mequetrefe

A propósito deste vocábulo da língua portuguesa, que os dicionários remetem para uma origem obscura, escrevia Bluteau (inícios dos século XVIII):
Assim como em comunidade e em casas grandes se introduzem pessoas de fora e sem ofício nem préstimo conhecido, mas que a gente da casa ou da comunidade variamente ocupa, em recados ou ministérios, segundo a precisa e particular necessidade; assim nos idiomas se insinuam as palavras, de que ninguém conhece a origem, e por se não saber bem o valor delas, cada um as aplica a seu modo, sem própria e determinada significação. Do número delas, é esta dicção mequetrefe, que cada um acomoda como lhe parece. Para uns quer dizer destro e sabido, para outros vale o mesmo que intrometido.
A um certo erudito nobre português ouvi, porém, dar outro significado mui diferente. Contava ele que perto de Madrid, no palácio real Buen Retiro, andava um homem a olhar para todos os quadros, e com diferentes gestos ia mostrando desprezo por cada um deles, até que uns palacianos que o seguiam, observando as suas acções, lhe perguntaram se era pintor, ao que respondeu negativamente; instando eles, então, qual era o seu ofício, disse ele que era mequetrefe; e replicando-lhe que ofício era esse de mequetrefe, respondeu ele que era ver tudo, dizer mal de tudo, e não fazer coisa alguma.
Em toda a parte, na verdade, floresce este ofício.
Pois, se Bluteau acrescentou razão à erudição, também não é difícil constatar que a raça dos mequetrefes tem aumentado prodigiosamente.

 

 

 

(ei-lo vai, ei-lo vem, de Lisboa a Santarém)