moita-carrasco ou moita-calado?…

Por causa de uma historieta que escrevi sobre a mercearia do senhor Evaristo(*), algumas pessoas colocaram-me a dúvida: afinal é moita-carrasco ou… moita-calado?
Ambas, ambas!…
A mais antiga é, sem dúvida, a expressão moita-carrasco. Moita, segundo os dicionários, significa conjunto espesso de plantas arborescentes, maciço de arbustos, toiça, mata cerrada. Ora teria sido esta figuração de impenetrabilidade que, há uns séculos atrás, deve ter servido para exemplificar o mutismo a que os carrascos estavam obrigados (há especialistas que explicam esse silêncio como necessário de forma a evitar que alguém pudesse descobrir quem estava debaixo da máscara que os carrascos usavam durante as execuções). Daí que se tenha criado a interjeição moita-carrasco que, do uso, passou a significar silêncio absoluto e, por extensão, teimosia em não falar. Deste dito popular sairia, durante a Segunda Guerra Mundial, a derivação para o moita-calado, como vamos ver.
Nesse tempo, em Portugal, assistiu-se a um fenómeno aparentemente estranho: se por um lado o povo, sujeito às pressões do Estado Novo que o pretendia manter pobre e ignorante, viu as suas condições agravadas pelas inevitáveis consequências da guerra, por outro lado verificou-se um nicho de elevado surto de expansão económica graças à exportação de algumas matérias-primas, especialmente o volfrâmio, facilmente explorado e ainda mais desembaraçadamente transaccionado fora dos circuitos legais do comércio. A descoberta de locais de exploração era, por razões óbvias, o maior dos maiores segredos. Importava era, por isso, estar… calado!
Havia quem pagasse boas maquias por courelas que mal davam um alqueire de milho!… Claro que, depois, os lucros do volfrâmio faziam nascer instintos malvados ao pobre ludibriado. E que histórias isso deu!…
Bom, mas a propósito do repentino e inusitado novo-riquismo de uns tantos bilontras, Abreu e Sousa, em 1945, escreveu um livro que se tornou muito popular na altura. Descrevia a figura do volframista como um burgesso de pele queimada pelos sóis da apanha, bigode farfalhudo e hirsuto, gravata de bolinhas com um berloque de pedrarias escarrapachado a meio, a acender havanos com notas de mil, passear-se pela Brasileira e mostrando no bolso superior da casaca as tampas de três canetas e de duas lapiseiras Pelikan, que nunca usou, claro.
E grandes, cada um maior do que outro, foram os escarcéus pela cidade! Se foram!…
Assim, o silêncio a que alude a expressão moita-carrasco deu o mote ao livro que referi e, do êxito dele surgiu uma pilhéria com diferente sentido…
É que ali, o silêncio era alma do negócio; por isso… moita-calado!

