o Dia da Espiga

O Dia da Espiga, que este ano calhou no passado dia 1, celebra-se sempre na quinta-feira de Ascensão, cerca de quarenta dias após as festividades da Páscoa, dia do calendário católico que comemora a ascensão de Jesus Cristo ao Céu, depois de, pela última vez, ter aparecido aos seus discípulos no Monte das Oliveiras. Como outras celebrações religiosas, esta também mistura (ou resulta…) de um outro culto pagão ligado às colheitas. Daí o Dia da Espiga, com todas as suas ancestrais caracterizações, centralizadas no ramo em que a espiga de trigo era o elemento mais simbólico…
Na primeira metade do século passado, em Lisboa, no dia da Espiga…

Quinta-feira de Ascensão
o povo não cabe em casa:
-cada papoila é uma brasa
na sua imaginação.

Uma brasa que lobriga,
por entre a clara promessa:
de pão, que já se começa
a prever em cada espiga.

Lisboa não foge à regra
porque dias não são dias:
-tem as suas economias,
e mal faz quem não se alegra!

E porque nobreza obriga
e a tradição não perdoa,
-Lisboa sai de Lisboa
chegado o Dia da Espiga!

Acostumada, com zelo,
a bem cumprir seu papel,
mete em cestos o farnel
e corre ao campo, a comê-lo.

Vai tudo de cambulhada
na caravana bizarra:
-vai a família, a guitarra,
a viola, o cão, a criada…

No eléctrico, no vapor,
no comboio –toda aquela
Boa gente se atropela,
buscando o lugar melhor!

Conversa-se em alta voz
e há cestos, em confusão,
pelos bancos, pelo chão
e até por cima de nós!…

Mas não se ouve protestar:
– Não há ninguém que reaja,
porque Lisboa viaja
disposta a rir e folgar!

Por fim na relva tenrinha,
estendem-se brancas toalhas;
e surgem as vitualhas,
que cada cesto continha.

Que bom!… ‘peixinhos da horta’,
pataniscas com salada,
azeitonas, carne assada,
‘bolos de areia’, uma torta!

No garrafão, atestado,
já quase não há vinho…
Geme a guitarra, baixinho,
silêncio: – canta-se o fado!

E depois dorme-se a sesta,
e depois o sonho ocorre,
e depois a tarde morre,
e depois… acaba-se a festa!

A debandada é geral…
Mas ninguém de ali avança,
sem trazer, como lembrança,
o ramo tradicional!
(anónimo)

O ramo do Dia da Espiga era tradicionalmente composto por uma espiga de trigo, um malmequer, uma papoila, um ramo de oliveira, uma ranca de parreira e um pé de alecrim. Cada um desses adereços do ramo exprimia um voto: a espiga, para que nunca faltasse pão no lar, o ramo de oliveira a paz que todos desejavam para si e para os seus mais queridos e, também, para que a luz (simbolizada no azeite) iluminasse os difíceis caminhos da Vida, as flores que trouxessem alegria, além das simbologias do malmequer (ouro e prata), a papoila (amor e vida) e o alecrim (saúde e força).
Nos dias hoje tanto desejo junto seria uma… espiga!
 

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9 comentários sobre “o Dia da Espiga

  1. Ana Paula 11 Maio, 2008 / 01:22

    LOL! 🙂
    De todo o modo, sinto uma certa nostalgia por hoje já não se fazerem festas como esta do Dia da Espiga de outrora…

  2. jawaa 9 Maio, 2008 / 08:06

    APC, o milho roxo é o milho-rei; ao que sei… dava direito a beijos e abraços nas desfolhadas.
    Ainda me recordo, há mais de 30 anos, de irmos, professores e alunos do secundário, de todas as idades, passar a tarde do dia da espiga à Serra dos Candeeiros!

  3. Gi 6 Maio, 2008 / 23:34

    Este ano foi a minha filha que me trouxe um raminho de espiga, feito por ela e pelo meu neto. Conservo a tradição de o colocar atrás da porta para que não falte o pão em casa o ano inteiro como via a minha avó fazer quando era garota.
    Não me lembro de alguma vez ter visto a ranca de parreira e o pé de alecrim nos molhinhos, deve ser coisa bem mais antiga que eu 🙂
    Um beijinho e obrigada por mais este momento de sabedoria 🙂

  4. gaivota 6 Maio, 2008 / 20:56

    há muitos anos também ia apanhar a espiga e fazia o molhinho com “todos os ingredientes”…
    agora está tudo longe, costumo comprar…
    beijinhos

  5. meg 6 Maio, 2008 / 17:01

    Meu amigo,
    Quantos dias sem vir aqui, mas… as coisas não andaram bem, por lá, mudei de casa. mas estou já a retomar a normalidade.
    Por isso te deixo um abraço e um obrigada

  6. APC 6 Maio, 2008 / 01:11

    Que boa imagem esta (milho amarelo e milho rôxo, certo?…). Que bom o ensinamento. E a perolazinha poética!
    Que bons, os bolinhos de areia. E olha que tarde, cantando faduncho!
    E depois dorme-se a sesta,
    e depois o sonho ocorre,
    e depois a tarde morre,
    e depois… acaba a festa!

    … Um mimo! 🙂
    A minha avó materna comprava-me sempre um molhinho desses, pelo dia da espiga. E eu pendurava-o na cozinha e via-o secar com o tempo!
    … De sorrir, tudo isto! 🙂

  7. Justine 5 Maio, 2008 / 20:27

    TP, que bom é recordar estes tempos velhos da minha infância, em que partia, pela mão do meu pai, para o campo em festa, em piquenique e em recolha da tradição!
    Hoje, com os ecos bem guardados no fundo da memória e a inocência perdida, continuo a encantar-me com a beleza das papoilas.
    Um abraço amigo

  8. Maria 4 Maio, 2008 / 21:09

    … foi aqui que falaram em peixinhos da horta?
    :)))))
    Um post “a propósito”….
    Um abraço

  9. elvira carvalho 4 Maio, 2008 / 18:38

    Lembra-me bem da festa que era o dia da espiga há 50 anos atrás.
    Bom Domingo.
    Um abraço

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