o Leão, o Lobo e a Raposa


No norte africano, os tuaregues (os deserdados dos deuses), parte do conjunto de berberes, que, curiosamente, se proclamam Imazighen (homens livres) – será por serem enjeitados pelos deuses?… – têm, entre outros, um curioso conto que, pela sua moralidade, ou sentido crítico, se quiserem, vale bem algumas das melhores fábulas de Esopo ou de La Fontaine:

Certo dia, o Leão, o Lobo e a Raposa, reunidos numa caçada, mataram um javali, uma gazela e uma lebre.
Lobo – bradejou, firme, o Leão – reparte tu o produto da nossa caçada.
À tarefa, respondeu, então, o Lobo:
O javali será para ti, a gazela para mim e para a raposa, fica a lebre.
Ignoras por completo as boas regras de uma justa distribuição! – vociferou o Leão enquanto, ao mesmo tempo que rugia, num brusco e adestrado movimento de garras, despedaçou a cabeça do Lobo.
Recomposto, virou-se para a Raposa e convidou-a efectuar ela a divisão. Pressurosa, a Raposa, declarou:
O javali será para o teu almoço, a gazela ficará para o teu jantar, e a lebre servir-te-á de merenda.
Quem te ensinou tão bem o que bem aprendeste?!… – perguntou-lhe, vaidoso e engaleirado, o Leão.
Senhor – respondeu a finória Raposa – ensinou-me a cabeça do Lobo, feita num bolo.