o saco das perguntas

O pai vai a conduzir e as suas filhas, de 5 e 7 anos, perguntam-lhe continuamente do banco traseiro ‘Algum dia puseste uma luz vermelha na piza?’, ‘Alguma vez puseste flores na piza?’, ‘Já comeste gelado com piza?’, ‘Experimentaste comer uma piza, sentado no passeio, encostado à parede?’, ‘E comer uma piza sem usar as mãos?’
Quando as miúdas se cansam de fazer perguntas sobre a piza, passam a apontar para as pessoas e a perguntar ‘Aonde é que vai aquela senhora?’, ‘Porque é que aquele homem saiu do carro?’, ‘Onde mora aquele rapaz que vai a correr?’.
Este é o Vasco, um patusco que pensava ir sobreviver à fase mais difícil da paternidade quando os filhos parassem de perguntar ‘porquê?’, depois de cada frase que dissessem.
Lembro-me que a coisa era mais ou menos assim:
– Vamos por ali.
-Porquê?
– Para ir comprar pão.
– Porquê?
– Porque temos de comer.
– Porquê?
– Porque é preciso comer se queremos viver. A vida é uma coisa boa.
– Porquê?
Um nunca mais acabar. Uma vez consegui ir à criação do Universo em apenas quatro ‘porquês’. Quando a conversa chegou ao delírio optimista do Vasco, arrefeci-lhe o arrebatamento:
Estou convencido que vais a pique quando chegares à fase do ‘e se?’ – deixei-lhe cair a voz em tom de agasalho.
E se?… – franziu o sobrolho, como quem vê o morto mas não enxerga a faca na mão do vizinho.
‘E se uma grande nave aterrasse no telhado e te levassem?’, ‘E se fizessem experiências com os teus órgãos?’, ‘E se abrisses a porta do quarto de banho e o mar entrasse?’, ‘E se a polícia proibisse as pessoas de comer saladas?’, ‘E se começassem a sair da televisão pessoas pequeninas?’, ‘E se os homens tivessem de trazer gravatas de vidro com um peixinho vermelho lá dentro?’ E se, e se…
Suspeito que por mais difíceis que sejam essas perguntas, não são nada comparadas com o que vem a seguir.
O Alberto é meu amigo há longos anos. Um dia, teria a filha quinze anos, perguntou ao pai ‘Como é saberes que só tens umas poucas décadas para viver e que, por isso, nunca conseguirás alcançar todos os teus objectivos?’.

Bom, o ideal seria ficar nas perguntas sobre a piza. Acho eu.

9 comentários sobre “o saco das perguntas

  1. Justine 29 Novembro, 2019 / 15:32

    E se tu agarrasses no teu grande talento, o colocasses dentro de ânforas e o espalhasses pelos ares, para que todos nós pudéssemos aproveitar um pouquinho??
    Texto excelente, amigo

    • jorgesteves 15 Dezembro, 2019 / 18:34

      Uma excelente e poética ideia! Como se faz isso? Explicas-me?
      Sei que sabes.
      Abraço.
      jorge

  2. Bartolomeu Fernandes 22 Novembro, 2019 / 15:53

    És um artista! A maneira como dás a volta ao texto!
    Sei bem onde foste buscar os ‘ses’…
    Abraço.

  3. Elvira Carvalho 17 Novembro, 2019 / 21:50

    É assim com todos nós suponho eu. Não me lembro se fazia semelhantes perguntas, mas lembro-me das do meu filho e da minha primeira neta. A segunda nasceu em Agosto ainda não faz perguntas.
    Abraço e uma boa semana

    • jorgesteves 15 Dezembro, 2019 / 18:30

      É a inevitável descoberta do mundo para o qual se nasce, claro!
      Aproveito, especialmente para a minha amiga, desejar com muita esperança de que o novo ano se transforma numa merecida dádiva ao sofrimento que este lhe infligiu.
      Abraço.
      jorge

  4. tb 17 Novembro, 2019 / 18:38

    O ideal seria. Mas a vida nem sempre é ideal. 🙂
    Gostei de ler porque é mesmo assim.
    Abraço!

    • jorgesteves 15 Dezembro, 2019 / 18:26

      Esse ser e não saber se pode ser é que dá paladar à Vida, não será?
      Abraço.
      jorge

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