tio Juvelino

é acreditando nas rosas que as fazemos desabrochar
(Anatole France)

Naquele ano o tio Juvelino resolveu que o Natal seria na casa da Aparecida, no Douro; a Casa Grande, como lhe chamavam os sobrinhos. Tão grande, nos seus onze quartos, que da cozinha, num dos extremos, até à sala das andorinhas, na outra ponta, ocupava todo um dos lados da única rua do lugarejo….
Há muitos anos que a casa permanecia fechada e apenas se abria parcialmente, para arejar, nos meses de Verão. A única excepção era nos começos da Primavera, mais ou menos em meados de Março, quando o tio Juvelino lá ia e abria as janelas da sala das andorinhas.
Ao fundo do corredor, a sala era enorme, arredondada e virada a sul. O parco mobiliário,  meticulosamente tapado, era apenas de algumas velhas cadeiras e mesas que ali estavam guardadas para alguma necessidade de ocasião.Nessa altura o tio Juvelino franqueava todas as janelas de par em par, indiferente aos caprichos do tempo, um tanto volúvel naquelas paragens. E as janelas assim ficavam, dia e noite, até ao fim do Estio. Com uma precisão quase igual à de um relógio, primeiro uma ou duas, talvez três, elas apareciam silenciosas, em golpes de asa, furtivos e recortados nos vidros das janelas recolhidas. Depressa chegavam outras e outras ainda e, até Setembro, mais de uma centena de andorinhas tomavam como sua a sala mais afastada da casa da Aparecida. Frequentemente o tio Juvelino sentava-se no caramanchão do jardim, que ficava a uma respeitosa distância das janelas, a observar o frenético vaivém das suas delicadas protegidas. Nos começos de Outubro, depois da abalada, o chão era esfregado com piaçaba e sabão amarelo, e a seguir lavado com fartos baldes de água; as paredes e o tecto com os seus velhos arabescos de gesso, esses, eram religiosamente intocáveis. Uns dias depois, seco que estivesse o sobrado, as janelas fechavam-se até que outra Primavera se fizesse anunciar pelo jardim…
Nesse Natal – que lembro especialmente por ter sido o último que passei na Casa Grande – o tio Juvelino tratou de oferecer o madeiro para a noite da Consoada. Naquelas bandas, costume antigo, o lenho era roubado pelos moços, num misto de aventura e espanta demónios. Depois passou a ser voto ou simples aproveitamento do trabalho na terra. Tratada a oferta e carregado o toro até ao pequeno largo da aldeia, fronteiro à sala das andorinhas da Casa Grande da Aparecida, o mordomo já leva um braçado de foguetes de cana para as escadas da capela e, zás, um a um, de morrão no rastilho, lá vão subindo, e a assustar a passarada, anunciando a toda a aldeia que o madeiro está pronto para aquecer as gentes que irão abarrotar a capelinha por ocasião da missa do galo…
Terminada a missa, com toda a gente de abalada às empurras do frio, reparei no olhar do tio Juvelino pousado com enlevo sobre as janelas cerradas da sala onde, lá para os tempos da erva fresca, se acolherão de novo as suas andorinhas. Já tem saudades delas, perguntei-lhe. Sorriu levemente, julgo-lhe ter percebido um suspiro e disse, claro, claro que tenho. São elas que trazem Vida a esta casa, afiançou-me com uma inabalável certeza na voz. Não me diga que acredita que isso seja assim, atirei-lhe com alguma zombaria sobre a proveta idade que me parecia merecer mais um pouco de pragmatismo. Olhou-me com os olhos já doridos pelo tempo e disse-me, sabes isto não é só com as andorinhas, é também com muitas outras coisas: primeiro a gente finge que acredita, depois acredita que ainda finge.

Há algum tempo revi as ruínas da Casa Grande da Aparecida. A sala das andorinhas já não tem janelas, nem tecto; parte da parede caída deixa ver o mato que reina pelo interior.
Nunca mais lá voltei. E fingi acreditar que o tio Juvelino tinha razão…

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