peculiaridades de um cano

Entre conventuais freiras e frades de Amarante, houve, in ílio tempore, um litígio que foi resolvido por um acórdão proferido pela Relação do Porto, em 1793.
Salvaguardando algumas adaptações na escrita, que em nada alteram o significado, aqui vai o que lá ficou escrito:
Acórdão em Relação, no Porto, vistos os autos e os descritos pelas testemunhas, pelo que convém nos ditos pelas partes. As autoras D. Abadessa, Discretas e mais Religiosas do Real Convento de Santa Clara de Amarante, mostraram ao escrivão ter um cano seu, próprio por onde despejam as suas imundices e enxurradas, o qual atravessa de meio a meio a fazenda dos frades Domínicos da mesma vila. Provaram elas, autoras, a posse em que estão de o limparam quando entendido precisarem. Os réus, Prior e mais religiosos do Convento de S. Gonçalo, assim o confessaram, e se defendem, ao que dizem, que lhes parece mui mal que lhes bulam e mexam na sua fazenda sem ser à sua satisfação: que conhecendo a necessidade de limpeza do cano das Madres, tinham feito unir o seu cano ao delas, por cujo modo vinham elas a receber proveito. Portanto, e o mais que foi dito aos autos, vendo-se claramente que aquela posse só poderá nascer do abuso: – vendo-se mais a boa vontade como os réus se prestam e obrigam a limpar o cano das Madres, autoras, e que, outrossim, da união resulta conhecido benefício – conclui-se visivelmente que há dúvidas e questões da parte das Madres, que podem nascer do capricho sublime, dum temperamento ardente, preciso de mitigar-se para bem de ambas as partes. Pelo que, mandam, que o cano das autoras seja conservado sempre corrente e desembaraçado, unido ou não unido ao cano dos réus, segundo o gosto e interesse destes, e inteiramente à sua disposição, sem que as freiras, autoras, possam intrometer-se no dia, na hora, nem nos modos ou maneiras da limpeza, a qual já fica entregue à vontade dos réus que a hão-de fazer com muita prudência e bem, por terem bons instrumentos seus próprios, o que é bem conhecido das autoras que o não negaram nem contestaram aos autos. E quando aconteça, – o que não é de se presumir – que os réus de seu propósito ou por omissão deixem entupir o cano das autoras, em tal caso lhes deixem o direito salvo contra os réus, podendo desde logo governar na limpeza do dito cano, mesmo por meios indirectos, usando de suspiros, e ainda usando o cano dos réus, procedendo primeiro a uma vistoria feita pelo juiz de fora com assistência do escrivão ou peritos louvados sobre os canos das autoras e dos réus.
Pague-se pelas partes, do modo que lhes foi ditado, as custas do processo aqui passado assim o ofício.
Porto, 10 de Novembro de 1793.
Sobre o que aconteceu posteriormente à sentença, não sei mais nada..

 

 

 

9 comentários sobre “peculiaridades de um cano

  1. tb 17 Novembro, 2018 / 15:01

    Deliciosamente satírico!
    Uma leitura que sempre me deleita. 🙂
    Grata pela partilha destes nacos de bem saber escrever!
    Beijo.

  2. jorgesteves 16 Novembro, 2018 / 19:08

    Nem acho que estejas a tresler, nem o acórdão tem outra coisa!…
    (essa do ‘cheira-me’ está boa!)
    Abraço.
    jorge

  3. jorgesteves 16 Novembro, 2018 / 19:04

    Drama? Eu creio que, em determinados vazamentos seria mais uma comédia!…
    Obrigado, Pedro, volte sempre.
    Abraço.
    jorge

  4. jorgesteves 16 Novembro, 2018 / 19:01

    Eram dois, sim, Florbela. Santa Clara ficava nas traseiras do actual Convento de S. Gonçalo e, efectivamente, tinham os seus terrenos contíguos. Santa Clara acabaria destruído por um violento incêndio durante as invasões francesas.
    E volte sempre!
    Abraço.
    jorge

  5. jorgesteves 16 Novembro, 2018 / 18:52

    Não é que perceba muito dessas verduras, mas sempre arriscaria dizer que, provavelmente, saíram dali umas belas tronchudas…
    Abraço.
    jorge

  6. Justine 16 Novembro, 2018 / 16:01

    Cheira-me (a propósito…) que este acórdão tem um sentido metafórico…ou estou a tresler??

  7. Pedro Soares 16 Novembro, 2018 / 11:30

    Uma delícia. Há cada drama. Imagine-se uma ligação de um cano ao outro e a responsabilidade de determinar a boa fé das pessoas para que as imundices sempre possam “fluir”. Parabéns.

  8. Florbela Amorim 12 Novembro, 2018 / 21:34

    Uma sentença que o tempo acabou por dar um sabor muito especial,
    Amigo Jorge, ficou-me a dúvida se eram realmente dois conventos ou na altura teriam nomes diferentes por haver frades e freiras.
    Continua a ser um prazer vir aqui ler as suas crónicas.
    bejjo
    Florbela

  9. Manuel Ferreira 10 Novembro, 2018 / 21:43

    Isto é que é mesmo uma notícia do Arco da Velha.
    Imagino a hortaliça que saía daquela horta. Arranjas cada uma!…
    Abraço

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