(Costa da) Caparica

Em vez de uma, duas são as lendas que nos falam do tempo em que esta faixa do litoral sul do Tejo era muito pouco povoada. Existiriam apenas alguns pequenos casais, poucos, além de dois aglomerados, Monte, mais para o interior e cuja população se dedicava quase em exclusivo à agricultura e Costa, esta à beira-mar, e centro fundamentalmente piscatório. Ora, são estes os ingredientes que explicam a origem de Caparica
Nesse tempo, e conta uma dessas histórias, vivia, num casebre distante do povoado, uma mulher de quem ninguém nada sabia: do que vivia, se tinha família, amigos ou até mesmo conhecidos. O certo é que, todos os dias, a idosa fazia longas caminhadas na região e sempre envolta numa capa que impossibilitava qualquer percepção da sua fisionomia, num comportamento que suscitava as mais contraditórias opiniões, não faltando quem acreditasse que tal personagem se dedicava à prática de bruxarias e outras bizarrias. Acreditava-se ainda que, sob o longo e espesso manto, a velha guardava uma grande fortuna, em moedas de ouro, sendo, assim, uma capa rica. Numa Primavera, sentindo a vida no seu termo, a mulher fez saber ser sua vontade que, quando morresse, a sua capa fosse entregue ao rei de Portugal, para que, assim, ela fosse utilizada da melhor forma possível em prol das gentes locais. Logo a seguir à sua morte, a população satisfazendo a vontade à enigmática velha, entregou a capa a rei que, ao abri-la, se deparou com um belo e perfumado recheio de douradas flores de acácia, colhidas na zona onde hoje corresponde, de algum modo, entre a Trafaria e a Fonte da Telha. Ficou emocionado o monarca que, ali mesmo proclamou a riqueza simbólica daquela capa única, da capa rica, o que daria origem ao topónimo de Caparica, ordenando então a construção da Igreja de Nossa Senhora do Monte (da Caparica) e conferindo, assim, a toda a zona a designação de Caparica.
A outra lenda, essa, desenvolve-se à volta de um homem solitário, que vivia na praia, numa mísera cabana construída por ele próprio, e que se dedicava à pesca, o que ia garantindo o seu parco sustento. Quando o tempo não lhe permitia fazer-se ao mar, o homem ficava no areal, embrulhado numa velha capa a consertar as suas poucas redes. Um dia o homem morreu e soube-se, então, que deixara à aldeia a sua cabana e a sua capa, pedindo que com a venda da capa fosse ali construído um monumento ao pescador. E tantas eram as moedas de ouro que a capa do velho pescador guardava, que foi grande e majestoso o monumento ali construído, graças à capa rica do solitário homem.
Os estudiosos, porém, optam por admitir como mais provável que o topónimo advém do latim cappari ou capparis, com origem, por sua vez, no grego kapparis, que significa alcaparra, arbusto hortense. A exisitência, nesta zona, de mais topónimos de origem latina do que árabe, também faz admitir que a denominação Caparica provirá do Latim, ainda que na opinião de alguns autores, não seja de afastar a possibilidade, esta de origem árabe, de na raiz estar a expressão al-kabbara
Seja qual for o fundamento mais perto da verdadeira origem, isso não invalida que, na verdade, por ali se veja, pelo menos, uma costa da (capa rica)

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