o trilho dos bandidos
parte I


J
osé Teixeira da Silva, conhece? E João Victor da Silva Brandão, não? Talvez, então, Joaquim José de Sousa Reis?…

Todos eles tinham em comum o facto de terem sido famosos guerrilheiros, salteadores de estrada, ou simplesmente assassinos, em Portugal. Nos finais do século XIX, os bandidos rurais foram um fenómeno por toda a Europa, especialmente a sul. Desde a Calábria e Sicília até às montanhas do Montenegro, acabando em Espanha (especialmente na Andaluzia) e Portugal.
Aqui, e é disso que vamos tratar, também é possível traçar a rota dos bandoleiros, de norte a sul, falando um pouco sobre os mais famosos: O Zé do Telhado (José Teixeira da Silva), no Minho e em Trás-os-Montes; João Brandão (João Victor da Silva Brandão), nas Beiras; Diogo Alves, em Lisboa; e o Remexido (Joaquim José de Sousa Reis), no Algarve.
Vamos a eles!

 

Zé do Telhado
1818 – 1875

Sobrinho-neto do bandido Sodiano, que durante vários anos espalhou o medo na serra do Marão, entre Minho e Trás-os-Montes, e filho de Joaquim do Telhado, também capitão de ladrões, José Teixeira da Silva, conhecido como Zé do Telhado, trazia nos genes a vocação que lhe deu fama e proveito: bandido. Aos 14 anos deixou Castelões (Penafiel) e para Lousada aprender o ofício de castrador, com um tio que era francês. Aprendeu bem o ofício, ao que parece, e apaixonou-se pela prima. Mas quando o declarou ao tio, ele rejeitou-o por ser pobre. Não quis mais ficar por ali e abalou para Lisboa, onde assentou praça no Regimento de Lanceiros da Rainha, em 1837. Teve o baptismo de fogo ao lado do Duque de Saldanha, na Revolta dos Marechais, e depois deixou a tropa para casar com a prima. Em 1846 e 1847 participou na Revolta da Patuleia, salvou a vida do futuro Primeiro Ministro Sá da Bandeira e foi medalhado com a Torre e Espada, a mais alta condecoração militar portuguesa. Deixou novamente a tropa, regressou a casa e viu-se rapidamente na miséria e rodeado de credores. Sem trabalho e sem pão para alimentar os filhos, aderiu ao bando de salteadores de que já fazia parte o seu irmão. Tornou-se líder e, em Janeiro de 1852, assalta a casa do lavrador Maciel da Costa e, logo a seguir, o rico solar do Carrapatelo, que rendeu quarenta mil cruzados, uma grande fortuna na época. Três meses depois outro assalto, agora em Celorico de Basto. Perseguido pela tropa e pela polícia, Zé do Telhado tem atitudes de audácia incrível, chegando a aparecer publicamente, em Vila Meã, num dia de feira para fazer prove de vinho. Os assaltos continuam até 1859. Denunciado chegou a matar um dos traidores, mas acabou por ser preso quando se preparava para fugir para o Brasil. Na Cadeia da Relação, no Porto, conhece Camilo Castelo Branco (este a cumprir pena por adultério) a quem conta a sua história, que iria dar origem ao livro ‘Memória do Cárcere’. Em 1861 foi condenado ao degredo e é desterrado para Angola. Tornou-se comerciante de borracha, cera e marfim e voltou a casar. Morreu em Malange, em 1875, com 57 anos. Como roubou sempre aos mais ricos, chegaram a chamar-lhe o ‘Robin dos Bosques português’. Hoje há uma avenida com o seu nome em Castelões (Penafiel) e ruas no Marco de Canaveses e em Mouriz (Paredes).