ó meu rico S. João!…


(…) Ao meu espírito, como aos de toda a gente, dá-lhe às vezes para fazer ventolas. Sentida a guinada, desvio-me, como não pode deixar de ser. Deixei os amigos a devorar futebóis e esgueirei-me por uma caleja ladeirenta, bem acompanhado por um reguinho de água. De onde conheço este velho cuja sombra de castanheiro solitário me interrompe? E ali se faz o diálogo com fundo de águas em torcicolos rumorejantes.
Era aí nesse buraco. A cascata fazia-se aí. Fazia-a eu. Eu e outros.
Reparei no vão de uma escada de pedra, que se prolongava debaixo de uma varanda de madeira já carcomida. A calceta era recente, mas o fraguedo teimoso aflorava junto aos pardieiros.
E já não se faz porquê?
Os tempos eram outros. A ruinha era uma estrumeira, do cimo ao fundo. O estrume é necessário. Mas antes do S. João, a gente varria a merdice e ia roçar umas carradas de mato. O chão ficava como novo. E trazíamos também ramos de árvore para a cascata. O buraco limpava-se muito limpinho. E trazíamos ainda um molhinho de ervas – alfazema, poejo, belas-luzes e amargaças – e outro mais ancho de rosmaninho e alecrim, para a fogueira. Que não era daqui, é o eras, mas num terreiro acolá.
– E a fogueira já não se faz por quê?
O cacaréu do tempo a cair, a partir-se, e o azeite a subir às palavras, mais leve do que elas.
Durante anos a fio era eu e mais dois, que já morreram. Íamos por essas casas e juntávamos uns tostões. Para o azeite e para as grisetas, e para o papel de seda das lamparinas coloridas que se suspendiam de arames esticados sobre a viela. O padre já sabia, tinha de emprestar o S. João, olha se não emprestas. E à tardinha, depois do sino deitar ao vento as ave-marias, rapazes e raparigas iam em farrancho animado buscá-lo ao altar.
Ai orvalhadas, orvalhadas, ai repapoila, repapoila’ e por aí fora.
E os rapazes e as raparigas já não vão por quê?
O velho levantou-se do poial.
Aqui é onde era a cascata. Ao fundo e aos lados, está a ver?, ramos de árvore, pinheiro, pinheiro com pinhas, pois. E vinha de lá uma rampinha aos degraus para que toda a gente pudesse ver o efeito, ora aí está. Ao alto, o S. João mais o seu cordeirinho, em cima do penedo entre jarras de flores. E a água a correr por uma calha de madeira, desde aquele canto até este: sumia-se na estrumeira e lá ia com Deus pela rua abaixo. Aqui, vê?, era costume prender um anho, que ficava muito bem, mas, quando lhe dava para berrar, cuidado lá com ele, tínhamos que o levar ao dono, aí está.
E a cascata já não se faz por quê?
No buraco cabiam mais coisas, muitas, a lua, estrelas, sonhos, anjinhos, até brinquedos e ovos para o leilão. Que rico cheirinho botavam as ervas, amigo! Metia-se cá dentro. E dançava-se. Gente rapioqueira.
Estas é que são nas saias, estas saias é que são. São dançadas e bailadas, na noite de S. João’.
E às tantas, quando a gente não contava, podia aparecer uma rusga com bombos e ferrinhos.Fui ao S. João a Braga, de Braga fui ao Bonfim, e vi tudo embandeirado, com bandeiras de cetim. E há-de ser, há-de ser e há-de ser, as raparigas é que hão-de vencer’.
Olhe, eu é que nunca fui a Braga nem ao Bonfim, por falta daquilo com que se compram os melões, aí está. Mas lá é que o S. João deve ser uma festa de truz. Melhor do que aqui, muito melhor.
Melhor por quê?
– Ora, por que há-de ser? Dinheiro, dinheirinho...
– … o balão, pois, ah!, o balão só o fazíamos subir lá pràs tantas, meia-noite, que era prò pessoal não arredar pé, aí está!
Acabou o futebol televisivo, os meus amigos foram-me descobrir com o simpático ancião, a beber junto a um pipo e a comer broa com coelho do monte, sabor de carqueja. Ganhámos, pá, ganhámos, conclamaram, arrotando a uma cerveja maluca. Mandei-os bugiar. (…)
in CONTOS DE RÉIS