esquerda, direita

Há uns dias, o amigo Tomás Coelho perguntava-me se o poderia ajudar no deslindar as origens da dicotomia esquerda, direita.
Se não acho saber para uma resposta exacta, experimentemos acertar alguns passos…

A origem da terminologia genérica de esquerda e direita não é consensual. Ao abordar a questão é comum dizer-se que as relações estabelecidas com ambos os lados aparecem na Revolução Francesa. É verdade que há várias referências e histórias sobre isso, mas o aparente vazio anterior não significa que tudo tenha começado aí. Por outro lado – convém não esquecer – outras hipóteses apontam para uma origem religiosa, mormente cristã. Parece-nos mais agizado conciliar alguns factos históricos e daí, sim, formular uma pista provável e coerente para a origem da(s) associações com esquerda e direita.
Comecemos a andar para trás, no tempo.
De todas as convulsões e dos mais relevantes factos dos séculos XIX e XX, é óbvio que o conceito esquerda e direita resultam, de modo directo e factual da Revolução Francesa, nos finais do século XVIII. É durante o consulado imperial de Napoleão Bonaparte, com os membros da Assembleia Nacional a dividirem-se entre partidários do rei sentados à direita e apoiantes da Revolução postados à esquerda. Curiosas algumas referências da época que asseguram a direita a opor-se à disposição dos assentos por defenderem que os deputados deveriam, antes de mais, apoiar e pugnar por causas gerais e não tomar a defesa de interesses particulares, de grupos ou mesmo de partidos políticos. Curioso…
A verdade é que, daí e ao longo de todo o tempo que se viria a seguir, esquerda e direita seriam usadas para referir lados opostos, contraditórios e, por isso, de conceitos e filosofias dissonantes, tão desiguais quanto antípodas.

Entretanto, mesmo que apenas como figura de estilo (ou de caricatura, como se queira…) virá a propósito lembrar o que disse, na altura, um dos deputados da Assembleia ‘Nós começamos a reconhecermo-nos uns aos outros: aqueles que eram leais à Religião e ao rei (imperador), ficavam sentados à direita, de modo a que pudessem ficar longe dos gritos, os juramentos e as indecências que tinham rédea livre no lado oposto‘. Pode parecer apenas semântica, mas não é.
A partir daí surgem as derivações e aglutinações, da esquerda à direita. Ou vice-versa para não ofender ninguém: centro, moderado, radical, ultra, inovador, democrata, social, liberal, conservador, republicano e por aí fora…
Recuemos mais ainda.
O coração do sábio se inclina para o lado direito, mas o do estulto para o da esquerda. Sentença de Eclesiastes (10:2). A tentação é pensarmos que os conceitos de esquerda e direita já eram assimilados na cultura da época. Mas se fizermos uma análise um tudo nada mais pausada e desapaixonada verificamos que este terceiro livro do Velho Testamento foi escrito no tempo de Salomão. Ora Salomão era rei. A monarquia era o regime mais comum entre os povos da época e, no caso, com características absolutas, onde o rei dispunha de um poder supremo muito afastado de quaisquer dúvidas ou hesitações do povo. Assim, qualquer conceito, político ou não, de direita ou esquerda, sequer passariam pela mente de Salomão. Ou outro que fosse rei.
É verdade que, no seu todo, a Bíblia faz referências à dicotomia esquerda e direita, sempre em desfavor da esquerda. Senta-te à minha direita, até eu colocar os teus inimigos debaixo dos teus pés (Mateus 22:44). O lado direito é referido mais de uma centena de vezes, enquanto a esquerda aparece apenas menos de três dezenas, e quase sempre de modo negativo.
Não se pode relativizar ou mesmo omitir essa importância, seja qual forma a forma como analisarmos os factos. Os escritos bíblicos nas suas presumíveis sugestões de que o lado (a mão) direito é divino, ou abençoado, tiveram consequências desastrosas desde sempre, especialmente na Idade Média. A esquerda (o lado ou a mão), durante a Inquisição, na Europa e mais tarde a Caça às Bruxas no continente americano, deu no que deu. Os resquícios ficariam até aos dias de hoje.
Mas haverá algum fundamento para que o conceito tenha a sua origem nos textos sagrados? Não creio. No seu Sermão aos Catecúmenos, Santo Agostinho afirma que no Céu é tudo a mão direita de Deus Pai, porque lá não há miséria (7:15).
Um Céu sem canhos só pode ser uma má notícia para o bigode do Ned Flandres, dos Simpson.
Onde, então, procurar a génese da querela esquerda e direita?
Talvez, hoje, seja ainda mais difícil: um estudo publicado em Fevereiro na revista eLife diz-nos que ao contrário do que se pensava, não é do córtex cerebral que derivam os movimentos de coordenação entre braços e mãos, mas sim da espinal medula. A investigação científica encontra um novo ponto de partida no momento decisivo de se formar o ser canhoto ou destro no feto.
A questão é essencial? É. Deparamo-nos com evidências todos os dias. Sendo assim, tão básica e simultaneamente tão primordial não deveria ter uma origem bem definida? Não sei, talvez…
Basicamente tudo me faz supor que durante a maior parte da história humana, o lado esquerdo e os que utilizam mais a mão desse lado, foram vítimas de preconceitos e segregações de toda a espécie. Os outros conceitos foram-lhe consequentes. Tenho isso como um facto inquestionável.
Há cerca de trezentos e cinquenta mil anos, os povos Neandertais europeus começaram a dar origem as populações ocidentais existentes. Nessa altura, os nómadas orientavam-se, à noite, pela Estrela Polar. Durante o dia, o Sol parecia movimentar-se da direita para esquerda. Assim, à direita estaria o lado nascente, que traz a vida e, à esquerda, o lado da mão que a tira, no poente.
Será assim tão simples?

