São Martinho em verso

Saia vinho aqui p’rá mesa e vamos ao fado! -reclama um- É preciso dar pagode ao São Martinho!…
Ó Xico!, saia uma bem puxada! – gritou o Zé peixeiro, emborcando mais meio quartilho.

Uma cantiga!, mais uma!… –vai em coro toda a taberna.
Uns acordes de guitarra chama ao silêncio os fregueses do Ti’Manel, homens e mulheres juntam-se e ajeitam poses à volta do Xico que, revira os olhos cheios de vinho e paixão e assim se atira aos versos, olhando a Rosa do seu coração:

Lembras-te tu, meu benzinho,
Ah! Quando eu cantava o fado?…
Lá nas tasca do Córado
choviam copos de vinho.
Foi no dia de São Martinho…
Quão todos se divertiram!
Ai! Como ainda hoje se admiram
daquelas nossas façanhas!…
‘Stavas tu àssar castanhas
quando os meus olhos te viram.

Meia, sapato de laço,
cinta, barrete encarnado,
banza (1) debaixo do braço
sempre na tasca encaixado.

Foi ali junto a teu lado
que bom tempo se passou:
depois que a tasca fechou
entrei a ter-te amizade;
vendo a tua lealdade
minha alma presa ficou.

Quando nós fomos às hortas
passeámos todo o dia;
à noite ao passar das portas
me pré’curaram p’la guia (2).
Com a piela que trazia
eu vinha trocando os passos:
fiz a banzara (1) em pedaços;
e no fim da brincadeira
fui cozer a bebedeira
na cadeia dos teus braços.

E quando c’um matacão (3)
dei naquela gajo à Esp’rança?…

Tu para arranjares fiança
te viste em passo de cão.
Vendeste o teu cordão;
teu capote se empenhou;
e se livre e solto estou
a ti devo um tal favor:
e à vista de tanto amor
minha alma presa ficou.”

(1) – Banza ou banzara: termo popular para guitarra
(2) – a licença, a guia de identificação para entrar na cidade
(3) – pedra solta do chão

14 comentários sobre “São Martinho em verso

  1. APC 15 Novembro, 2007 / 20:19

    Este comentário foi removido pelo autor.

  2. APC 15 Novembro, 2007 / 20:19

    Do que acabei de me lembrar:

    Ai Agostinho! Ai Agostinha!
    Que rico vinho. Mais uma pinguinha
    Este país é um colosso
    Está tudo grosso! Está tudo grosso!

    Ai Agostinho! Ai Agostinha!
    Que rico vinho. Mais uma pinguinha
    Este país perdeu o tino
    A armar ao fino! A armar ao fino!
    Isto é que vai uma crise
    À esquerda!
    Isto é que vai uma crise
    À direita!
    Isto é que vai uma crise
    Prá gente!

    (Camilo de Oliveira e Ivone Silva, de quem me lembro imensas vezes).

  3. Maria 13 Novembro, 2007 / 19:11

    Foi bom ter-te lido, e (re)visto este quadro tão meu conhecido, de um homem da minha terra…
    Obrigada.

  4. pin gente 13 Novembro, 2007 / 11:44

    gostei de ler a cantiga
    tanto de amigo e de amor
    com muito vinho à mistura
    sempre lhe dá mais calor

    a rosa era bem amada
    no farrusco da castanha
    se estamos no s. martinho
    mais beleza a rima ganha

    salvou seu amor da pena
    por amor foi de certeza
    se menos ourada ficou
    o coração mostrou beleza

    um abraço
    luísa

  5. Ana Ramon 12 Novembro, 2007 / 16:27

    Mas que alegre S. Martinho se festejou por aqui. Ainda se sente no ar farrapitos melodiosos do fado meio rouco pela acção do tintol e da emoção.
    :)))))))))))))
    Um grande abraço

  6. un dress 12 Novembro, 2007 / 12:41

    entre a memória e a frescura das minúsculas gotas
    /sobre as pequenas folhas que restam verdes…

  7. bettips 12 Novembro, 2007 / 02:48

    Mais uma prosa/verso/pintura que se lêem com o prazer fresco dos olhares novos! Abç

  8. justine 11 Novembro, 2007 / 18:59

    Pois este Senhor Jose eh talvez o meu conterraneo mais conhecido, e com todo o merito(estou longe, a escrever num computador dum pais onde se fala uma lingua sem acentos…)
    Vivoh Sao Martinho, festejado seja ond for

  9. Jardineira aprendiz 11 Novembro, 2007 / 14:56

    Eu já disse que sempre adoro a música por estes lados?! Acho que já, mas também nunca é demais.

  10. Frioleiras 10 Novembro, 2007 / 21:38

    Quando era pequena , vivia no Fundão…
    Cujo padroeiro era S.Martinho…
    Memórias lindas, numa terra que, então era bela, duma serra (Gardunha) que, então, era uma delícia.
    Era feriado dia 11 e quase TODA a gente comemorava com castanhas e jeropiga, nesses dias de “verão de S Martinho”.
    Que saudades eu tenho desse “então”…
    dessas castanhas assadas ou cozidas,
    dessas comemorações caseiras ou com amigos dos meus pais…
    agora, época de globalização, tudo é igual em todo o lado e os rituais já não são rituais são … hábitos!

  11. Outonodesconhecido 10 Novembro, 2007 / 17:23

    Amanhã é dia de S. MArtinho. è smepre bom reelmbras as histórias. Quanto ao comentário do outonodesconhecido. Esperemso que a terra emende o erro…

  12. Afrodite 10 Novembro, 2007 / 16:44

    Pensei que este ano não festejaria o São Martinho. Um net point fez toda a diferença. Trouxe-me aqui, a ti. Que bem que me soube.
    Até breve
    (A Parvinha manda-te também um abraço)

  13. Bichodeconta 10 Novembro, 2007 / 16:00

    O QUDRO DISPENSA APRESENTAÇÕES, É MALHOA, ESTÁ TUDO DITO. AS PALAVRAS QUE O ACOMPANHAM FAZEM PARTE DO QUE JÁ NOS HABITUAMOS A VIR AQUI BEBER… SABEDORIA E ENCANTO..UM ABRAÇO, E O DESEJO DE BOA SEMANA.

(actualmente os comentários estão encerrados)