humor (a seco)

Há quem defenda que o humor é a mais salutar, por isso necessária, inconveniência do espírito. Pode ser, mas para muita gente o caminho é intrincado e, não poucas vezes, tortuoso, ínvio mesmo.
A Diana era irmã do Frederico, meu companheiro de carteira. Bonita, tinha um riso fácil, com uma sonoridade contagiante. Um dia – ela um quase nada menos do que os meus oito ou nove anos – disse-lhe:
– Aposto contigo que não és capaz de me tocar, mesmo que eu esteja a dois palmos de distância! – comecei a exibir a piada que tinha aprendido na escola.
‘tás tolo! Claro que posso!
– Não podes não; estou detrás duma porta! – ri tanto que até deixei cair dois berlindes e um molho de jogadores, que tinha no bolso da camisa.
A menina ficou a olhar para mim como se eu fosse um sapo.
Passados todos estes anos ainda não consigo compreender o senso de humor, ou a falta dele, de algumas pessoas. Também não sei, nem quero entrar nessa discussão, qual será o conceito mais apropriado à clara e precisa definição de humor. Acabaria por ser, com certeza, um conceito profundo e assim, de tão profundo, não teria graça nenhuma.
Há pessoas que riem fora de tempo, ou fora de propósito ou, nem sei se para pior ou não, não chegam sequer a rir. O Nuno – é verdade que ele tem uma igualhazita com o Conselheiro Acácio… -, quando acaba de ouvir uma chalaça fica-se por um ‘Humm…’ e remata com um abnóxio ‘…e depois?’. A mulher dele, que é telespectadora sujeita subordinada contemplativa infinita temporal absoluta, ri desde o começo e quando chega o ponto da piada, pára de rir, destrambelha o canal e, da última que me lembre, perguntou ‘e agora onde é que tu moras?…’.
Independentemente da qualidade narrativa, do mimo facial e gestual do contador, todos sabemos que o chiste de uma anedota não vem da anedota, mas sim de uma série de imagens, sensações e associações mentais que a historieta sugere. Isso, presumo eu, ou encontra pressuposições e decorrências lógicas ou, então, enfrenta uma empanação tal que todos os caminhos ficam sem sentido e caldeados, que vão dar a nenhures, amarrando o raciocínio a um curto e sólido lastro de realismo  de chumbo que impede o mais leve dos prosaicos saltos imaginativos.
Dois casais iniciavam um jantar de amigos. Um dos homens, depois de escolhida a ementa e do empregado virar costas, diz:
– Querem ouvir uma laracha que contaram hoje, no escritório? – e continua – Um fulano, que era frequente num restaurante, aparecia sempre com uma cenoura a sair do bolso pequeno do casaco. Um dia ele apareceu sem a cenoura; no lugar dela trazia um rabanete. O empregado, que já andava doido por lhe perguntar o porquê da cenoura a fazer de lenço, no casaco, aproveitou a oportunidade e perguntou ao cliente ‘por quê esse rabanete no bolso?’. O tipo respondeu-lhe ‘hoje não encontrei nenhuma cenoura’. O homem que contava a história dificilmente chegou ao fim, tal era a força crescente do riso, conforme ia contando a anedota.
– E por que é que não havia cenoura? – perguntou o outro conviva.
– Ah!… – entra a mulher do narrador – Foi bom lembrares. O João e a Marta amanhã vão lá casa jantar e é preciso comprar queijo…
A outra mulher, com um sorriso esfíngico comenta:
– Não faço a mínima ideia a como está o quilo das cenouras.
O homem ficou com um ar solene a mastigar umas azeitonas.
Uma vez caí na palermice de contar à Sofia, a minha apessoada vizinha do segundo direito e muito badalada chef na antiga Adega dos Enchidos, que ‘dois velhos, num clube inglês, falavam. Diz um ‘sinto muito saber que você enterrou ontem a sua esposa’. O outro, taciturno, respondeu ‘É verdade, não tive outro remédio. Ela morreu’. A Sofia olhava para mim com a mesma expressão que tinha quando comecei a falar. Como não sabia o que havia de fazer ao meu sorriso, dei conta que ele me caía aos pedaços pela cara abaixo.
Mas, ó querido, ela morreu de quê?…
Fiquei com um nó no gasganete e repeti:
Um sujeito diz ao outro ‘sinto muito saber que você en-te-rrou ontem a sua esposa’…
– Essa parte eu percebi, Jorge! – o timbre da sua apurada voz solevantou-se ligeiramente – E não precisa de repisar o que entendi, porque assim não quero ouvir mais nada. O que não explicou foi qual era o outro remédio!…
Tinha acabado de chegar o copo de vinho à boca. Engasguei. Tossi até me virem as lágrima aos olhos.
A Sofia soltou uma homérica gargalhada.
Algum dia hei-de descobrir onde estava a piada.    

12 comentários sobre “humor (a seco)

  1. Nuno Ribeiro 3 Dezembro, 2018 / 10:02

    Engasgado é pouco, amigo Jorge. Isso porque de facto há pessoas com um humor mesmo muito seco. Ri-me a bom rir com a sua prosa, obrigado!
    Abraço

  2. Bartolomeu Fernandes 25 Novembro, 2018 / 20:08

    Quem era o trompeteiro que andava sempre com a anedota dos olhos da mana, lembras-te?
    Ri-me agora com a mulher que morreu. Não conhecia! Nem nunca me falaste na tua vizinha…
    Abração!

    • jorgesteves 15 Dezembro, 2018 / 18:53

      O Marrano!… Ele era de onde?, das Caldas, não?…
      Pois, ele não gostava odos olhos dela! Bom, um destes dias apresento-te a minha vizinha, deixa lá!
      Abraço.
      jorge

  3. elvira carvalho 24 Novembro, 2018 / 22:43

    Um texto cheio de humor, que me divertiu imenso.
    Bom eu não devo ter grande jeito para contar piadas. Ontem mesmo recebi por e-mail, uma que me fez soltar uma sonora gargalhada. Mas quando a contei, a outra pessoa, ficou a olhar para mim e perguntou: E depois, Isso é anedota?
    Abraço e bom domingo.

    • jorgesteves 15 Dezembro, 2018 / 18:51

      A outra pessoa, sei lá, será de humor…seco?
      Bom domingo, também, amiga Elvira (que bem precisa dele para retemperar…)
      Abraço e saúde,
      jorge

  4. teresa bonito 24 Novembro, 2018 / 19:57

    O que retiro de tudo isto é que devemos conhecer muito bem as pessoas antes de contar piadas, que estas, quando temos de as explicar ficam mesmo (secas). 🙂 🙂
    Ai o que me ri com as tuas trocas de humor!
    Um grande abraço, Jorge amigo. Continua!… 🙂

    • jorgesteves 15 Dezembro, 2018 / 18:48

      Onde a porca torce o rabo é no conhecer muito bem as pessoas; isso parece-me coisa como a quadratura do círculo…
      Mas vamos aproveitando para ri das piadas, sejam elas até… molhadas!
      Ainda bem que riste, Teresa!
      Abraço.
      jorge

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