palavrão

A carruagem do metropolitano ia parcialmente vazia. Um pouco à minha frente, junto às portas, displicentes e enroladas na cavaqueira, duas adolescentes iam rindo e palrando a propósito de uns amigos e outras tretas à mistura. Não pude deixar de as ouvir. Em cada três ou quatro palavras, uma era obscena. Sem qualquer característica especial, elas não estavam tensas ou minimamente agitadas. Falavam num tom perfeitamente coloquial e, o que me pareceu agressivamente notório era a postura desinteressada e distante do facto de puderem ser ouvidas. Ou seja, consideravam normal a sua forma de falar. Matutei que, de algum modo, elas estavam com a razão.
O palavrão, arriar uma ordinarice, abertamente, em voz alta, em qualquer lugar, já foi anátema de estrato social sem cultura, principalmente sem educação; agora, por razões arredias a que não consigo chegar, tornou-se aceitável nas conversas comuns destas mais recentes gerações.
Seja como for sinto-me chocado. Não se trata de moralidade ou de puritanismo. Tão só que esse modismo de paleio ordinário, porco à mistura de um confrangedor e fanado vocabulário, vertido displicentemente em público, é algo que entendo muito próximo da ideia de violação da intimidade.
Já ouvi uma professora dizer que se sente vexada quando anda pelos corredores da escola, nos intervalos das aulas. Outros que, entre dentes como os judeus do Sinédrio, dizem ‘na verdade são simples palavras’. Estes, esquecendo, ou fingindo não saber, que as palavras são meios, são veículos que trazem e levam mensagens. Quando propagadas fora da esfera comunicacional privada, elas sujeitam-se a normas e conceitos que a sociedade estabelece. A verdade é que, obscenidades do tipo latrina pública ouve-se hoje no rádio, na televisão, em alguns sol-e-dó popularuchos e lê-se nos jornais e revistas; o que há muito pouco tempo era absolutamente inadmissível. Se tudo isto se encaixota numa modernaça forma de liberdade, é caso para perguntar: liberdade de quem? Se a linguagem do feio passa a fazer parte tão integrante da nossa sociedade que seja impossível escapar dela, viremo-nos para onde nos virarmos, nesse caso, quem é livre? E quem não o é?

10 comentários sobre “palavrão

  1. olinda melo 02-05-2018 / 16:19

    Caro Jorge

    Aborda aqui um tema que também a mim me preocupa. Eu já verifiquei que o facto de ensinarmos os nossos filhos a arte de bem falar não significa que, depois, com os colegas não adoptem “palavrões”. Em casa podem não falar mas nos recreios, nos passeios. Para se integrarem aderem a isso, uma necessidade de mostrar que são iguais aos outros, que seguem essa moda, que não são meninos do papá ou da mamã.
    É chocante, na verdade. Realmente, é caso para se perguntar onde fica a liberdade… a minha e a dos outros.
    Abraço.
    Olinda

    • jorgesteves 04-05-2018 / 18:09

      Creio que este modismo, ultrapassa, e muito, a questão da integração e interacção do grupo, quer escolar quer de amigos. Julgo que se identifica mais com o meio e a hierarquização do poder. Que, de qualquer forma, é mau prenúncio, sim, parece-me…
      Abraço.
      jorge

  2. marcela quelhas 28-04-2018 / 22:10

    Obrigado Jorge por aceitar o pedido. Não queria deixar de continuar a ler o que escreve.
    É sempre um prazer mesmo que comece por uma triste realidade. Um abraço muito amigo

  3. Maria José Rodrigues 26-04-2018 / 13:50

    De acordo com as tua reflexões, Jorge. Tenho para mim que esta moda das obscenidades no linguajar quotidiano é um modo de chocar por um lado, e por outro uma maneira de esconder a pobreza lexical desta gente nova. É confrangedor escutar uma conversa entre adolescentes: nunca é utilizado o discurso indirecto; não sabem utilizar a voz passiva; os erros sintácticos são imensos, e o número de palavras às vezes parece-me não ultrapassar a dezena…uma tristeza que dá que pensar!
    Esperemos que passe depressa, se moda é!

    • jorgesteves 27-04-2018 / 09:58

      Dá que pensar, de facto. Do mais, francamente, não creio que seja modismo que passe tão cedo; se passar…
      abraço.
      jorge

  4. Otilia Martel 24-04-2018 / 10:46

    Felizmente que tive uns Pais que nunca o permitiram, nem nunca ouvi da boca deles.
    Assim ensinei os meus filhos. Creio que seguem as pisadas familiares já que nunca os ouvi falar mal.
    Um fenómeno de liberdade mal aplicada…

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