pecadilho

O senhor Alberto Gomes não era nada peco a espalhar a sua chocarreira vanglória por tudo quanto de si dependesse: desde a desmesura da sua cadeira de presidente da Junta até à torrinha granítica que arrematava a sua maison de lousa telha, passando pelo seu Mercedes de chiques cromados, ou até mesmo pelo seu anel de ouro mociço com garras firmes sobre uma libra isabelina.
O que lhe escapava, isso sim, e sempre, era o cumprimento das promessas que, a torto e a direito, fazia por tudo e por nada, sempre a escardichar os proveitos da função.
Promessa que lhe saísse da boca, era certo e sabido que caía asinha em saco roto…
Ora, tinha o nosso homem uma filha, a sua Joaninha, corada donzela bem-apessoada, por quem andavam muitos moços aos arremessos.
E tanto andaram tanto andaram que, um dia, entre eles a cachopa deu em escolher o Carlos, lá da vila, bom rapaz, mas um tanto perro no apurar da palavra certa para cada maré. Ora vejam lá se não tenho razão…
Um dia combinado, à tardinha, apresenta-se o Carlos em casa do senhor Gomes, para pedir a Joaninha em casamento.
Veio a criada, mandou o moço entrar para a sala, esperou um mucadiquinho porque era assim que se fazia nessas ocasiões e, por fim, lá apareceu o papá, a mamã veio por outra porta, enquanto a Joaninha ficou no átrio a esmerar o penteado e à escuta do que por ali se iria passar.
Pois é assim como lhe digo, começou o entendimento com as intenções de um lado, ora os conselhos do outro, delongou o palratório com mais cozido e frito, explica e volta a explicar e, às páginas tantas, há que chamar a pequena que, à primeira palavra paterna, interrompeu de supetão com um que sim, que gostava muito, que era com ele, só com ele, vamos marcar a boda e pronto, tudo por aqui parecia caprichado para acabar como nas histórias mais bonitas.
Mas não, era engano! Já mesmo no fim, à despedida, o dialho do rapaz, lembrando-se, naturalmente, da costumada falta de palavra do presidente da Junta, sai-se com esta:
É verdade, senhor Alberto…  agora veja lá o que faz! Eu sei que há por aí uns zunzuns sobre o senhor que não são nada bons, como deve saber. Bom, eu, o que eu quero dizer, bom, isto é, para que eu saiba com o que conto, espero que me dê a sua filha sem falta…
Claro que não acabou a frase. O que acabou foi o casamento.
Aquela impensada sem falta azedou o goto do senhor presidente Alberto Gomes, da sua excelsa esposa e, claro, da Joaninha.
Ora essa!…

 

12 comentários sobre “pecadilho

  1. Justine 3 Setembro, 2018 / 17:07

    Ah se fossem só os presidentes de junta…e os presidentes de câmara? e os deputados? e os ministros? e por aí fora???????
    Texto-retrato fiel deste país trapaceiro!

    • jorgesteves 9 Setembro, 2018 / 11:17

      Ora, ora, amiga Justine!…
      Se fossem só, se fossem só quase, quase, estavamos bem, não é?! Assim… trapaceiro, é pouco!…
      Abraço.
      jorge

  2. carlos pinto 27 Agosto, 2018 / 23:13

    Pois eu não conheço um senhor Alberto Gomes. Conheço muitos!
    Meu caro, o retrato está muito bem tirado.Grande abraço.
    Carlos

  3. marcela quelhas 26 Agosto, 2018 / 18:59

    Pois é, meu amigo, quase aposto que toda a gente conhece um senhor qualquer coisa Alberto Gomes, não é? Gosto do seu humor que passa num instante do simples ao implacável. Muito bom mesmo.
    Marcela

    • jorgesteves 31 Agosto, 2018 / 10:00

      Caricaturada uma realidade bem visível por todo o lado, é verdade.
      Obrigado pelo elogio, amiga Marcela.
      Um abraço.
      jorge

  4. manuela 26 Agosto, 2018 / 16:44

    Claro, há que ser-se cuidadoso em conversas com presidentes de Junta… Deliciosa a ironia subjacente naquele “sem falta”, especial o vocabulário usado. E que interessante a fotografia.

    • jorgesteves 31 Agosto, 2018 / 09:58

      A fotografia é parte de um vasto conjunto de um Festival que, infelizmente, não mais se repetiu. O que é uma perda lamentável. Coisas das modernidades…
      Abraço.
      jorge

  5. Ju 23 Agosto, 2018 / 19:14

    É verdade que o Carlos colocou o dedo na ferida do Sr. Alberto Gomes. Foi imprudente, o rapaz, mas ao mesmo tempo infeliz com aquela frase (sem falta) que, a meu ver, foi mal interpretada pelos interlocutores.
    Aquela referência à maison arrancou-me um sorriso. Lembrou-me uma frase que em tempos se ouvia por aqui: Vou construir “uma casa tipo maison, com janelas tipo fenêtre”
    No mais, um conto muito bonito, que certamente irá, no futuro, integrar um novo livro! Será ?
    Um abraço

    • jorgesteves 31 Agosto, 2018 / 09:56

      Imprudências, imprudências!, diria o meu amigo Fernando…
      As janelas tipo ‘fenétre’ ainda são uma realidade marcante, especialmente no Minho e Trás-os-Montes, é verdade. Tal como as casas dos ‘torna viagem’, nos anos 20 e 30 do século passado. É só descer a avenida da Boavista, no Porto, não é, Ju?
      Abraço.
      jorge

  6. teresa bonito 23 Agosto, 2018 / 15:28

    Ora penso ter sido a sorte do tal Carlos. 🙂
    A moçoila está muito bela, no seu esperar por noivo (digo eu) 🙂
    Beijo.

    • jorgesteves 31 Agosto, 2018 / 09:51

      Será que o Carlos não era o protagonista do ‘ir a lã e sair tosquiado’?…
      A cachopa, sim, estava muito aprimorada…
      Abraço.
      jorge

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