o poeta Chiado


Nos arrabaldes de Évora, filho de gente humilde, em 1521, nasceu António Ribeiro, que ficaria conhecido pela alcunha de Chiado (haveria de morar numa rua, em Lisboa, com esse nome, mais tarde rua Almeida Garrett). Foi frade franciscano algum tempo, embora sempre tivesse vivido com o traje clerical; o motivo de ter abandonado a vida clerical foi, segundo dizem, o não ter professado validamente. Mas, pelo que se pode inferir dos seus escritos, é mais certo que a razão fossem os seus desmandos pouco de acordo com a observância dos rigores da disciplina franciscana. Numa antiga notícia a seu respeito lê-se que ele, quando frade, era bragante, dizidor, poeta; e que para usar a sua condição, fugiu do mosteiro e, andando fora alguns dias, foi preso e penitenciado no aljube, d’onde escreveu ao seu prelado, uma carta em verso.
A Biblioteca Lusitana dizia dele que, conquanto não fosse um homem de grandes letras, tinha, contudo, uma admirável propensão para improvisar e compor trovas em estilo jocoso e burlesco; e com os seus momos fingia as vozes e gestos de diversas pessoas conhecidas da época, que pareciam ser as próprias. Por esta sua jovialidade e génio folgazão foi muito aceite e geralmente benquisto em Lisboa. E como por experiência própria conhecia bem os pecados do mundo, a mistura com gracejos e ditos satíricos, ao que juntava apreciáveis moralidades, as suas trovas eram êxitos de luz pública.
Faleceu em 1591. Alguns dos seus opúsculos chegaram a ser publicados mas, apesar disso, tornaram-se tão raros que, a maioria, ainda hoje passam por inéditos.
Philomena dos louvores dos Santos, de 1585, o Auto de Gonçalo Chambão, apenas uma vez editado, após a sua morte, em 1613, o Auto da natural Invenção, representado para o rei D. João III e do qual não se conhece qualquer impressão, e, por fim, Letreiros Sentenciosos, Regra Espiritual e Carta ao seu Comissário, cuja primeira impressão acabaria por se perder na totalidade, voltou a ser impresso por diligência de Bento José de Souza Farinha, em 1743.
Eram assim, desta trilogia, ainda hoje escassamente conhecida, os seus Avisos para guardar, do Chiado, frade, que foi em Lisboa:

Guardar de cão, que manqueja,

E de homem mui fagueiro.

Guardar de quem de ligeiro

Em tomar nunca se perca.

Guardar de quem só deseje

O alheio, e quanto vê.

Guardar de esperar mercê

Por modo de lisonjear.

Guardar de praticar

Entre pessoas não certas.

Guardas das encobertas,

E de quem fala à vontade.

Guardar de falar verdade

A quem trata com mentira.

Guardar de quem suspira

C’o pesar do bem alheio.

Guardar de quem se freio

Diz cada vez o que quer.

Guardar de receber

Boas obras do vilão.

Guardar do parvoeirão

Que zombando dá no fito.

Guardar sobre o escrito

E de querer de senhor.

Guardar de homem de primor

E de grande fantasia.

Guardar de quem se aperfia

Em dizer o que não sabe.

Guardar de homem que se gabe

E se quer sempre louvado.

Guardar de vilão honrado

Quando tem alguma posse.

Guardar de homem que tosse

E fala de falsete.

Guardar de quem se entremete

E de homem mais comum.

Guardar de homem, que nenhum

Amigo pôde achar.

Guardar de dar e tomar

Com homem de cumprimentos.

Guardar de homens isentos

E não sendo intitulados.

Guardar de homens docicados

Se o são com pouco aviso.

Guardar de homem, que por sizo

Muito sofre a sandeus.

Guardar de homem que aos seus

Tendo posse não faz bem.

Guardar também de quem

O não faz a quem merece.

Guardar de quem desconhece

O bem que tem recebido.

Guardar de homem escolhido

Onde não o há-de ser.

Guardar de vos parecer

Que há em tudo soçobra.

Guardar de fazer má obra

Sem o pago esperardes.

Guardar de danificardes

Em a honra de quem quer.

Guardar também de fazer

Bem a homem de más manhãs.

…. . ….

…. . ….

Guardar de quem sem valor

Se vender por muito preço.

Guardar de quem não tem começo

E não busca meio e fim.

Guardar de homem ruim

Esperar dele fruto bom.

Guardar de bailar sem som

E de outras cousas enormes,

Guardar de não ser conformes

Ao tempo e à razão.

Guardar que no coração

Não haja ódios nem rancores.


(sendo demasiado extensos estes Avisos, o que não é compatível com o figurino do Coisas do Arco-da-Velha, as pessoas eventualmente interessadas na sua forma completa podem solicitar-me, que lhos enviarei com todo o gosto)