os tempos da Lua

É bem verdade que, já no dizer antigo se apregoava em Abril águas mil, coadas por um mandil. Mesmo que os dias de hoje proporcionem muita controvérsia sobre esta coisa dos humores do tempo durante o ano, boa gente há ainda que olha a Lua nos seus afazeres do campo. Diz-se até se queres boa horta, semeia-a no crescendo da Lua
Pois a propósito disso, há duzentos anos atrás o boticário Roberto da Silva Pinto, escrevia no seu Prognóstico Lunário para 1808:

‘Se quando apparecer a Lua depois da Nova, lhe virmos todo o circulo da parte de Levante, he signal de que em toda aquella Lua haverá bom tempo; e pelo contrario se não a virmos senão pela parte alumiada, e com as pontas fuminadas, haverá mudanças no tempo.
Se a primeira vez que a Lua apparecer trouxer a ponta de cima negra e o mais branco, denota que no Crescente della choverá, e no demais curso da Lua fará bom tempo. E se a ponta de baixo for negra, e no demais for branca, mostra bom tempo no enchente, e chuva no Minguante. E se as pontas ambas forem brancas, e no meio negro, mostra que no principio, e fim da Lua, haverá bom tempo; mas no enchente choverá.
Em cada um dos dias do anno se virmos à noite Lua de côr branca e o tempo quieto, denota bom tempo no outro dia; e se vier amarella denota agoa, se vermelha vento; e tomando de duas cores, assim como amarella, e vermelha, denota agoa, e vento; e se branca, e amarella, agoa sem vento; e se branca, e vermelha, Sol com vento.
Quando o circulo em redor da Lua for negro denota chuva até ao terceiro dia.
Se o Sol ao sahir vir muito vermelho, denota vento, e trovões até ao terceiro dia, e logo sol, e calor.
Se o Sol ao sahir vier com huns raios muito compridos, que parece que chegão aos olhos, denota chuva no mesmo dia.
Se ao pôr do Sol ficar a parte do Poente vermelha, denota bom tempo no outro dia; e se ficar negra, e com névoas, o tempo será ao contrário.’
Pelo menos, assim era tido como certo!

 

.

10 comentários sobre “os tempos da Lua

  1. Miosotis 26 Abril, 2008 / 13:53

    … essa é a sabedoria que mais aprecio, a popular!

    Embora as mudanças climáticas [pecados gravíssimos do Homem moderno…] mudem as voltas ‘às voltas’ que o povo tem sobre as coisas da vida, continuo ‘religiosamente’ a dar-lhe muita atenção!

    Sensibilizada pelo olhar amistoso poisado em ‘fragmentos’!

    Abraços,

    … lamento os atrasos em ‘responder’ aos leitores amigos, mas meu trabalho assim me tem ‘penitenciado’!

  2. jawaa 23 Abril, 2008 / 12:17

    Ah, maroto, obrigada pela atenção, mas eu agora é que o removi…
    Às vezes atrapalho-me, é que isto de ter um nome no condicional, nem sabes as confusões que me traz… e alegrias também (já tive encontros belíssimos que perduram, a propósito destes enganos, há mais por aí). Afinal nada tenho a esconder, acontece estar numa conta e esquecer-me que o meu sítio é outro… eheh!
    Abraço

  3. jawaa 22 Abril, 2008 / 22:26

    O que escreves aqui não tem paralelo. Obrigada sempre.
    Escrevo neste post e não no último para agradecer e falar sobre a tua colaboração no meu espaço. Acontece que não deves ter compreendido – ou não compreendi eu as tuas palavras – o que escrevi, pois não me recordo de ter «agitado o espectro das línguas mortas» de forma alguma. Falei em preservar a nossa língua numa grafia única e não em duas como vem acontecendo. Ora volta a ler com mais tempo…
    Um abraço

  4. Gi 22 Abril, 2008 / 00:33

    A sabedoria popular não é paar desperdiçar 🙂

    Eu acho graça e quando me lembro confiro para ver se bate certo. Bom, a minha lista não é tão extensa quanto a tua … para confirmar isto tudo tenho que andar com a cábula atrás :).

    A seguir à palavra “mãe”, lua foi a palavra que o meu neto aprendeu … desde cedo que percebeu o fascínio que a avó tinha por ela. Vá-se lá saber como :))))

    Um beijinho

  5. JPD 21 Abril, 2008 / 20:37

    …e é curioso o facto de as pessoas, que se calhar 50 anos atrás, acreditavam nisso e o desconforto que passaram a declarar como sendo imputável à ida dos americanos à lua como justificação para as alterações climatéricas e a perda de sazonalidade das estações.

  6. mena m. 20 Abril, 2008 / 18:55

    Pelo menos olhava-se para a lua!

    Hoje em dia olhamos para o ecrã da TV, o que de forma alguma garante a 100% a veracidade das previsões…

    Sempre muito interesante, a forma como nos contas estas coisas do arco da velha!

  7. elvira carvalho 20 Abril, 2008 / 17:54

    Pois antigamente era assim. Hoje as alterações climáticas são tantas, que já não há que fiar em ditados.
    Sem tempo para mais, deixo um abraço, e uma chamada de atenção para o dia 24 de Abril.
    Uma boa semana

  8. Sophiamar 19 Abril, 2008 / 14:21

    Sabedoria popular sempre confiável apesar dos tempos. Na minha terra, serrana, ouvia dizer: guarda pão para Maio e lenha para Abril.

    O frio aí está. A lenha é que já é outra.

    Beijinhossss

  9. APC 18 Abril, 2008 / 20:27

    Escangalhei-me a rir, foi o que foi. Isso é que é vontade de ter (e dar) certezas, hem? Também, se a gente se decidir a testá-lo e nada bater certo, onde é que já andará o senhor para a gente reclamar, né?

    Beijos mil, porque é Abril!

  10. Justine 17 Abril, 2008 / 21:27

    TP, e depois desta lição de meteorologia, lá vou andar eu de torcicolo doendo sem remédio, mas ao menos tenho a certeza do tempo que vou enfrentar em todos os dias do mês. Muito “prático”, mas acima de tudo divertido :))

(actualmente os comentários estão encerrados)