(*) – Porque a memória dessa fascinante mercearia que existiu na esquina do Largo de S. Domingos com a Rua Manuel Espregueira, em Viana do Castelo, me parece ajustada a este (duplo) axioma, permito-me à transcrição da narrativa que refiro.
Então cá vai… O Senhor Evaristo:
Lá para o fundo da rua onde eu morei, na esquina que desembocava no Largo de S. Domingos, havia uma mercearia. Ampla, com fartas portadas para a rua e para o largo, não raras vezes todo aquele cenário repleto de formas e cheiros tomava ares fantasiosos com aquela poalha dourada que se lhe derramava portas adentro aos fins de tarde, especialmente no Outono, quando o sol se ia esvaindo abraçado nos contornos da matriz, no lado fronteiro do largo…
O senhor Evaristo, pessoa chegada à minha família, era provavelmente a figura mais conhecida dos quarteirões em redor: antes de os sinos tocarem as matinas já ele, calma e metodicamente, baixava as portadas, abria as portas e dava umas quantas aligeiradas varridelas nas soleiras, apagando quaisquer vestígios de noctívago animal menos asseado. Nessa altura já ele vinha fardado do interior da mercearia: casaco ou samarra, conforme o tempo aconselhasse, ficavam pendurados lá nos fundos, e por lá vestia a sua inseparável bata de sarja cinzenta, com os óculos de aros finos a escorregar no nariz, alguns lápis e canetas a sair do bolso esquerdo, onde sempre pontificava uma manchita de caneta mal vedada. Às vezes, depois destes indispensáveis preliminares, ficava alguns minutos encostado ao umbral de uma das portas, a ler um jornal antigo, uma carta da província ou uns livritos pequenos e velhos que nunca percebi onde os guardava.
O dia, na mercearia do senhor Evaristo, era um dia igual ao de qualquer mercearia daquele tempo: vendia de tudo, desde o sabão em barra, azul ou amarelo consoante fosse para a roupa ou para o chão, grão, feijão ou arroz, que tirava com um cone metálico de umas grandes gavetas de madeira, que abriam inclinando-se, embutidas nos baixos de robustos armários que iam do chão ao tecto; também havia polvo ou sardinhas salgadas, em barricas expostas na parte da frente do comprido e espesso balcão onde sobressaía uma pesada guilhotina para cortar o bacalhau em postas, de acordo com a vontade das freguesas.
Mata moscas, lixívia, fogareiros a petróleo, fósforos, escovas e vassouras de piaçaba, e mais uma enorme catrefada de coisas que hoje já não existem. Numa das prateleiras, ao lado do Santantoninho, a telefonia ia dando notícias ou música dos estúdios da Emissora Nacional, enquanto, pelo meio de toda a azáfama comercial, o senhor Evaristo sempre tinha a lábia certa para a conversa mais adequada a cada situação ou a cada freguês.
Sabia a vidinha de toda a gente e, por isso, não lhe era difícil saltar das maleitas da D. Dorinda para os filhos da Senhora Miquinhas que estavam no Brasil, falar dos pinheiros que o senhor João vendera para a serração ou, até, em ocasião de pouca freguesia, a brejeirice certa dita despercebidamente a qualquer sopeira mais jeitosa de forma a pôr-lhe o rosto da cor dos pimentões, rematada com risinhos de galinha choca.
Assisti a muitas dessas conversas, quando lá ia trocar cinco tostões por rebuçados Victória (com ‘c’, sim senhor!…) na mira de achar o bacalhau ou o cabrito, que eram os ruins da caderneta…
Mas, voltando às conversas do senhor Evaristo, elas tinham sempre, invariavelmente, um ponto comum: nunca falava de qualquer assunto que cheirasse, ao de leve que fosse, a política! Quando alguém levava a língua para esses ínvios caminhos, aí o senhor Evaristo afivelava uma cara de voto secreto, arregalava os olhos, fechava a boca num franzido de lábios e, delicada e suavemente, erguia a mão direita, juntava o indicador com o polegar – distendendo firmes e abertos os outros dedos – passava-os lentamente, da esquerda para a direita, a todo o comprimento dos lábios cerrados que, depois do gesto concluído, se abriam o suficiente para o senhor Evaristo dizer, quase sussurrando, com uma voz a atirar para o misterioso: moita-calado!…

in CONTOS DE RÉIS

 

 

 

 

(olho viu, boca piu)

8 comentários sobre “moita-carrasco ou moita-calado?…

  1. Gi 21 Outubro, 2007 / 18:32

    Também só conhecia o moita-carrasco. Quando li o moita-calado no Pessanga, pensei aqui para com os meus botões que afinal andava enganada faz tempo 🙂 afinal não. Obrigada pelo esclarecimento.
    Um beijinho

  2. rendadebilros 21 Outubro, 2007 / 16:13

    Aprende-se, recorda-se… uma história em cada palavra ou expressão… histórias deliciosas… a falr em bom português.
    Um abraço.

  3. Dulce 18 Outubro, 2007 / 16:34

    Já me tinha esquecido como este teu cantinho é “gostoso”! Estive a ler os teus últimos posts e descobri algumas coisas que ignorava: como esta explicação de moita-carrasco!
    Um abraço

  4. Entre linhas... 18 Outubro, 2007 / 11:45

    só conhecia a versão do moita-carrasco,obrigada pela informação,um verdadeiro detalhe.
    Bjs Zita

  5. Ana Paula 18 Outubro, 2007 / 07:51

    Só conhecia a origem do moita-carrasco. Embora conheça desde sempre a expressão do moita-calado, não sabia donde vinha, nem que estava ligada ao volfrâmio.
    Também conheço a expressão moita-galego, embora não saiba a exacta origem.
    Gostei imenso!!! Dá para aprender… E isso é muito positivo! 🙂

  6. Justine 17 Outubro, 2007 / 09:23

    Obrigada pela informação, completa e bem ilustrada.
    E toca a aprender!
    abraço

  7. APC 16 Outubro, 2007 / 22:35

    Now I know! 🙂
    E tenho a agradecer! :-)))
    Um abraço.

  8. Jasmim 16 Outubro, 2007 / 20:48

    interessante só conhecia mesmo o Moita-carrasco…

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