mão cheia de velhas refregas, Miranda vivia acossada pelo assédio da vizinhança, coisa, aliás, a que não era estranha desde os tempos em que o velho rei Afonso dela tinha tomado posse. Os tempos iam de fome, cansaço e desalento a tolher as forças e a garra às gentes da cidade. Um dia, então, sabe-se lá de onde, um rapazito, de espada em punho, salta a gritar na praça, espevitando os mirandeses contra a sanha dos invasores. E, conta-se, a contenda foi tal que os salteadores fugiram a bom fugir e só deviam ter parado bem para lá da outra margem do Douro. Ficaram gratos os vencedores, mas em vão procuraram o menino, a quem queriam agradecer o ter-lhes devolvido a coragem. Mas ninguém mais viu rapazinho da espada. E foi assim que surgiu o milagre: quem outro pudera ser se não o Menino Jesus? Dito e feito: faz-se uma imagem de menino, coloca-se uma condecoração ao peito e, à cinta, uma espada de prata.
E lá está ele, hoje, na Sé de Miranda do Douro, no seu altar, pequenito, com sempre aprimorada vestimenta (uma do seu vasto guarda-roupa, mesmo que a variedade não seja assim tão grande), onde não lhe falta a farda de general e a sua espada, que assim se aprontou, no vestir e no fervor das gentes, para a Guerra da Restauração. E, no alto da sua cabecita, a tal cartola que, afinal, lhe deu o nome e a importância: o Menino Jesus da Cartolinha.

Manhana, die 17 de Setembre, an Miranda de l Douro, onze anhos depuis de l reconhecimiento de l Mirandés, comemora-se pula purmeira beç, l Die de la Léngua Mirandesa.
(mirandês central ó raiano)
Amanhã, dia 17 de Setembro, em Miranda do Douro, onze anos depois do reconhecimento do Mirandês, comemora-se pela primeira vez, o Dia da Língua Mirandesa.
(português)