o moço do ti’Luís

Uma tarde, o ti’Luís da Quintela foi mais o filho à cata dumas achas, lá para a touça, junto ao ribeiro. Aparelhou a burra à carroça e ele aí vai pelo caminho do cerrado, que o ar sempre está mais mimoso. Quando lá chegaram, e depois de entesourar um bom esteiro de lenha na carroça, o ti’Luís aproveitou para dar uma espreitadela ao ribeiro por mor de lhe tirar feição para, outro dia, ali pescar umas percas. O moço, foliava de pedra em pedra, e como queria saltar para o outro lado do riacho, cortou um ramo de uma árvore próxima, firmou uma das extremas no leito pedregoso do ribeiro, agarrou-se à outra ponta, e deu um salto para a banda de lá.
Mas o ramo que o ganapo escolheu era de sabugueiro; por isso, partiu sob o peso e lá vai o moço estatelar-se bem no meio da água! Um pastor, que por acaso ali andava com as ovelhas, viu o tombo, assustou-se, gritou e acudiu, a correr, alvoraçado, à margem.
O fedelho, mesmo que assarapolhado do boléu, entre duas esbraçadelas e outros tantos tropeços, bem depressa se chegou até junto ao pai que, sobre duas pedras, o esperava, mais ou menos sossegado.
– O ti’Luís amestrou bem o cachopo, – disse o pastor – mas esqueceu-se de lhe ensinar que é preciso ver o pau por dentro, antes de confiar nele; se ele tivesse tento nisso e visse a medula do sabugueiro, sabia que a casca é bem endromineira! – rematou, o pastor, a rir.
– Ná! Olha qu’isso é um engalho, ‘Fredo!… – arengou o homem, enquanto guardava no colete a caixa de rapé –  Eu já lhe agucei os olhos e já lhe medi o alento. Ná preciso de fazer mai nada para o deixar ir na vida, ná senhôre!. A desconfiar, isso vai ele aprender com os outros!…’, atirou-lhe o ti’Luís enquanto dava um toque à burra para lhe acenar que era hora de tornar a casa…

13 comentários sobre “o moço do ti’Luís

  1. Olinda Melo 14 Fevereiro, 2019 / 19:43

    Um belo conto, caro Jorge, como sempre.
    Hoje com mais palavras daquelas saborosas que só percebo pelo contexto ou nem isso.
    Vejo também como a intenção do que se diz poderá ser interpretada de várias maneiras, ficando bem longe da inicial.
    Grande abraço.
    Olinda

    • jorgesteves 16 Fevereiro, 2019 / 19:48

      Satisfaz-me que tenha gostado. Sim, pode haver uma ou outra perspectiva para a mesma história.
      (afinal como em tudo: a mesma coisa pode ser vista como se de um caleidoscópio se tratasse)
      Abraço, amiga.
      jorge

  2. Nuno Ribeiro 10 Fevereiro, 2019 / 12:53

    Estou de acordo com os meus antecessores aqui nos comentários, sim, é como ler o Mestre Aquilino. Neste seu belíssimo conto – ou será uma lição de vida? – fica-me a dúvida se a fotografia é criada para o conto ou é ao contrário. É que com aqueles bonecos, espantalhos?, é muito mais difícil arranjar. Um grande abraço.
    Nuno

    • jorgesteves 16 Fevereiro, 2019 / 19:44

      Não exagere, amigo Nuno! Estes, aqui em baixo, a vista turva-se-lhes pela muita amizade. Agradeço.
      A história, francamente, não é uma coisa nem outra. Quando olhei, um pouco mais demoradamente a fotografia que havia feito, a história surgiu, como se já estivesse plasmada na própria fotografia. Sim, são espantalhos (eram dezenas, numa iniciativa que, infelizmente, morreu nesse ano).
      Abraço.
      jorge

  3. Bartolomeu Fernandes 9 Fevereiro, 2019 / 19:28

    Mesmo que tenha chegado atrasado para dizer o que dizem os dois comentários abaixo, ainda venho muito a tempo para te dizer que não sejas casmurro, publica o livro!
    Vais ao almoço da Base?
    Abraço

    • jorgesteves 16 Fevereiro, 2019 / 19:40

      Tu és um maganão, meu caro! Já sei que querias ser o editor…
      Não, não vou; estive lá há dois anos e, francamente, só encontrei velhos!
      Abraço, companheiro.
      jorge

  4. Justine 9 Fevereiro, 2019 / 11:01

    Linda, bem escrita e com moral, esta história!
    O estilo, sempre a recordar-me o nosso Aquilino – como ele, sempre a ensinares-me os regionalismos tão ricos!
    Para quando o livro, amigo? para quando?

    • jorgesteves 16 Fevereiro, 2019 / 19:36

      Sempre disse que és uma exagerada, Justine! Posso, aqui ou ali, dar-te a saber um ou outro regionalismo; mas… como ele?! Não pode!
      Mas agradeço-te. O livro? Bom, o livro talvez daqui a uns (muitos) anos…
      Abraço.
      jorge

  5. Susana 6 Fevereiro, 2019 / 12:31

    Há muito que não lia algumas das expressões deste belissimo conto, Jorge. È mais uma ‘acha’ para a convicção de me parecer estar a ler o Malhadinhas. Obrigado, amigo.

    • jorgesteves 16 Fevereiro, 2019 / 19:33

      Mas só parece, só pode parecer!…
      De qualquer modo ainda bem que é mais uma acha para a sua satisfação.
      Abraço.
      jorge

  6. teresa bonito 5 Fevereiro, 2019 / 20:02

    Sempre ricos estes textos que por cá vais espalhando. Este pareceu-me conhecido, que já to tinha lido; mas devo estar a sonhar.
    Abraço.

    • jorgesteves 16 Fevereiro, 2019 / 19:31

      Leste, sim, embora que já tenha sido nos idos tempos do Folhas da Gaveta.
      Abraço, minha amiga.
      jorge

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