pelas ruas da amargura

Quem anda pelas ruas da amargura, com certeza que palmilhará um trilho tortuoso, aflitivo e difícil; será a rota de quem tem uma vivência penosa e atribulada.
A origem poderá ter várias interpretações. A mais vulgarizada alude à Via Sacra, o caminho de Cristo até ao Gólgota: torturado e aviltado, Jesus teria percorrido, literalmente, as ruas da amargura.

Outra hipótese admissível leva-nos até ao século XVIII, quando era uso de a justiça fazer os condenados caminhar pelas ruas, submetendo-os aos escárnios da populaça; o castigo tornava-se ainda mais vexante por causa dos trajes (sambenitos) que vestiam.

 

 

 

(todos os caminhos vão dar à ponte, quando o rio não tem nenhuma)

em palpos de aranha

 

 

Ver-se em papos de aranha, como se sabe, é estar num aperto, numa posição embaraçosa, periclitante, enfim, estar à rasca.
E tudo isto seria pacificamente consensual não fora o etimologista Gonçalves Viana, no seu Apostilas aos Dicionários Portugueses, vir atiçar o fogo considerando inadmissível o que parecia ser um ajuste razoável para este adágio.
Ora vejamos: as aranhas não têm papo; mas têm palpos (dois apêndices articulados e móveis situados, aos lados da boca, nos insectos e crustáceos), do latim palpum, que significa afagar ou apalpar. Argumenta Gonçalves Viana, que substituir palpo por papo não é admissível dado que a própria essência de anexim, não poderia conter nele palavras que não o sejam (referia-se ao vocábulo latino palpum).
Óbvio que o axioma está deturpado, mas não me parece merecedor de palmatória.
Vejamos: papo faz parte do léxico português, (até onde eu tenha visto) há mais de três séculos. Então, isso sim, qual a correlação entre o papo (que o aranhuço não tem) e ver-se atrapalhado, aflito ou desorientado sem saber como sair de um atoleiro? Não há, claramente. Naturalmente que será bem mais curial aceitar o desespero da mosca, presa na cilada da teia, ver-se em desespero ao ser apalpada pelos palpos da aranha, que vai assim apreciando o seu próximo manjar.

Explicado! Mas, a relação entre uma forma e outra, talvez esteja, simplesmente e apenas, através da transmissão tempo fora, na sincopação de uma letra – o l – do meio da palavra palpo e, desse modo, dizer-se comummente estar em papos de aranha, em vez de estar em palpos de aranha. É aceitável, sim!
E a dar-se o caso de a sentença ser tão antiga que venha do tempo em que os animais falavam?…
Porventura diria a aranha à mosca: estás no papo!

 

 

 

(a aranha vive do que tece)