(revisto e acrescentado sobre edição de Outubro, 2019)

 

 

 

(o caminho não tem prazo)

é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha…

É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino do Céu. Esta frase, embora referida por Mateus (19:21) é integrada na conversa de Jesus com o jovem rico (Lucas 18:30), numa referência ligeiramente diferente: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.
Em quaisquer das alusões, porquê passar um camelo pelo fundo de uma agulha? E, já agora, porquê exactamente um camelo?
Ora, na verdade, há aqui um erro na tradução, sabido e documentado desde Cirilo de Alexandria (378-444) que explicou que, no original grego, está escrito que Jesus falava na impossibilidade de uma corda (ou um cabo) passar pelo fundo de uma agulha. No Grego, kamilos significa corda, cabo, fio, ao contrário de kamélos, esta palavra, sim, significar camelos.
Será esta a explicação?
Entretanto, como agulhas também se denominavam as pequenas e estreitas entradas nos muros das cidades, onde um animal de grande porte, como um camelo, muito dificilmente passaria.
Será esta a… agulha?
Qual será, afinal, a mais assertiva?…
De qualquer modo, a partir de uma errada tradução e ou interpretação para o latim, a sentença passou assim, tal como a conhecemos, a todas as outras línguas e, com alguma naturalidade, persistiu até hoje.
Esta é a única certeza em torno da génese da expressão.

A propósito, s
abida a enorme capacidade de retenção líquida dos camelos, sempre houve alguma discussão sobre o modo como esta se processava. Embora o aparente mistério esteja há muito resolvido, o facto é que poucos sabem que, ao contrário do que é geralmente suposto – estar a solução nas suas duas corcovas – tudo se explica no seu focinho: as cavidades nasais deste viajante do deserto têm uma enorme capacidade de dilatação, aumentando assim, e muito, a superfície respiratória. Durante a noite, as cavidades nasais do animal absorvem a humidade contida no ar que ele expira. O camelo é um dos pouquíssimos animais capazes de realizar este processo de extrair água da própria respiração. Longos canais respiratórios agem como um sistema de refrigeração do ar, mantendo-o a uma temperatura bem mais baixa do que a do seu corpo. Se o ar exalado fosse quente e húmido, a evaporação da água seria completa. O camelo, diga-se em complemento desta curiosidade, consegue reter 70% dessa água!… 

(muito vai de Pedro a Pedro)