presépio de lata

O dia morrinhento ainda ajudou mais à guça da noite, que chegou bem cedo enrodilhada num espesso manto de frio que era de resfriar o osso mais escondido. A rua da vila estava deserta e o casario apenas se deixava adivinhar para lá da poalha amarelada que envolvia os poucos iluminados candeeiros públicos.
O posto da Guarda ficava no fundo da rua, mesmo em frente à loja de electrodomésticos do senhor Fonseca. O Mesquita e o Andrade eram os guardas que, nesta noite de Consoada, tiveram o calhas de aguentar a pastilha do piquete.
A escolha tinha sido do tenente e, por isso, não adiantava armar ao pingarelho, que o fajardo não era para folguedos…

A coisa era má mais pelo desconforto e a chatice, do que pela lonjura do aconchego da casa, já que ali na vila raramente havia foleirices muito complicadas. Bom, isso tirando ainda há nanico de tempo atrás quando foi preciso ir buscar a senhora Ermelinda a casa para evitar outra sarrabulhada com o homem dela. O trastalhão volta e meia mete-se na copofonia e quando chega a casa, como vem focinhudo, à mais pequena coisa desata à lambada na pobre mulher. Por via disso é que ela vai passar a noite ali na cela; amanhã, quando voltar a casa, as coisas já estão mais limpas para o grosseirote. É o costume…
Daqui a pouco, um dos guardas vai à tasca, ali à rua dos Arcos, buscar a janta e pronto, passa-se assim a noite.
Enquanto o Mesquita dá mais um jeito à antena da televisão, o Andrade vai pondo mais umas cavacas na salamandra que o regelo não dá tréguas pelas frinchas das janelas e por baixo da porta…
Não tarda nada também deve aparecer por aí o Nelson. O Nelson é um gajo da criação do Mesquita e são os dois cá da terra; só o Andrade é que é duma parvalheira dos lados de Chaves.
Mas, dizia eu, o Nelson quando veio do Ultramar não vinha bem atinado da mona e por uma ou duas vezes chegou a arriar a giga no trabalho. A coisa descambou, ficou sem trabalho e como a velhota entretanto morreu, o desgraçado agora anda por aí aos caídos. Hoje de manhã o Mesquita apanhou-o a dormir nuns cartões na soleira da porta do mercado, e lá o convenceu a vir para aqui comer uma sopa e passar a noite.

O arroz de bacalhau estava bom, das iscas nem o rasto sobrou e o tintol ia acabando à mistura com as últimas côdeas da broa. Os quatro, sentados em volta da secretária, arredada dos papéis e improvisada de mesa, pouco falavam. A salamandra esforçava-se, mas o taró tinha mais força. A verdade é que também nenhum deles tinha vontade de festejar fosse o que fosse; nem de se mexer daquela modorra que ia fingindo calor.
O telefone toca e devolve a realidade ao posto.
O Andrade escuta, solta um ou dois monossílabos que ninguém entende, põe uma cara aferroada e amanda uma bojarda das antigas.
Que raio de trinta-e-um nos saiu na rifa, começa a explicar aos outros, depois de desligar o telefone. Que não-sei-quem ia a passar na praça e que ouviu umas basqueirices no jardim e que foi dar uma espreitadela. Depois, diz ele, junto a um banco estava uma caixa de papelão que fazia uns barulhos. Bom, que teve caguefes mas foi espreitar. E então, agora telefona a dizer para lá irmos depressa que na caixa está um catraio recém-nascido!
Que grande gaita!, remata num grunhido.

A noite vai-se estendendo pela madrugada.
O Mesquita cabeceia junto à secretária enquanto o Andrade aproveita o que resta das achas para alimentar o lume já fracote, na salamandra.
O Nelson e a senhora Ermelinda, sentados na tarimba da cela, dormitam, um para cada lado, encostados à parede. Entre eles, embrulhado numa manta, uma criança finalmente repousa aconchegada com o sabor de um leite arranjado à pressa, uns afagos de mãos calejadas e um cobertor enrolado de cuidados. Logo pela matina o tenente que o leve para o hospital.
O Andrade liga a telefonia, esfrega as mãos e espreita pela janela os rasgos da madrugada.
No rádio o Rui Veloso canta o Presépio de lata

9 comentários sobre “presépio de lata

  1. tb 29 Janeiro, 2020 / 17:05

    Parece mentira como passei tanto tempo sem vir aqui ler-te. Outros afazeres me retiveram.
    Sabes do apreço que tenho pelos teus escritos, meu amigo.
    Gostei muito deste conto de Natal tão comum a tanto dos mortais.
    Beijo.

  2. Justine 30 Dezembro, 2019 / 15:39

    Uma belíssima, sensível, natural e verdadeira história de natal, longe das luzes pisca-pisca e das árvores de plástico que tanto me irritam. Diria que descreveste um presépio muito original!!!!!
    Abraços, meu amigo

  3. Marcela Quelhas 26 Dezembro, 2019 / 10:38

    Senti-me levada no tempo para a minha adolescência junto à lareira a ler Júlio Dinis ou o Garrett. Um prazer ler-te, Jore.
    Um ano muito bom para ti, meu querido amigo.

  4. manuela 19 Dezembro, 2019 / 16:07

    Gostei muito, Jorge. A realidade de muitos descrita de maneira muito sensível.
    E aproveito para desejar que o teu Natal seja do teu agrado.
    Um abraço

    • jorgesteves 29 Dezembro, 2019 / 16:28

      Sabes do apreço pelas tuas palavras. Obrigado.
      Um novo ano bem de acordo com os teus desejos, amiga.
      Abraço.
      jorge

  5. Susana 16 Dezembro, 2019 / 13:04

    Uma história de Natal feita com um retrato cheio da nossa ruralidade. Encantei-me Jorge.
    Beijos e um Santo Natal.

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