no dia 1 de Novembro, há 253 anos…

Encontrei-o entre uma estatueta de marfim e uns calhamaços cheios de dobras e letras douradas. Era um pequeno livreco entreaberto, em cuja capa se podia ler The Gentleman’s Magazine for Decembrer 1755. Sem regatear vi-me com ele na rua, a caminho de casa, certo de que iria ler algo de inusitado: relatos, feitos na primeira pessoa, do terramoto de Lisboa (referências XX a XXIII). E assim era: o pequeno opúsculo continha várias cartas, escritas por súbditos ingleses, residentes em vários pontos de Portugal e que, de uma forma ou de outra, protagonizaram um pouco (ou muito…) do que se passou em Portugal naquele fatídico dia 1 de Novembro de 1755… (1)

Carta enviada por um comerciante inglês, residente em Lisboa, para um seu irmão, em Londres:

Lisboa, 19 de Novembro de 1755
Querido irmão:
(…) no sábado, 1º do corrente, cerca das nove e meia, tinha-me retirado para o meu quarto depois do almoço quando a casa começou a abalar (…) o céu fizera-se mais escuro que a mais escura das noites que eu jamais vira (…) o ar ficou irrespirável devido às nuvens de poeira causadas pelo desabamento das casas que caíam por todo o lado (…) este horrível tremor de terra provocara uma tal influência no mar e no rio, que a água subiu em dez minutos muitas jardas perpendicularmente (…) seges, liteiras e mulas despedaçadas em bocados e como nesse dia havia grandes festas nas igrejas, havia milhares de pessoas ali reunidas, a maior parte das quais pereceu porque os grandes edifícios, particularmente os que eram construídos em alguma eminência, desabaram escapando muito poucas igrejas e conventos (…) a cidade estava em chamas em várias partes e ao mesmo tempo (…) o fogo assim continuou com grande violência durante mais de oito dias (…) o palácio do Rei ficou todo desfeito e os armazéns do tabaco e outras especiarias tiveram a mesma sorte (…) os abalos têm continuado até hoje e no domingo passado às três da tarde sentiu-se outro abalo que fez tremer o navio onde estou refugiado (…) Soube-se que Faro ficou debaixo de água e que Setúbal teve a mesma sorte e todo o reino sofre muitos prejuízos (…)

Sir Abraham Castres, enviado de S.M. britânica à Corte de Portugal e residente em Lisboa, escreve ao seu primeiro-ministro, em Londres:

Lisboa, 6 de Novembro de 1755
Senhor:
(…) presentemente tenho comigo o ministro da Holanda, sua esposa e três crianças que não sabemos quem são, mais sete ou oito serventes. A maioria da colónia inglesa está acampada nos meus jardins tendo quase todos perdido os seus haveres e muitos familiares (…) somente ontem tive a honra de ser recebido pelo rei de Portugal e toda a Família Real em Belém, onde estão acampados, porque nenhum dos seus palácios reais está em estado de os poder alojar (…) como tenho em meu poder elevada soma de dinheiro pertencente a vários compatriotas e tendo notado que a noite passada a casa foi cercada por elevado número de malfeitores, apressei-me esta manhã a escrever ao senhor de Carvalho a fim de que providencie guarda para nossa segurança (…) têm sido presos e executados vários malfeitores, a maioria deles estrangeiros, e para nosso pesar, entre outras nações, alguns marinheiros ingleses, por roubarem e saquearem no palácio e na capela do rei uma grande quantidade de pratas preciosas (…) Um desertor francês confessou, antes de ser enforcado, que havia lançado fogo à Casa da Índia, que ficava anexa ao palácio real (…) ontem dei uma volta pela cidade e não vi vestígios de ruas, travessas e praças. Tudo são montes de entulho e ruínas ainda fumegantes (…) Suas Majestades continuam acampadas em Belém e todos os habitantes sobreviventes estão amontoados em pequenas tendas nos montes altos da cidade (…) cerca das quatro horas e meia da tarde houve outro choque tendo toda a gente começado a correr, gritando, enquanto outros se quedaram de joelhos implorando misericórdia do céu (…)

Carta de um capitão de um das naus inglesas, fundeadas no Tejo:

