comboios

quem não respeita o Passado, não tem presente que não terá memória no Futuro


Andaram anos a fio, pelos bancos da escola primária, na boca da canalha. ‘Eu sei, senhor professor, eu sei! A Linha do Douro sai do Porto, Ermesinde, Penafiel, Régua, Tua, Pinhão e Barca de Alva’…  Levavam barricas de sardinhas terrentas e traziam gigos de fruta e hortaliças à mistura de recovagens e passageiros com negócios para a cidade.

Atenção senhores passageiros: da linha nº 4 vai sair o comboio-correio com destino a Lisboa, Santa Apolónia. Os senhores passageiros com destino à Linha da Beira devem mudar de composição na estação da Pampilhosa’.
…’a Linha do Sueste sai de Beja, passa em Pias e vai até Moura’, recitava outro miúdo.
As estações mais os apeadeiros enchiam-se de postais feitos de azulejos pespegados pelas paredes e orladas de canteiros onde se acoitam flores e chilreios, da Primavera ao Outono.
Arrufadinhas, senhor doutor! Arrufadinhas’, apregoa-se na chegada a Coimbra; ‘água fresca!, quem quer água fresca’, era agora na Pampilhosa, com pressas de moedas, trocos e jeitos de, pelas janelas da carruagem, não quebrar a bilha de barro que guardava os deliciosos sabores da água, de tão simples, já não existem.
Ó menino!, de Casa Branca, Évora a Vila Viçosa é o Ramal de Estremoz! O que eu pedi foi que me dissesse o percurso do Ramal de Cáceres...’, vai insistindo o professor…
O calhordas abre a janela quando o comboio se encafifa nos túneis e, assim, a fumarada precipita-se carruagens adentro deixando toda a gente a tossicar a tratantada. O revisor pica os bilhetes, a mãe diz pela enésima vez ‘Lurdes, está quieta! Levas uma lostra…’, o senhor de fato lê o jornal, o casal lá no canto come umas buchas e bebe da garrafa, enquanto o magala não acorda do pesadelo que o leva à tropa…
Um dia o comboio ficou doente. Que não é nada, isso passa, já vais ver; mas não passou. Era pulhice a abafar jumentada da grossa. E que se passou é que o deixaram morrer, só, abandonado. Indignamente abandonado. Sem tempo de lhe valer, sequer, alguma canção. Sobraram-lhe as sombras que deixou espalhadas por todo o lado, ora linhas ferrugentas que nunca se acham, ora nas paredes que se recusam a cair na esperança de poder guardar o último apito do comboio das onze…

12 comentários sobre “comboios

  1. Maria José Rodrigues 18 Junho, 2018 / 14:38

    Uma viagem a um tempo tranquilo, mais humano do que aquele que se vive agora. Ficam as memórias dos pregões, da lengalenga das estações decoradas em casa para cantar nas aulas e de que ainda permanecem restos…
    E gostei da ironia na reprimenda daquela mãe à sua filha Lurdes!!!
    Tudo muito bom!

    • jorgesteves 18 Junho, 2018 / 16:10

      Sim, tranquilo, diria até com um tempo mais pausado, contado ao ritmo do silvo das locomotivas…
      O que dói é todo tudo que lhe ficou agarrado e nos deixou vestidos de orfandade. Era uma das maiores e mais conceituadas engenharias ferroviárias da Europa (os ramais do Tua e do Sabor, eram exemplos que todos vinham estudar); produzia-se material circulante para uma mão cheia de países. Hoje…
      Abraço,
      jorge

  2. olinda melo 14 Junho, 2018 / 12:50

    Olá, Jorge
    Muito do Passado se vai perdendo e perder-se-à totalmente se não fizermos por relembrá-lo de modo a que as gerações vindouras beneficiem da sua História. E nós próprios precisamos disso, de revisitar o que ficou para trás. Quando passo pelas estações, sem vida, que contam uma história muda através de destroços à vista, sinto uma tristeza imensa.
    Abraço
    Olinda

    • jorgesteves 18 Junho, 2018 / 09:40

      E todas elas (as estações) são um testemunho doloroso desta saga suicidária do usa-e-deita-fora que campeia no quotidiano actual.
      Abraço,
      jorge

  3. manuela 9 Junho, 2018 / 18:21

    Das “Arrufadas de Coimbra e Água fresca, quem quer água fresca?” lembro-me bem. E se eram boas aquelas arrufadas! Já foi há tanto tempo! Que pena.

    • jorgesteves 11 Junho, 2018 / 12:28

      Ui!, se eram boas, sim! Fiz algumas vezes a viagem nocturna no ‘Correio‘, e até Vila Franca de Xira (onde saía para ir para a Ota), bem sabiam as arrufadinhas…
      Abraço.
      jorge

  4. carlos pinto 8 Junho, 2018 / 16:01

    Meu caro a isto eu chamo memória . Talvez até em sépia que fica mais nostálgica. E disso sabemos que percebe. Os meus parábens.

  5. marcela quelhas 7 Junho, 2018 / 11:36

    O seu bonito texto tão real faz com que a realidade do abandono das linhas férreas se torne ainda mais feio.
    Um abraço
    Marcela

    • jorgesteves 11 Junho, 2018 / 12:24

      Obrigado, Marcela. è verdade, si, a nossa rede ferroviária é feia, de vergonhosa.
      Abraço.
      jorge

  6. elvira carvalho 6 Junho, 2018 / 19:36

    Gostei de ler. Tantos sítios onde os comboios deixaram de passar. Estive há dias em Vila Viçosa. E visitei o museu da Agricultura, na antiga estação dos comboios. Parece que há projetos para reabilitar algumas linhas. Provavelmente não passará do papel.
    Abraço

    • jorgesteves 11 Junho, 2018 / 12:22

      São as promessas vãs. Como diz um velhinho aforismo ‘De farei, de farei, nunca pagarei‘. É triste. E vergonhoso.
      Abraço
      jorge

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