sem dizer água vai…

Razoavelmente conhecida e ainda bastante utilizada, esta expressão, para muita gente, terá uma origem misteriosa. De facto, desapareceu há muito tempo, dos nossos costumes, o acto quotidiano que lhe deu origem. Ao usarmo-la, hoje, com o sentido de sem dar explicações ou desculpas, sem aviso prévio, ignoramos comummente que ela radica na locução interjectiva, Água vai!, ouvida em tempos idos, nas cidades, especialmente em Lisboa e Porto, quando os habitantes lançavam das janelas ou das varandas, para as ruas, as águas sujas e os dejectos. Ainda não havia esgotos, casas de banho e, muito menos, canalizações. Lançava-se tudo na via pública; mas avisava-se, primeiro, os transeuntes que lá vai água. Nem sempre, porém, o aviso se fazia e daí que, sem dizer água vai, frequentemente os passantes eram atingidos por um lançamento de águas infectas! E nem pelo facto de alguns municípios terem decretado posturas que obrigavam ao grito avisador, sujeitando os faltosos a multas, se cumpria, rigorosamente o ditame que teve, naturalmente, o seu termo quando se começaram a instalar os melhoramentos sanitários.
Virá a propósito um excerto do livro Lisboa Velha, de Sousa Bastos, que diz:
Na época a que me tenho referido, as ruas de Lisboa eram uma verdadeira imundície; mal calçadas, cheias de poças de água suja e cobertas de quantas podridões atiravam das janelas. De uma varanda para a outra passavam cordas onde penduravam roupa a enxugar, pingando sobre quem passava. De noite, à saída dos teatros, é que as ruas se varriam. Sufocava-se com a poeira portadora de toda a espécie de micróbios, porque os varredores, ou, como se lhes chamava, escrivães de pena grande, com as suas grandes vassouras deslocavam, de um lado para o outro, as imundícies, não poupando as pernas, os fatos ou os pulmões de quem passava. De manhã, prolongando-se até tarde, saíam as desconjuntadas carroças do lixo, sem tampo nem resguardo algum, levando o condutor uma campainha, que ia sempre tocando, com um som igual àquele com que nesse tempo os miseráveis eram conduzidos ao cemitério para ficar na vala rasa. A carroça parava em frente de todas as escadas para receber o resto que continham os asquerosos caixotes e barris, estando a maior parte das podridões já espalhadas, nas escadas e nos passeios, pelos cães e pelos trapeiros que disso viviam. Poucos encanamentos havia nas ruas e a maioria dos prédios, se tinha pias de despejo, era nas escadas. Grande número de habitantes mandava, ainda de 1840 a 1860, as criadas e as pretas de serviço vazar nas praias grandes tigelas da casa com os detritos, que se espalhavam pelo caminho. E ainda as famílias que tal faziam eram as mais limpas, porque muitas havia que tudo deitavam da janela abaixo. Depois de certa hora era perigosíssimo então atravessar as ruas de Lisboa, pois que, ainda mal se ouvia gritar água vai, já o desgraçado do transeunte ficava encharcado com essa água, na verdade, bem malcheirosa!.

Outros tempos, é verdade, mas ainda se faz muita sarapieira sem dizer água vai

 

 

 

 

(de água mansa me livre Deus, que da brava me livrarei eu)

12 comentários sobre “sem dizer água vai…

  1. elvira carvalho 27 Novembro, 2007 / 13:40

    Vim agradecer a sua visita ao meu cantinho e conhecer o seu espaço. Não vim mais cedo porque o pc esteve avariado. Li este seu texto e gostei imenso. Na minha terra não temos muito o hávito de dizer “sem água vai” É mais “sem dar cavaco” embora eu não saiba donde vem essa frase.
    Vou voltar por aqui. Agradou-me demais o seu espaço.
    Um abraço

  2. Sophiamar 27 Novembro, 2007 / 00:29

    Passei para ler linha a linha, na horizontal e saio de mansinho mas com um sorriso. Sem �gua-vai mas com beijinhossss

  3. Rita Lemos 26 Novembro, 2007 / 23:17

    Já a sabia, a expressão, e por “defeito” profissional conhecia também a imundície que caracterizava as Cidades. Mas ainda hoje elas, as cidades, são dos locais piores e mais poluídos para viver, tudo porque não sabemos aproveitar os Arquitetos Ribeiro Telles que temos por aí.