Lisboa, 19 de Novembro de 1755
Senhor:
(…) senti o navio estremecer de um maneira tão extraordinária que apesar de estar certo da profundidade do rio cheguei a pensar que tinha encalhado (…) ao olhar para os lados da cidade vi os prédios mais altos racharem e desmoronarem-se com grandes estampidos, particularmente naquela parte da cidade desde S. Paulo em linha recta até ao Bairro Alto, assim como parte desde a dita igreja ao longo da margem do rio para leste até às forcas e assim em linha curva outra vez em direcção a norte até S. José e o Rossio, partes estas que foram arrasadas com três abalos seguidos (…) o povo corria e gritava chamando os navios em seu socorro (…) os navios que estavam perto de terra e que na vazante vulgar costumavam ficar em seco, viram-se a flutuar de um instante para o outro e logo a seguir já estavam atirados para seco outra vez e logo depois levados a flutuar e atirados uns contra os outros (…) a maré subia e descia com tal violência para leste e para oeste que os navios andavam à roda e ao contrário uns dos outros (…) o castelo do Bugio ficou coberto de água e todo o rio ficou cheio de botes, esquifes, madeiras, mastros, mercadorias, peças de mobília, mortos, muitos e muitos (…) como os abalos são frequentes o povo vai construindo casas de madeira nos campos, mas o rei ordenou que não sejam construídas casa para o lado oeste das portas de Alcântara (…)

Carta enviada do Porto, por um súbdito inglês estabelecido em Vila Nova de Gaia:

Porto, 4 de Novembro de 1755
(…) começou cerca de 20 minutos antes das dez da manhã e durou bem mais do que um quarto de hora (…) toda a gente saiu para a rua na maior confusão esperando a cada minuto que a terra abrisse (…) já sentimos mais três abalos, um ao meio-dia de ontem outro às Seia da noite e outro há cerca de uma hora (…) causou bastantes prejuízos rachando de alto a baixo várias igrejas e desmoronou-se uma das torres da igreja dos Congregados (…) o efeito produzido no rio foi tão extraordinário e tão repentinamente violento que a maré num minuto ou dois subiu e desceu cinco ou seis pés e foi assim durante duas ou três horas (…) a agitação do mar foi tão grande, cerca de uma légua da barra, que o ar, cheio de espuma, chegou ali a ser como que assoprado com tamanha violência que muitos navios se despedaçaram uns contra os outros (…)

(1) Naturalmente que, aqui, neste espaço e neste contexto não cabem, por extenso, todas as descrições e todas as cartas; apenas estes curtos exemplos do que foi testemunhado nesse terrível colapso natural ocorrido em 1755. Embora sejam várias as referências históricas ao facto, parece-nos, no entanto, este ser um dos raros documentos que narra a catástrofe pela escrita dos seus próprios protagonistas.

(crónica publicada na integra em Cadernos de História,
Novembro de 1981, pelas Publicações Projornal Lda.)

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9 comentários sobre “no dia 1 de Novembro, há 253 anos…

  1. jawaa 5 Novembro, 2008 / 10:33

    Uma vénia – mais uma – pelo excelente post aqui publicado.
    Obrigada por partilhares connosco o teu gosto pela pesquisa de tudo o que nos diz tanto!

  2. Luís Maia 3 Novembro, 2008 / 22:51

    Meu caro
    São realmente interessantes esses documentos.
    Peço-lhe autorização, para lincar este post no meu blog sobre o tempo do reinado de D.José I.
    Um abraço

  3. cristal 30 Outubro, 2008 / 19:24

    Muito obrigada pela partilha de conhecimento que sempre me faz sair daqui com um pouco mais de vontade de… voltar.

  4. mdsol 30 Outubro, 2008 / 12:27

    Verdadeiras coisas do arco da velha

    :)))

  5. Rosa dos Ventos 28 Outubro, 2008 / 11:24

    Este documento é de facto uma preciosidade que nos traz arrepios pelo realismo das narrativas!

    Abraço

  6. APC 28 Outubro, 2008 / 01:28

    Belo achado (vosmecê tem faro, tem olho, tem tacto); e bela tradução!
    Estas relíquias perdem-se por aí, e tu, prescrutador das histórias da História, persegues caminhos, reabres memórias, partilhas tão bem!…

    🙂

  7. Justine 27 Outubro, 2008 / 18:31

    Que relatos impressionantes, TP. E que achado, esse livro:))
    E obrigado por estares a partilhá-lo …

  8. J. Brandão 27 Outubro, 2008 / 18:06

    Fiquei espantado, meu caro! Isto não são coisas do Arco da Velha, são verdadeiras preciosidades. Acho que deve pensar em passar tudo isto para um livro!

    Brandão

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