sapateiro, não vás além do chinelo!

Até tempos bem fundos da Idade Média, ser sapateiro era, genericamente, sinónimo de desajeitado, achamboirado, bronco, mas também inábil, idiota, deselegante e inconveniente. Em qualquer trabalho, conversa ou situação.
Este epíteto teria origem no canhestro que conserta, mal, o calçado, substituindo-se ao verdadeiro profissional? Ou será que a origem está na história do sapateiro que se deu ares de saber e se pôs a criticar um quadro de Apeles?
Narra a crónica de Plínio, o Velho, que Apeles, um dos maiores da Antiguidade, um dia, à sua porta, expôs um dos seus quadros, com a ideia de ouvir a opinião de quem passava. Escondido atrás da tela, ouviu o sapateiro que notou um defeito na sandália de uma das figuras principais do quadro. Apeles apressou-se a emendar o erro, mas, no dia seguinte, voltou o sapateiro que, ao ver o erro da sandália emendado, logo achou mais erros, agora numa perna, num braço ou nas vestes daquela figura e, depois, em outras.
O mestre apareceu-lhe e, sorrindo, terá dito ‘Sutor ne supra crepidam’, ou seja, não suba o sapateiro além da chinela.
É possível, aventam alguns cronistas, que Apeles apenas tivesse dito É um sapateiro, referindo-se ao improvisado e néscio critico. De uma ou de outra forma, o sentido não se altera, classificando assim os maus ou imperfeitos artífices, mas, também, por extrapolação, os que se metem por caminhos ou a falar do que não sabem.
Como, por exemplo, pôr-se o sapateiro de Apeles a tocar rabecão: Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão!…

 

 

 

(quem é só sapateiro, não toque rabecão)

 

3 comentários sobre “sapateiro, não vás além do chinelo!

  1. Maria Clarinda 24 Junho, 2007 / 17:42

    Excelente e a imagem veio ainda iluminar mais…
    Jinhos

  2. Cerejinha 22 Junho, 2007 / 22:18

    Esta é uma expressão idiomática elaborada…
    Eu sou uma mocinha mais simples…
    😉

  3. Anónimo 22 Junho, 2007 / 08:24

    Contaram-me essa estória minha Avó e minha Mãe, como tantas outras. E eu “adorava”!!!
    Desde que me lembro, o que mais ansiei, foi ouvir estórias e aprender a ler depressa, para poder ser eu a lê-las, muitas vezes.
    E um dos primeiros cheiros que amei, para dos da Natureza (criatura do campo, que sempre fui)foi o cheiro dos livros; e ainda hoje, antes de os ler, cheiro e toco com a boca, como faço com as flores (principalmente as rosas) a saber-lhes o aroma e o gosto!
    Um abraço
    Maria Mamede

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