Rei de Copas

O romance dinástico dos falsos D. Sebastião tem dado azo a que muito se fale e escreva sobre essas personagens que, entre o fado e o saudosismo do Velho do Restelo, se alimenta(ra)m do inconfessado anseio popular pela vinda de um Desejado, sempre que a alma dói e o peito esmorece à fatalidade com que a neblina envolve a realidade que vai passando, mas que…

No espólio de uma parte do Arquivo da Congregação do Oratório, entre alguns papéis judiciais que pertenceram a Diogo António Palmeiro Pinto, doutor de leis e Provedor do Concelho de Estremoz, nos idos de 1835, havia um documento, escrito com pouca apurada caligrafia, onde se relata e ilustra mais um caso, a saber porventura o último, da história Sebástica, já de si tão rica desde os tempos dos reis de Penamacor e da Ericeira, entre outros. No opúsculo pode ver-se a gravura, de inspiração popular, aberta a água-forte por gravador desconhecido e que retrata primorosamente o fulcro do episódio que tanto agitou os espíritos de 1813 com o aparecimento de um tal António José Dias de Aguiar a personificar (mais uma!…) a memória do Sebastianismo na iconografia da gente lusa.
Mas vamos à transcrição do documento:

Em 18 de Agosto de 1813 pela hua hora da tarde foi apresentado no quartel do Largo do Carmo por hum furriel de Infantaria hum homem vestido de maneira seguinte. Trazia na cabeça hum barrete de velludo preto à moda dos Gregos com huma borla de retroz preto e orlado de fita verde larga emfuscada e em bicos de modo de corôa. Huma vestidura também à grega de pano escarlate finíssimo que o cobria do pescoço até aos artelhos, com lamares pretos de retroz e huma tira bordada por diante também preta, meias mangas tambem bordadas aparecendo-lhe os antebraços com manguitos de veludo preto. Só na mão direita trazia luva de cazemira côr de carne e pendente do pulso por huma fita azul clara huma bolcinha verde aonde tinha huma pedra preta que elle dizia preciosíssima. Trazia lenço de seda preta no pescoço colete de cazemira amarella calças de pano alvaiado até aos pés com galão de ouro e vivos escarlates nas costuras lateraes e chinellas com laços de fita preta, tudo novo e rico. (…)
(…) Nomes e signaes.
António J.e Dias de Aguiar, idade 28 an.s altura 61 pol. cabelos e olhos m.to pretos trig.ro entressêco suissa somente até a ponta da orelha bigóde pouco crescido porem m.to cerrado n.al da Freg.a de S. Pedro ter.o de Trancoso.

Perguntando q.m era e em que se ocupava disse q. antes hera aquelle sugeito cujo nome tinha dito já e q. até á idade de 21 annos fôra Caixeiro de seu Thio o Negociante J.e Nunes de Aguiar, porem q. ha seis annos e meio começou a ter revelaçoens e q. agora he Seb.am Rey, mandado por Deos e por elle escolhido para governar em o mesmo nome daquelle q. morreo Martir na Africa o q. elle tem andado encuberto todo este tempo esperando a ocazião de se patentear aos olhos dos homens antes q. se acabe o mundo q. está quazi quazi.
Perguntando o que tinha feito e q. motivo dera para alli ser conduzido disse que primeiramente fora aprezentar-se ao Prior de S. Vicente de Fóra e depois a S. Domingos, á Misericordia e á Sé aonde leu depois da missa Conventual a nomeação que Deos lhe inspirára para ser Regente o que mostrava attestado e confirmado por elle mesmo com huma verba escrita da sua mão com o seu sangue proprio em lugar de tinta para mais firmeza da sua palavra.
Foi remettido perante o Intend.e G. da Policia q. o mandou para o Limoeiro á sua ordem.
Lisboa, Q.el G.N. da Policia

…nunca será suficiente para furtar ao coração e ao imaginário do povo, a lembrança dessa morte, tão inglória, do ruivo Desejado, caído em qualquer lugar dos areais africanos, quem sabe?, piedosamente encoberto pela bruma da manhã.