    Abraço

  4. Meg 26 Novembro, 2007 / 18:45

    Ah… esta eu conhecia! Mas não devia surtir um efeito por aí além, a menos que o compasso de espera desse para tomar as devidas precauções.
    E pensar como se vivia nesses tempos, até parece mentira…

    Um abraço

  5. APC 26 Novembro, 2007 / 01:48

    Este comentário foi removido pelo autor.

  6. APC 26 Novembro, 2007 / 01:48

    Muito, muito interessante, esta memória de como era a vida das pessoas sem as estruturas de saneamento básico e demais condições sanitárias que hoje conhecemos. Estamos a falar de século e meio de distância, mais coisa, menos coisa!…
    Cenários que evidenciem uma tal precaridade de higiene pública, só os vi na ficção (obviamente, não há imagens da época), e relativos a outras capitais, como Londres (e.g. Jack, o Estripador – 1888) e Paris (e.g. o Perfume, de Süskind, mas é antes: séc. XVIII) – esses, os que me vieram agora à memória. Pelo que, adorei os trechos de “Lisboa Velha” que seleccionaste para nós (acho que vou apanhar essa obra e devorá-la por inteiro!).
    E aqui está como, sem nem dizeres “água vai”, nos atiraste com mais esta magnífica edição, de bem lembrada e escrita; uma maravilha de se ler!
    Largo um abraço, sem pré-aviso! 🙂

  7. velha gaiteira 25 Novembro, 2007 / 21:37

    a tua sabedoria dá-e segurança!

  8. São 25 Novembro, 2007 / 20:19

    Os-dias-qualquer-coisa também não me agradam, mas aproveitê-mo-los…
    Ainda está a tempo (sempre se está a tempo!)de colocar no seu blog
    ABAIXO A VIOLÊNCIA DE GÉNERO: HUMANIDADE NÃO TEM SEXO!!
    Saudações!

  9. Maria Laura 25 Novembro, 2007 / 18:46

    Apesar de já saber a origem da expressão, li o texto e sinceramente fiquei para aqui a imaginar como seriam as cidades dessas épocas. E quantas exitem ainda hoje, mais ou menos assim.

  10. un dress 25 Novembro, 2007 / 18:19

    …e às vezes quando te apercebes da água infecta que te despejaram…
    já é tarde!!! 😉
    abraÇo

  11. Justine 25 Novembro, 2007 / 15:57

    Poucas expressões antigas são tão actuais como esta do “nem água vai”, isto no seu sentido metafórico. No sentido literal, a descrição de Sousa Bastos da Lisboa do séc.XIX podia ser a descrição do que encontrei, agora, há dois anos,em S.Tomé e Principe.
    É lamentável, 2 séculos depois…

  12. Sophiamar 25 Novembro, 2007 / 10:54

    Não te li por inteiro só porque estou mesmo, mesmo de saída mas, olha que tenho muito gosto em ler-te. Este água-vai de tempos bem remotos adaptou-se, de facto, aos tempos modernos e à educação que grassa por aí. É que hoje apanhamos com tudo em cima e nem o água-vai já se diz.
    Tive muito gosto na tua visita. Tenho sempre. E vai aparecendo. Sabes que a dália é a flor que escolhi para me identificar. Está lá, no canto superior direito do meu blogue. Há Dálias que por mais que o tempo o queira nunca as deixamos perecer.
    A ti, deixo-te beijos e desejo-te um bom domingo.

(actualmente os comentários estão encerrados)