pauliteiros de Miranda do Douro

Na tradição muito do que foi ainda é; e assim será conquanto tenhamos memória e coração, dizia amiúde o meu velho professor e amigo Pedro Homem de Mello. Lembrei-me disso a propósito dos Pauliteiros de Miranda do Douro, que hoje trago à baila
À baila das suas danças singulares, de um quase medievalismo sugestivo, marcadamente guerreiro, a evidenciar costumes e reminiscências das gentes desse curiosíssimo ambiente geo-psicológico das terras de Miranda do Douro.
O pauliteiro (pois que de uma dança só masculina se trata) baila com dois paulitos em punho. O tamboril rufa, o bombo marca e a gaita-de-foles dá o canto, que a mecânica dos comparsas acentua na cadência da dança. Geralmente, o grupo é formado por dezasseis dançarinos, que constituem a dança completa; oito deles, apenas, e será, então, meia dança.
Conta-nos o Abade de Baçal como era o traje antigo dos bailarinos. Vestiam triplo saio de alvo linho, bordado: as três partes eram de comprimento diferente, mas de relações iguais, para que, sobrepondo-se, o saiote de cima permitia que se vissem os bordados do de baixo. O geral adormecimento dos trajos permitiu ao bailarino dispensa dos saios, e ele passou a dançar à futri­ca ou, se o preferirem, à paisana. E, de facto, esta expressão é mais adequada, porque todos os elementos componentes do trajo do bailarino correspondem a partes da armadura e ornatos complementares dos guerreiros medievais.
Observe-se que a dança é acção de combate; em vez das espa­das há nela os paulitos. Tirado o triplo saio, fica o homem no seu trajo vulgar: calção, em mangas de camisa de linho, colete pardo com o lo­sango de pano branco a forrar as cos­tas, e estão prontos com o chapéu re­dondo, guarnecido de flores, plumas de pavão, palmitos, com lantejoulas a raiarem reflexos, e duas fitas colori­das a caírem pelas costas.
Voltariam, mais tarde, à forma primitiva. E não se consegue que os homens exibam em público os seus laços ou marcas de bailado se não estiverem inteiramente em ponto como a imagem de Alfredo Morais aqui os mos­tra. Ele aí está, o pauliteiro, no pi­toresco expressivo da sua indumentá­ria aprestada. O que sobressai nela é a brancura do triplo saio de linho com os bor­dados. O mais está notado: o colete, com os lenços, bordados de cores vi­brantes, a saírem dos bolsos; a camisa branca, sobre a qual se estende o len­ço de ombros, berrante de franjas lar­gas, seguro amplamente em volta do pescoço com o nó de grandes orelhas sobre o peito; chapéu de coloridos en­feites; nos pés botas grossas de atanado e meias zebradas de listas verme­lhas e brancas. De paulitos em riste, como cavaleiro em atitude de com­bate, o par das castanholas ou matráculas pendentes dos pulsos, espera o sinal de começar à voz do guião, hirto e majestoso na função de senhor do campo de combate; por símbolo do seu poder tem ele envergada a pe­sada mas imponente capa de honras, a honrica.
O pauliteiro. é todo colorido. O grupo dos dezasseis da dança comple­ta rende os olhos dos espectadores e entusiasma-os. O tamboril começa a ru­far; tudo se apresta de vez; os homens enfrentam-se em duas linhas parale­las; desafiam-se já para a luta; a gai­ta-de-foles resmunga; o bombo dá si­nal; e tudo se transforma, num ápice, em som e movimento; as cores mistu­ram-se, os homens saltam, volteiam, revolteiam, os paulitos batem ritmica­mente…
A imagem fica-nos nos olhos. A memória, essa, mais tarde, irá aquecer o coração.